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Texto: Arilson Ventura / Imagem: Moska Santana

A história da resistência negra no Brasil tem início com a chegada dos primeiros escravizados trazidos da África. Desde então, as lutas pela sobrevivência, pela liberdade, pela dignidade e pelo reconhecimento são cotidianas. Ao longo dos tempos essas lutas foram ganhando novos formatos conforme os modelos de repressão do Estado foram mudando e as populações negras de todo o país se organizaram em entidades diversas que hoje chamamos Movimento Negro Brasileiro.

É neste movimento nacional que nós negros buscamos nos fortalecer apesar de algumas divergências com outras entidades ocorridas nos últimos anos. E quem disse que devemos concordar com tudo? O que importa de fato é que o que nós, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Rurais Negras Quilombolas (Conaq)*, bem como representantes das entidades negras do país, buscamos neste ano que se inicia unificar o Movimento Negro em uma pauta comum que compreenda todas as nossas demandas, lute por justiça social e pela garantia de nossos direitos humanos.

Janeiro de 2016 é um mês estratégico para que estejamos em unidade. Afinal, nele, teremos um importante espaço de voz internacional: o Fórum Social Mundial (FSM) – Um Outro Mundo é Possível, que no Brasil celebrará sua 15ª edição. Em preparação a este momento foi realizado em novembro de 2015, em Salvador, o Encontro Nacional de Entidades e Ativistas do Movimento Negro. Contando com representantes de mais de 30 organizações, adotamos como foco os eixos Justiça, Desenvolvimento e Reconhecimento, estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) para a Década dos Povos Afrodescendentes.

Sobre essas informações pactuamos e construímos consensos. Nossa pauta unificada foi fechada no empenho de ações de enfrentamento a todas as formas de racismo e preconceito e no acesso à educação, saúde entre outros aspectos importantes ao desenvolvimento humano. Nosso lema: Autonomia e Independência.

Nesse sentido, como representante da Conaq, gostaria de destacar a pauta do seguimento quilombola. Para começar, trago dados de nossa realidade. Atualmente, no Brasil temos um imaginário aproximado de 10.000 comunidades quilombolas espalhadas de Norte a Sul do país. Oficialmente, já sabemos que existem pouco mais de 5.000 quilombos identificados. Destes, pouco mais de 3.500 são reconhecidos e 2.500 certificados. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) tem em aberto outros 1.500 processos aguardando pela titulação. Somente cerca de 200 territórios quilombolas são definitivamente titulados.

A titulação definitiva que tem o papel de garantir a proteção de nossas comunidades muitas vezes parece algo inalcançável já que muitos de nossos mais velhos não têm o tempo exigido pelas burocracias para o alcance dessa conquista. Já a certificação, que funciona como uma espécie de salvaguarda, parece insuficiente na medida em que é vista como instrumento de conflitos. É uma medida também questionável quando se coloca em questão as ações que deveriam ser direcionadas à qualidade de vida dos quilombolas.

Para que se compreenda por alto as violações que nós quilombolas enfrentamos diariamente, cito as ameaças registradas em nossos territórios. No momento em que você lê este texto, mais de 1000 comunidades estão sendo impactadas por empreendimentos com os mais diversos fins – exploração mineral, construções de usinas, estradas e ferrovias, etc. Para que tenham acesso a um determinado bem, atropelam os direitos das pessoas que constituem esses espaços tradicionais, em muitos casos até o mais fundamental de todos: o de existir.

É nesse contexto que junto ao Movimento Negro, a Conaq quer levar a público por meio do FSM 2016 que, foram muitos os avanços alcançados nos mais de 500 anos de Brasil, porém para que esses avanços, especialmente em termos legais, se legitimem diante de toda a sociedade é preciso mais. É necessário ética e comprometimento do Estado. É preciso que cada pessoa veja no outro os seus desejos de direitos comuns.

Para debatermos todas essas questões e para juntos combatermos esses opressores que têm atrapalhado o progresso e a dignidade de nossa gente, a Conaq convida você para fazer parte desse movimento. Nossa proposta é expor a necessidade que temos de alcançar uma sociedade igualitária.

Nos encontramos no Fórum Social Mundial!

Arilson Ventura

Comunidade Quilombola de Monte Alegre /Espírito Santo

Coordenador Nacional da Conaq

* Instituída em Bom Jesus da Lapa/BA, em 1996, a CONAQ é uma organização social, sem fins lucrativos, que tem como propósitos defender os remanescentes de quilombos do Brasil lutando pela garantia de seus direitos individuais e coletivos, pela valorização de sua identidade étnica, pela proteção de seus territórios tradicionais, pela preservação dos biomas neles existentes e incentivando o uso comum e sustentável dos recursos naturais, referências para a vida.

Texto: Joselicio Junior / Edição de Imagem: Pedro Borges

Em seu doutorado, posteriormente livro e documentário, Joel Zito Araújo faz uma análise muito precisa sobre a representação da negra e do negro nas telenovelas. O título da sua obra já nos diz muito "A Negação do Brasil", ou seja, de acordo com a tese, o que é visto nas telenovelas não representa a realidade brasileira.

Passados 17 anos dos seus estudos, percebemos que o discurso da democracia racial continua reinando na teledramaturgia brasileira e os papeis das atrizes e dos atores negros continuam sendo subalternizados, estereotipados e sempre representam um núcleo muito pequeno no conjunto das obras.

Entre as atuais personagens, a que mais vem me chamando a atenção é a empregada doméstica Dinorah, interpretada pela atriz Carla Cristina Cardoso na novela “A Regra do Jogo”. No enredo, a personagem trabalha para uma família falida que tenta ostentar um padrão de classe média e, mesmo sem receber salário há muito tempo, Dinorah se mantém submissa ao seu patrão Sr. Feliciano, Marcos Caruso. A condição de submissão chega ao ponto de tirar recursos das suas economias para atender a regalias do seu "querido" patrão.

A cena mais chocante para mim foi quando Feliciano foi morar na rua com vergonha da família, pois tinha perdido o apartamento que estava hipotecado, e assim que Dinorah encontrou o seu patrão passou a mimá-lo com regalias, bebidas e comidas caras. Mas o mais impressionante é que Feliciano fez também amizade com um morador de rua, negro, todo estereotipado, como mendigo bêbado. Durante as visitas do novo colega ao patrão, o olhar de Dinorah era de total desprezo e repulsa daquele sujeito em situação de rua.

Essa cena dá a real dimensão dos efeitos do racismo na sociedade brasileira. Ela apresenta como o racismo extrapola a dimensão econômica e se consolida como um modo de classificação que define os papeis sociais que cada um pode ou não exercer. A personagem Dinorah não tem família, não tem amigos, não tem trajetória, portanto, não tem identidade, é apenas a empregada, bem humorada, e que ainda faz bico na praia para manter os mimos de seu "querido" patrão, pois ela prometeu à falecida esposa que cuidaria dele até os seus últimos dias.

Dinorah não se reconhece mulher negra, não se reconhece pobre, por isso é indiferente com o negro em situação de rua. O seu papel na sociedade está muito bem definido e é o de servir, mesmo que ela tenha condições econômicas melhores do que aqueles que ela serve, pois essa é a ordem "natural" das coisas, é como as pessoas estão programas para viver.

Os papéis destinados a atrizes e atores negros são muitas vezes carregados de preconceito racial Os papéis destinados a atrizes e atores negros são muitas vezes carregados de preconceito racial

Essa é uma das maiores perversidades do racismo, a naturalização dos lugares sociais que cada um pode ou não ocupar. Dinorah participa do chamado núcleo humorísticos da novela, onde tenta passar a ideia de que tudo é uma brincadeira, uma piada, ao mesmo tempo em que reforça estereótipos.

As telenovelas não tem apenas o papel de entreter as pessoas, mas sobretudo de construir valores, ideologias  e reforçar estereótipos que mantém os espaços de privilégios, construídos historicamente pela elite branca nacional. Dinorah é o símbolo que reforça a ideia de que o lugar social da mulher negra é o de servir, assim como os demais personagens reforçam outros estereótipos que sempre colocam o povo negro em condições de subalternidade.

O trabalho de Joel Zito escancara como essas narrativas foram sistematicamente pensadas ao longo da história. A grande novidade vem sendo o papel, cada vez maior, que as redes sociais e as novas tecnologias vem tendo para pautar novas narrativas por meio de denuncias, cartas de repúdios e até mesmo  dando visibilidade a novos enredos, além de possibilitar articulações e formas alternativas de comunicação.

A disputa simbólica vem ganhando cada vez mais peso na sociedade brasileira ao mesmo tempo em que os pilares do monopólio dos grandes meios continuam intactos e altamente subsidiados pelo Estado. Essa é uma conta que não fecha. Não é possível pensarmos na consolidação da democracia sem a democratização dos meios de comunicação. Nós não iremos convencer a elite branca que ela deve deixar de ser racista, mas podemos produzir mecanismos, através da luta política, que possibilite que outros núcleos de pensamento também possam construir suas narrativas e símbolos.

Essa é uma luta primordial para emancipação e empoderamento do povo negro.

Joselicio Junior, mais conhecido como Juninho é presidente estadual do PSOL - SP e militante do movimento negro.

Texto: Marcela Johnson / Foto: Guilherme Moraes

Nem começou o ano de 2016 e já nos deparamos com um novo ataque dos governos: mais um aumento no preço das passagens de ônibus/metrô. Mas o que nós negros e negras temos a ver com isso?

A história do Brasil colocou negros/negras nas piores condições sociais. Basta uma pequena olhada nos índices sociais para perceber que os negros são a maioria dos que ocupam esse espaço marginalizado. São inúmeras táticas para garantir a continuidade do racismo e das condições de vida precárias.

Em relação ao transporte público não é diferente. A maioria de nós passa horas no transporte público para podermos trabalhar. São os negros a maioria dos moradores das periferias de São Paulo, onde o transporte é ainda mais caótico, ônibus lotado todos os dias, metrô abarrotado. Somos tratados como gado. São os navios negreiros contemporâneos que garantem que a “escravização capitalista” se sustente levando a mercadoria humana para os postos de serviço.

Para uma parcela dos trabalhadores, os que ainda têm alguns direitos trabalhistas, existe o VT (vale transporte), que na verdade é retirado do nosso próprio trabalho e parte de nosso salário. Ora, como se já não bastasse deixar no trabalho horas de nossa vida, ainda somos obrigados a pagar para ir até o local onde somos explorados?

Bom, mas mesmo o VT é hoje um beneficio que a maioria de nós não possui, já que estamos nos trabalhos precarizados, sem carteira assinada, sem muitos dos direitos trabalhistas conquistados com muita luta. Ao mesmo tempo a enorme distância entre periferia e centro faz com que sejamos os que mais dependem desse transporte e os que mais gastam proporcionalmente em relação ao nosso salário.

E quando chega o final de semana e queremos aproveitar o pouco tempo para acessar cultura, espaços de lazer…. R$3,80 no mínimo, só pra chegar. Esse mesmo transporte que serve pra nos levar todo dia paro trabalho, nos impede de aproveitar e conhecer a cidade em que vivemos.

Não podemos esquecer também da maior vulnerabilidade das minas pretas, que além de estarem expostas aos assédios no próprio transporte também são muito mais vulneráveis a ataques machistas esperando o ônibus na quebrada, andando de casa até o ponto, já que as empresas organizam o transporte da melhor forma para que seus lucros sejam mais altos, não para melhor atender os usuários.

É preciso lutar por um transporte público de qualidade, que seja controlado pelos trabalhadores do transporte e os usuários, que funcione de forma mais inteligente para que possa melhor atender a população e não a sede de lucro dos patrões. Nós, negros e negras e o próprio movimento negro, devemos entrar nessa luta, afinal o transporte também é uma demanda nossa e somos nós os mais afetados pelo aumento das passagens e pela péssima qualidade do serviço

Foto: Norma Odara / A repressão policial tem sido intensa em todas as manifestações contra o aumento da passagem Foto: Norma Odara / A repressão policial tem sido intensa em todas as manifestações contra o aumento da passagem

Num país onde nós somos a parcela mais precarizada da população, toda a demanda popular e operária deve ser vista também com uma demanda negra e deve ser encarada como uma luta nossa. Mais do que isso é preciso pensar em uma saída que unifique as demandas mais especificas da luta contra o racismo em nossa sociedade a um programa que responda aos problemas do transporte.

Esses dias eu estava pensando se não deveríamos primeiramente defender a efetivação de todos os terceirizados do transporte público sem concurso. Igual trabalho, igual salário para brancos e negros, efetivos e terceirizados. Não só isso, que a contratação para as obras públicas para a ampliação do transporte público garanta contratação preferencial de negros, que são os que mais têm sofrido com o desemprego. Enfim são inúmeras pautas que devemos desenvolver de forma combinada.

A luta contra o racismo não deve, nem pode estar separada da luta contra a realidade material vivida por todos os negros e negras e isso só pode ser feito em conjunto com todos os trabalhadores e trabalhadoras superando essa sociedade de exploração e opressão. Essa aliança tão importante não pode significar de forma alguma a secundarização das nossas demandas, mas deve potencializa-las.

Para que isso seja possível, nós devemos participar desses processos de luta enquanto sujeitos ativos, levantando nossas demandas e mostrando que nós também não aguentamos mais um aumento!

Marcela de Palmares nasceu em São Paulo, é estudante de educação física pela Universidade de São Paulo, USP, ativista revolucionária com atuação no movimento negro. Marcela estuda sobre os negros e a revolução.

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