fbpx

Texto: Francy Silva / Ilustração: Moska Santana

A banalização da violência contra jovens negros

Entre Dorvi e os companheiros dele havia o pacto de não morrer. Eu sei que não morrer, nem sempre é viver. Deve haver outros caminhos, saídas mais amenas. Meu filho dorme. Lá fora a sonata seca continua explodindo balas. Neste momento, corpos caídos no chão, devem estar esvaindo em sangue. Eu aqui escrevo e relembro um verso que li um dia. “Escrever é uma maneira de sangrar”. Acrescento: e de muito sangrar, muito e muito... (EVARISTO, 2015, p. 109).

Era fevereiro de 2010. Por volta do meio-dia, ouvi três disparos secos. Em pouco tempo, todos nós já sabíamos: o barulho viera da rua de cima. Dois jovens encapuzados e de motocicleta haviam disparado contra três garotos. Um deles, de 15 anos, conseguiu fugir antes de ser atingido. O segundo, também de 15 anos, levou um tiro nas costas, perto da coluna, o que o deixaria durante um bom tempo na cadeira de rodas. O terceiro, de 17 anos, fora atingido com um tiro na cabeça e morreu na hora. Os três eram meus alunos. Os três eram negros e pobres. Os três eram traficantes e usuários de drogas.

Jonas, o garoto morto, era filho de mãe solteira e tinha mais cinco irmãos. Dois deles também estavam envolvidos no mundo do tráfico. Jonas estava cursando o primeiro ano do Ensino Médio. Era um bom aluno. Faltava muita aula, mas quando estava presente era muito participativo. Aos poucos, Jonas começou a mudar o seu comportamento em sala de aula. Tornou-se rebelde e agressivo. Desconfiei que estivesse usando drogas. Algum tempo depois, ele abandonou definitivamente a escola. Minhas suspeitas se confirmaram. Jonas tornara-se traficante e usuário de crack e caiu na armadilha de ficar devendo aos seus parceiros que não perdoaram a dívida. Como não tinha dinheiro para pagar o que devia, Jonas acabou pagando com a própria vida. Morreu poucos meses depois de entrar no mundo das drogas.

Dias antes de sua morte, o encontrei na rua. Falei pra ele voltar pra escola, que estava fazendo falta. Disse-me sorrindo “vou voltar, professora!”. Não voltou. Partiu aos dezessete anos. Tão garoto, tão cheio de sonhos...

 

"Acerto as contas, as minhas, levo o concluído e entrego ao bacana. Nunca falhei. Ele retira o que é dele e devolve o que é meu. Hoje não terá devolução alguma. Devo. Falta. A dívida do outro é minha dívida. É? O apartamento da chefia é bonito. Olhando para baixo vê o mar. Quero a morte lenta e calma. Quero boiar no profundo do mar. Quero o fundo do mar-amor, onde deve reinar calmaria. É lá no profundo fundo que vou construir um castelo para a morada de meu filho, Bica, predileta minha, vai também. Ela sabe que da ponta da escopeta também sai carinho [...]. O mar lá embaixo abrindo todo, todo. Grande é o mar. Quando não estou com a minha arma por perto, me borro de medo. Tenho vontade de chorar. Olhando o mar lá de cima, vi que pequeno sou eu [...]. Quero o fundo do mar. Quero a predileta minha e o meu putinho que nasceu. Um dia vou ser navegante [...]. Quero fazer uma viagem profunda, pro fundo do mar-amor. Predileta minha, o putinho meu e eu, os três... A viagem funda que afunda. A vida vale? A dívida é minha? Com quem dividir essa dívida? Essa dúvida?" (EVARISTO, 2015, p. 104).

Crack ganhou muitos usuários primeiro nos EUA na década de 1980, com o uso entre as comunidades negras e latinas. Foto: Robson Ventura/Folhapress

Crack ganhou muitos usuários primeiro nos EUA na década de 1980, com o uso entre as comunidades negras e latinas. Foto: Robson Ventura/Folhapress

Oito meses depois da morte de Jonas, estava voltando da faculdade quando fui informada do assassinato de outro jovem. Mateus tinha sido meu aluno por duas vezes, e abandonara a escola nas duas ocasiões.  Mateus havia sido abandonado pela mãe ainda bebê e fora criado pela avó doente mental e pelo pai, usuário de drogas. Tinha sido meu aluno em 2009 e havia abandonado as aulas no meio do ano. Em 2010, voltou a estudar. Estava empolgado no início do ano letivo. Sempre muito crítico e participativo, era o primeiro a terminar as atividades, sem dúvida, o melhor aluno da turma.

Numa das aulas, escreveu um poema que dedicou a uma colega. Estava apaixonado. Achei que naquele ano ele não desistiria. Desistiu mais uma vez. Eu e outras professoras tentamos convencê-lo a voltar pra escola, mas as tentativas foram frustradas. Durante o tempo em que frequentou as minhas aulas, Mateus nunca me desrespeitou, jamais alterou o tom de voz, mesmo quando estava irritado. Gostava de ficar quieto em seu canto. Tinha dia que participava ativamente das aulas, mas normalmente preferia o silêncio. Sabia que algo o angustiava. Perguntava o que estava sentindo, mas ele dizia que não era nada. Que estava tudo bem. Não estava. Nunca esteve. E eu me sentia impotente por não poder fazer nada que o fizesse sentir-se melhor.

Em meio ao caos, Mateus encontrou refúgio no crack. Foi assassinado, porque assim como Jonas, ficou devendo aos traficantes. Depois da sua morte, lembrei-me então de uma atividade que tinha realizado no primeiro dia de aula. Pedi para que os alunos e alunas escrevessem uma carta dizendo quais eram os seus objetivos naquele ano. Que falassem dos seus sonhos e expectativas. Ao final do ano letivo, abriríamos as cartas para ver se o que tinham desejado havia se concretizado. Abri a carta do Mateus. Nela ele falava do seu maior sonho: conhecer a sua mãe. Dizia também que queria se tornar uma pessoa melhor. Não fazer mal aos outros. Queria ser bom, fazer o bem. Não teve tempo de realizar os seus sonhos. Morreu aos dezenove anos. Mateus queria ser bom, mas esse mundo é muito ruim.

Desde a morte de Mateus, muitos outros garotos, majoritariamente negros, foram assassinados em minha cidade natal, um município com menos de sete mil habitantes. Em seis anos, já foram inúmeras mortes, todas seguindo o mesmo padrão. Os primeiros assassinatos, em uma cidade tão pequena, provocaram certo pânico na população. Mas, com o passar do tempo, as pessoas passaram a se acostumar com as mortes. Afinal, não estavam morrendo “pessoas de bem”, mas bandidos. E “bandido bom é bandido morto”, especialmente se for negro e pobre.

 

"Porra, o cara me deu um banho e eu estou escorregando na água dele, com sabão de lavar cachorro. O prazo está terminando e o meu também. Busco aquele puto no inferno, pois sei que os homens de Baependi vão me buscar também. Eles me catarão debaixo da saia da minha mãe, se preciso for. E a gente combinamos de não morrer. Que merda, selamos agora a própria morte. [...] Penso no risco que estou correndo. Risco não, tudo já é certo. A solução está definida. O destino traçado. Não há recuo. Não estou aflito. Não estou desesperado. Não estou calmo. Não estou inocente ou culpado. Apenas estou sabendo que daqui a pouco, questão de um dia e meio, não estarei mais. Nem eu, nem ele. Acabo com ele, mas isto não resolve. Outros acabarão comigo. Nosso trato de vida virou às avessas. Morremos nós, apesar de que a gente combinamos de não morrer. A morte às vezes tem um gosto de gozo? Ou o gozo tem um gosto de morte? [...]. Vou matar, vou morrer. É lá no mar que vou ser morrente. Mar-amor, mar-amar, mar-morrente. É no profundo do fundo, que guardarei para sempre as lembranças do meu putinho e da dileta minha". (EVARISTO, 2015, p 106-107).

Guerra às drogas é a principal desculpa dada por especialista em Segurança Pública para justificar o genocídio da juventude negra

Na última semana de janeiro de 2016, mais um garoto negro virou estatística. João tinha 16 anos. Foi meu vizinho desde que nasceu. Posso assim dizer, que o vi nascer e morrer. João sempre foi um menino de poucas palavras, meio arredio e desconfiado. João guardava em si uma revolta. Algumas pessoas diziam que era por causa das muitas surras que levara do pai. Um homem que acreditava que ao castigar o filho poderia livrá-lo do mau caminho.


João seguiu outros caminhos. Aos dez anos já traficava. Era mais um garoto que vendia drogas para poder ter dinheiro para comprar aquilo que o seu pai, trabalhador rural assalariado que sustentava uma família composta por cinco pessoas, não podia lhe oferecer. O pai batia cada vez mais no filho, à medida que ia percebendo que esse estava cada vez mais envolvido no mundo das drogas. Sempre lhe disseram esse era um caminho sem voltas, mas por muito tempo acreditou que poderia resgatar o seu menino. Desistiu quando o filho tornou-se muito agressivo. João passou a ser temido na cidade. Ganhou o respeito que sempre quisera. Deixou de ser mais um menino negro excluído e marginalizado para ser o centro das atenções. A fama lhe trouxe muitos inimigos.

João passou a ser perseguido e viver na penumbra. Em dezembro de 2015, João cometeu um assassinato. Matou um traficante que estava lhe devendo. O jovem assassinado, branco e de classe média, era de uma família muito conhecida na cidade. A população ficou revoltada. Repensou, por um momento, a premissa de “bandido bom, bandido morto”. O rapaz usava e vendia drogas, mas era de uma boa família. Não podia ter morrido daquele jeito.

Depois do crime, João passou a ser ainda mais odiado pelos cidadãos de bem.  Sua cabeça foi colocada a prêmio. Todos queriam a morte do “negrinho criminoso”. O desejo dos “homens e mulheres de bem” foi realizado no dia 28 de janeiro. João foi morto com um tiro à queima roupa. Um tiro certeiro no peito. Foi atingido longe de casa, mas ainda teve forças de correr na tentativa de chegar à sua residência. Sucumbiu faltando alguns poucos metros para chegar ao seu lar. A mãe, que tinha acabado de voltar da igreja, correu desesperada ao encontro do filho. Chegou a tempo de ouvir a última respiração do seu menino. O pai foi poupado de assistir a essa cena, não estava em casa no momento em que o fato aconteceu. Estava trabalhando em uma fazenda distante. Soube apenas no dia seguinte da morte do filho.

Criminalização da juventude negra pelo Estado e pelos veículos de comunicação alimenta o genocídio do povo negro Criminalização da juventude negra pelo Estado e pelos veículos de comunicação alimenta o genocídio do povo negro

No velório, estava inconsolável. O homem rude chorava feito criança. Fui ao encontro dele na tentativa de falar alguma coisa que o confortasse, mas ainda não inventaram palavras capazes de consolar um pai ou uma mãe pela perda de um filho. Olhei para ele e balbuciei alguma coisa, uma dessas frases bem clichês. Ele me disse em um choro compulsivo: “perdi o meu filho para as drogas”. Eu não consegui falar mais nada. Não havia o que dizer. Enquanto os pais choravam desolados pela perda do filho, os “cidadãos de bem” celebravam a morte de mais um bandido. Mais um negro delinquente que havia escolhido viver na criminalidade.

Para essas pessoas, viver no mundo do crime é simplesmente uma escolha que esses garotos fazem.  É como se eles já tivessem nascido dizendo “mãe, eu quero ser bandido quando crescer”. Os “cidadãos de bem” não compreendem ou não querem compreender que quando um jovem entra no mundo da criminalidade não é uma mera escolha. Há uma série de fatores que contribuem para que um garoto torne-se um usuário de drogas, traficante ou um assassino. Sobretudo, se esse jovem for pobre, negro e da periferia. Nascer pobre e preto em um país racista, excludente e desigual é um fardo pesado demais que esses meninos têm que carregar.

Vivemos em uma sociedade capitalista. A sociedade do consumo, das aparências, em que as pessoas são valorizadas pelo o que tem ou demonstram ter, não pelo o que realmente são. A maioria dos jovens que entra na criminalidade quer ter o celular de última geração, um tênis maneiro, um casaco de marca. Nascidos sob a marca da diferença e da exclusão, o ter lhes proporciona uma sensação de poder, uma sensação de que eles existem no mundo. É uma maneira de se auto afirmarem, de conseguirem reconhecimento e respeito. Esses garotos, negros e pobres, na maioria das vezes, são marginalizados muito antes de se tornarem marginais. E quando os “cidadãos de bem” celebram a morte desses jovens, pensando que estão se livrando de um problema, talvez não consigam perceber que eles também fazem parte do problema. Quando um “cidadão de bem” vibra com a morte de um garoto envolvido no mundo do crime, ele não está contribuindo para o fim da violência, mas colaborando com ela.

A violência é um problema social. E já que fazemos parte de uma mesma sociedade, somos, em alguma medida, culpados pelas mortes desses jovens. Somos vítimas, mas também algozes. Em vez de comemorar a morte desses jovens que estão vivendo na criminalidade, é preciso pensar em estratégias eficientes que possam evitar que esses garotos entrem no mundo do crime e\ou tentar recuperar aqueles que estão nele.

“Deve haver uma maneira de não morrer tão cedo e de viver uma vida menos cruel” (EVARISTO, 2015, p. 108).

* Os excertos destacados no texto foram retirados do conto “A gente combinamos de não morrer”, do livro Olhos D’água, de Conceição Evaristo, grande escritora afro-brasileira. Olhos D’água foi indicado ao Prêmio Jabuti 2015 e conquistou o 3º lugar, na categoria contos e crônicas.

* Todas as histórias narradas são verídicas.

Francy Silva é Mulher, Negra, Nordestina, Feminista, Militante do Movimento Negro. É integrante do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros – NEAB Viçosa. Doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC Minas, estuda a produção literária de escritoras negras brasileiras e escritoras dos países africanos de língua portuguesa. Atriz nas horas vagas e professora por vocação. Acredita na educação como uma importante arma no combate ao racismo e a todas as práticas discriminatórias.

Texto: Roberta Lima / Ilustração: Melissa Fonseca

Ser mulher negra periférica e poder sair de casa para estudar em outra cidade é um privilégio que poucas mulheres negras têm. Poder fazer esse trajeto me faz sim mais privilegiada, já que a maioria das mulheres periféricas tem como destino tomar conta de casa e dos irmãos quando não são mães precocemente. É perceptível a diferença de qualidade de vida que tenho ao comparar a minha vida no extremo sul da cidade de São Paulo e em Araraquara, onde posso morar sem me preocupar com os problemas que assolam a periferia paulistana. É importante enfatizar a disparidade entre a minha vida na cidade em que estudo e na cidade em que nasci. Nesse embate é importante pensarmos para quem e como estamos militando, principalmente quando pensamos no movimento negro e na periferia, lugar onde a população é majoritariamente negra.

Reafirmar as mazelas do espaço em que nasci e cresci não é negar os problemas da cidade na qual eu resido, mas é provar que vivo sim em uma bolha, que é rompida quando volto pra minha cidade, para um bairro com um dos maiores índices de violência, onde a maioria das mulheres negras não tem o privilegio de estudar fora ou em qualquer lugar. Local onde o acesso à educação, saúde, lazer, moradia e transporte são precários. Um espaço em que nossas vidas valem menos, bem menos. E se não somos violentadas nas ruas, nos becos e nas vielas muitas vezes somos violentadas na própria casa pelo companheiro.

Eu enfatizo toda essa minha experiência pra dizer o que muitas militantes já vêm apontando e o que os dados nos mostram. Enquanto discutimos a forma padrão de militância temos mulheres negras sofrendo violência fora e dentro de casa. Se pararmos pra pensar, mesmo no meio universitário, onde temos toda essa desconstrução, há inúmeros casos de violência contra as mulheres, o que pensar da realidade para além dos muros da universidade?

Na bolha chamada universidade pública “discutimos” sobre racismo, machismo e todos os ismos que podemos imaginar e isso é o mínimo que devemos fazer, já que é inegável que o espaço da universidade nos proporciona um ambiente de reflexão e desconstrução, ou pelo menos deveria. No entanto, é na periferia que encontramos um disparate entre o nosso discurso e a realidade. E esse abismo nos traz algumas questões: Essas discussões dentro da universidade ultrapassam o meio universitário? Nós, pretas que ocupamos esse espaço privilegiado, estamos realmente pensando nas demandas que o movimento negro, mais especificamente nas demandas das mulheres negras, aquelas que não podem ocupar esse lugar de privilégio, mulheres que entram na universidade pela porta da limpeza terceirizada? Será que não estamos nos distraindo com pequenas discordâncias dentro do movimento?

Uma das coisas que mais me encucam é pensar se realmente estamos fazendo algo para os nossos. Estamos propondo algo para além das discussões nas redes sociais? Estamos pensando na violência que a mulheres negras não universitárias estão expostas?

De acordo com o mapa da violência de 2015, o número de mulheres negras mortas cresceu 54% em 10 anos (de 2003 a 2013). No ano de 2013, em torno de 2.875 mulheres negras foram mortas, enquanto que o número de mulheres brancas assassinadas caiu 10% no mesmo período.

São tantas as pautas do movimento e são tantas mortes que entram pra estatística. Qual será o nosso papel dentro desse meio elitizado e branco que é o mundo acadêmico? E eu falo como estudante negra e periférica de ciências sociais. Como romper com uma estrutura branca conservadora? Como trazer as demandas e pautas invisibilizadas da população negra periférica? Especificamente, como colocar em pauta a vida da mulher negra? Como fazer isso quando estamos em menor número nesses espaços.

Enquanto eu não encontro as respostas para tantas perguntas feitas, tenho certeza que toda vez que eu retornar para o extremo sul da zona sul de São Paulo eu vou tomar uma dose de realidade pra não deixar morrer a ideia de dias melhores para as mulheres negras que ali resistem.

Roberta Lima é estudante de ciências sociais, preta, periférica e feminista. Faz parte do Coletivo Negro Abisogun e do grupo de estudos MIN ( Militância Intelectual Negra) do NUPE da Unesp Araraquara.

Texto: Danilo Lima / Edição de Imagem: Pedro Borges

As ações afirmativas estão, sem dúvidas, entre as maiores conquistas recentes do movimento negro no Brasil, juntamente com a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e da lei 10.639-03.

Segundo dados oficiais da Seppir (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), cerca de 150 mil estudantes negros(as) ingressaram em instituições federais de ensino superior nos primeiros três anos da Lei de Cotas 12.711-2012.

Mas será que deveríamos comemorar esse número? Será que todos(as) esses(as) estudantes são mesmo negros(as)? Se forem, são 150 mil estudantes negros cotistas a mais ingressando na universidade, o que implica, no mínimo, em algumas medidas: na necessidade do aumento dos recursos destinados à assistência estudantil; na ampliação do pessoal técnico especializado para o atendimento das demandas especificas deste grupo; e em um rearranjo das universidades para não tornar a formação superior ainda mais hostil à presença de estudantes com perfil socioeconômico de baixa renda. E isso tem sido feito?

Para além dos pontos mencionados, há a necessidade urgente de se estabelecer uma forte fiscalização do sistema de ações afirmativas, tanto nas universidades quanto nos concursos públicos. Dia a pós dia estouram denuncias de fraudes nas cotas, desde Salvador até o limite da fronteira Sul do país os casos se multiplicam.

Há poucos dias a estudante Thaís Vieira, negra e cotista da Universidade Federal da Bahia, teve que desistir do curso e voltar para São Paulo, pois durante todo o tempo em que esteve na universidade não conseguiu assistência estudantil. Mesmo após várias tentativas, ela se deparou com as negativas da universidade, que por sua vez, pôs a culpa na atual crise econômica. Somente na UNILA (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), localizada região da tríplice fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai), no município de Foz do Iguaçu, cerca de 200 estudantes receberam o aviso de corte de bolsas para 2016.

Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Espirito Santo tiveram que realizar vários seminários com a representação de acadêmicos, juristas e entidades do movimento negro para discutir como impedir as recorrentes tentativas de fraudes nos concursos públicos.

Membros coordenadores da avaliação sobre a política de cotas em Brasília

Membros coordenadores da avaliação sobre a política de cotas em Brasília

Em setembro de 2015, estivemos na Comissão Permanente de Direitos Humanos do Senado Federal, com a finalidade de tratar da legalidade das cotas, das tentativas de fraude e da necessidade de fiscalização das politicas de ação afirmativa. A audiência foi presidida pelo o senador Paulo Paim e teve como tema:

Cotas para negros e o conflito entre o Direito Administrativo e o Direito Constitucional

A fim de retomar as cobranças e denuncias feitas naquela oportunidade, transcrevo aqui na íntegra a minha fala registrada na ata oficial da audiência:

"O Sr. Presidente (Paulo Paim. Bloco Apoio Governo/PT - RS) – Muito bem, João Bosco Borba, Presidente da Anceabra! De imediato, passo a palavra a Danilo Rosa de Lima.

O Sr. Danilo Rosa de Lima – Bom dia a todas e a todos! É uma satisfação enorme estar aqui e poder me expressar para trazer um pouco das nossas aflições e questionar sobre alguns dos nossos sonhos que estão sendo frustrados.

Antes de tudo, eu quero dizer novamente da grande figura do Senador Paulo Paim, com iniciativas tão belas quanto esta.

Eu pude acompanhar a audiência homenageando Abdias do Nascimento. Foi emocionante. É bastante importante lembrar isso. Inclusive, Abdias do Nascimento escreve o livro O Quilombismo e o dedica à juventude negra brasileira. Então, é uma referência sempre presente, quando não nos nossos discursos, nos nossos corações.

Para hoje, a inquietude a partir de algumas falas é inevitável. Trazendo um pouco do que já adiantou o Senador, do ingresso até o diploma, existe uma jornada que é, para o estudante negro, dolorosa, sofrida, conflitante, combativa e, muitas vezes, determinante, porque faz com que os estudantes, por conta de um problema de racismo ou de falta de políticas necessárias, abandonem a sua universidade e, mais, com que se sintam tão violentados na sua subjetividade que não queiram mais entrar na universidade, não queiram mais participar desse espaço. Eu acho que essa é uma discussão que precisamos fazer.

Eu tenho acompanhado alguns dados sobre as políticas afirmativas, e, se não me engano – corrija-me, Secretário, se eu estiver equivocado –, são 150 mil estudantes negros que ingressaram por meio das políticas afirmativas. São estudantes negros, destaco novamente. E aí eu fico me perguntando qual é o montante adicional de recursos que têm sido liberados ou articulados pelo Governo Federal para garantir que os estudantes permaneçam na universidade, porque entendemos que o estudante negro entra com demandas específicas, assim como o estudante indígena entra com demandas específicas, sobretudo às ligadas à questão financeira. Então, qual o recurso está sendo articulado para isso? Como a questão do corte tem nos afetado? Isso está claro para todo mundo?

Eu sou um estudante que tenho bolsa de pesquisa, mas também não tenho. E aí eu volto à referência do sonho frustrado: você ingressa na universidade, mas, às vezes, não tem condição nenhuma de permanecer na universidade. A minha bolsa está atrasada.

Então, você tem de criar alternativas para se manter. E, com certeza, esse não é um fato isolado.

Esta é outra questão que me deixa bastante inquieto: se existe uma previsão normativa no sentido de que as comissões avaliadoras sejam instrumentos efetivos que podem ser usados para o combate às fraudes, por que nós, entidades negras, movimentos negros e Governo não assumimos a postura de utilizar esse instrumento de forma objetiva como um método de barrar a fraude?

Eu tenho plena convicção de que o direito positivo, a lei por si só, não resolve o problema do negro. Há uma lei que criminaliza o racismo que não é de hoje, e esta audiência é evidência clara de que o racismo no Brasil ainda é um problema estrutural que precisamos vencer. Então, tão somente estar escrito na lei que existe uma previsão não garante nosso direito. Penso eu que nosso esforço, nossa dedicação tem de ser no sentido de efetivar esses comitês em todas as esferas, tanto nos certames dos concursos quanto nas cotas nas universidades. Precisa haver comissões que avaliem isso. Eu vejo, na minha universidade, que existem pessoas que, definitivamente, não têm o perfil étnico-racial marcado, mas que estão utilizando a política de cotas. Isso é visível.

Por fim, eu acho que o Governo tinha de ter esse protagonismo. O movimento negro tem denunciado isso há bastante tempo. Eu acho que deveria sair do Governo...

(Soa a campainha.)

O Sr. Danilo Rosa de Lima – ...a assertiva de posicionar os comitês avaliadores nacionalmente como instrumento central e essencial para o combate ao racismo e às fraudes nas ações afirmativas.

Era isso.

Obrigado pela oportunidade.

O Sr. Presidente (Paulo Paim. Bloco Apoio Governo/PT – RS) – Muito bem, Danilo Rosa de Lima, que, de forma objetiva e direta, ficou no tempo!"

Membros da Educafro no debate sobre a avaliação da política de cotas Membros da Educafro no debate sobre a avaliação da política de cotas

E as instituições de ensino?

Mas, além destes pontos apresentados, se quisermos vencer a batalha contra as fraudes, será preciso trazer outro polo fundamental neste debate: as instituições de ensino superior e os gestores públicos que organizam concursos.

Se por um lado há um indivíduo mau-caráter que intencionalmente provoca dano ao direito de ação afirmativa dos estudantes negros(as) e que deve responder criminalmente por isso, por outro lado, a instituição muitas vezes é conivente e não faz efetivamente nada para evitar ou punir as fraudes.

As instituições que apresentam recorrentes casos de fraude nos processos seletivos com ação afirmativa também precisam ser judicialmente responsabilizadas e seus gestores enquadrados por improbidade administrativa, uma vez que não estão exercendo zelo pela estrita observância dos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade com o bem público.

Danilo Lima é ex. Diretor de DCE - UFSCar e conselheiro municipal juventude em SP. Compõe coordenação do Coletivo Nacional de Juventude pela Igualdade Racial - CONAJIR, bem como a da Juventude Educafro, é articulador Fórum Nacional de Juventude Negra e membro do Grupo de Estudos Étnico-Raciais na Universidade Federal de São Carlos. Danilo é também um dos articuladores nacionais do EECUN, Encontro de Estudantes de Coletivos Universitários Negros.

 

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com