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Texto: Karine Lima / Edição de Imagem: Pedro Borges


Desde criança minha mãe me ensinou que o valor da minha beleza estava além dos olhos das pessoas, que não importava o que eles diziam ou viriam a dizer, a minha beleza e a minha cor eram algo que eu deveria me orgulhar.

Hoje entendo e sei que ela realmente estava certa, mas aos cinco anos você não tem certeza disso. Pelo menos eu não tinha essa certeza. Minha mãe, da maneira dela, sempre foi muito militante da causa e sempre se preocupou com o racismo que inevitavelmente eu iria sofrer. Não por desacreditar no bom senso das pessoas, mas por ter em casa uma prova viva de que o racismo realmente existe e parte de todos os lados.

Minha irmã aos seis anos de idade, na mesma escola infantil em que eu estudava, sofreu racismo da própria professora, que a chamou de macaca. Minha irmã sem entender nada e sem saber o porquê de tal comparação contou a minha mãe, que ao saber de tudo, foi até a escola. A professora foi afastada, todavia, meses seguintes, já estava lecionando em outra instituição. Não sei nem se isto chegou a servir como uma reflexão para todos os envolvidos no caso. Na verdade, acredito que não.

A escola é mais um lugar de manifestação evidente do racismo A escola é mais um lugar de manifestação evidente do racismo

Eu nunca recebi tal comparação por parte dos educadores, entretanto, como diz a frase: “Um olhar vale mais do que mil palavras”. Quantos olhares passaram por mim, quantos sorrisinhos no canto da boca de piedade como se eu precisasse de tal piedade. Quantos “tadinhas” eu ouvi como se eu realmente necessitasse daquilo.

Mas quando criança, você acha que isso é uma demonstração de afeto e você acaba ficando feliz com isso. Já com os colegas de sala as coisas eram diferentes. Nem sei na verdade se posso chamar de colegas. Até hoje o meu pensamento talvez possa ser romantizado, mas colega para mim não faria tal piadinhas sem graça, hoje o “famoso” bullying. Os apelidos vinham de todos os lados desde o tamanho do meu nariz, testa e cabelo. Chorei, na maioria das vezes e as lágrimas não saiam, porém a dor estava pulsando dentro de mim e o único pensamento que tinha era: “Porque a cor da minha pele incomoda tanto?”.

Esse questionamento permaneceu até a adolescência onde as coisas ainda se perduraram e os olhares ainda permaneciam. Os apelidos já não eram mais os mesmos, passaram a ser, a meu ver, ainda mais ofensivos: “Maria Fumaça”; “carvão”, além das frases racistas: “tinha que ser preta”; “não sou racista, mas não namoro negras”; “as negras são mais fogosas na cama” ; “quando você foi feita te deixaram queimar?” entre outras coisas.

Apesar de sofrer com isso, nessa época já tinha a dimensão do que era o racismo. Não precisei de aula para aprender, a pele em que habitava me fez perceber e aprender sozinha. Na tentativa de me camuflar, fazia de tudo para seguir os padrões de beleza impostos. Meu cabelo era a prova viva, ou melhor, morta. Eram tantas químicas para ele ficar em uma aparência aceitável por todos, que vida própria ele já não tinha mais.



Demorei a perceber e ter a dimensão de que a minha beleza não é algo comercial, ou seja, não preciso agradar ninguém, apenas a mim mesma. Isso aconteceu no segundo ano da faculdade, quando me emponderei com a ajuda de amigas e hoje percebo o quanto ele é bonito da maneira que ele tem que ser, sem padrões, sem química e o melhor, com vida.

O questionamento que pulsava dentro de mim ainda hoje não foi respondido e realmente penso que nunca será, contudo, acredito que essa resposta não deve mais ser procurada por mim, afinal o problema não está em mim.

Enfim, a pele em que hábito é para mim realmente motivo de orgulho, principalmente quando penso que o sangue que corre nas minhas veias é sangue dos meus antepassados que bravamente resistiram a um dos maiores maus tratos já vividos no mundo.

“negro, branco, rico, pobre o sangue é da mesma cor. Somos todos iguais sentimos calor, alegria e dor” Karol Conka.

Texto: Gabriel Carneiro / Edição de Imagem: Pedro Borges


Nós, jovens negros da periferia, sabemos o quão o capitalismo e o racismo afetam as nossas vidas diariamente. Os passos mais lentos quando passa um carro de polícia, o constrangimento com os olhares das pessoas, o nojo do nosso cabelo, a “exotificação” da nossa cor.

Mas em algum momento, principalmente quando entramos na faculdade, nós seremos bem tratados. A diferença entre os tons de pele será irrelevante, seu cabelo vai ser até legal, descolado. E quando esse momento chega, nos tornamos o amigo negro. Sim, o amigo negro. O amigo que será a muleta para o discurso desconstruído da roda. Mas também, por mais que estejamos ambientados com nossos colegas, majoritariamente brancos, ficaremos para trás em todas as questões sociais. Questões essas que nossos amigos brancos tentam entender “ao máximo”, mas que enquanto puderem desfrutar de seus privilégios, o farão.

Muitos comentários racistas serão ditos, e o complexo de inferioridade que nos é imposto desde nossa infância volta como um soco no estômago. E a realidade da forma mais agressiva nos é exposta, e então, descobrimos que somos negros. E quando digo que “descobrimos”, não é porque já não sejamos negros e que não tenhamos noção do quão inferiorizados a sociedade nos torna. Mas sim, porque naquele momento, onde a convivência com a branquitude nos faz querer esquecer as dificuldades que nós negros enfrentamos, somos jogados ladeira abaixo de novo. E esse é o momento da descoberta da nossa identidade. Esse também é o momento onde nos buscaremos em nossos semelhantes, os negros.

Steve Biko - Consciência Negra

É claro que, quando falamos de ensino superior, sabemos que a presença de jovens negros é mínima. Mas eles estão lá, para nos acolher e ajudar a levantar.

E por mais difícil que isso seja, é libertador. Se descobrir negro, se aceitar negro e se amar negro. Amar a nossa fisionomia, nossa cultura, compartilhar os problemas com aqueles que os sofrem.

Isso não quer dizer que nos devemos nos afastar de nossos amigos brancos e amá-los menos. A não ser que eles insistam em serem racistas idiotas. Mas temos em nossa mente a verdadeira história, e compartilha-la, seja com branco ou com nossos irmãos, é importante.

É uma escolha pessoal e sempre será.

Temos em nós a história, a luta e a alma dos nossos antepassados. Os reis que governaram e os escravizados que lutaram.

Devemos nos amar cada vez mais, só assim amaremos nossos irmãos. E só assim, lutaremos juntos.

Texto: Dennis de Oliveira / Ilustração: Moska Santana


Um tema muito repisado nos últimos tempos na luta contra o racismo é a autoestima de negras e negros. Em boa parte, este tema vem sempre à tona para demonstrar a importância do estudo, disseminação e reflexão sobre a cultura africana, afro-brasileira e a história da África. Evidentemente, contada a partir dos seus protagonistas e não aquela apropriada e recontada por quem sempre oprimiu.

Sem dúvida que estas conquistas – ainda que não plenamente implantadas – são importantes. Mas as mudanças na Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da educação por meio da lei 10639/03 e 11645/08 vão muito além.

Por serem alterações na LDB, elas se aplicam a todo o sistema educacional brasileiro. Independente da escola ter muitos, poucos ou nenhum estudante negra ou negro. Trata-se de uma legislação que visa contribuir na mudança das relações étnicorraciais. E isto significa intervir não só na “autoestima” de negras e negros, como também no comportamento de brancos.

Em uma entrevista concedida a um documentário sobre a “Década do Afrodescendente”,  Danilo Benedicto, ativista da Rede Quilombação e estudante de economia da Unifesp, disse taxativamente: “autoestima não paga conta”.

A afirmação pode ser dura, mas tem seu fundo de razão. Não que a autoestima não seja importante. Sem dúvida que a postura de reivindicação ou de assujeitamento a uma condição de subalternidade tem muito a ver com a autoestima. Mas ela, por si só, é insuficiente para resolver o problema do enorme fosso social entre brancos e negros existente no Brasil.

Diferença Negros Brancos

Isto porque o risco de se centrar a discussão na autoestima é responsabilizar o próprio negro e negra pela sua condição. Discurso este comumente feito pelos brancos: “vocês (negros) mesmo que não se valorizam e são racistas”. E aí vem o eterno exemplo do Pelé e outras celebridades negras.

O racismo é uma forma de relação social de opressão, criada por quem está no topo e está no poder. Como ideologia, ela é disseminada e penetra em todos os segmentos sociais, inclusive na própria população negra. Da mesma forma que a ideologia burguesa está presente também na classe proletária. O poder de um grupo minoritário se mantém assim.

E o que é importante nesta reflexão é o porquê disto. O racismo existe porque mantém privilégios sociais, mantém estruturas de poder. O branco que pratica o racismo o faz não por má educação apenas (embora ela possa também existir) ou por uma maldade inata ao seu ser (embora isto possa também acontecer), mas porque mantém um lugar de privilégio para ele.

O racismo garante que uma pessoa branca não tenha preocupações de sua aparência ser vital na seleção de uma vaga de trabalho. Ou de ter que provar que é inocente e uma pessoa honesta na hora que é abordada pela polícia. Ou ter que conviver com cenas como uma pessoa atravessar a rua ou segurar a carteira quando chega próximo.

Em um sentido mais amplo, este privilégio racial garante, por exemplo, que se mantenham intactas estruturas repressivas típicas de regimes autoritários em plena democracia no Brasil. Exemplo: práticas policiais que invadem domicílios sem mandados de busca nas periferias; execuções extrajudiciais; torturas nas delegacias; detenções sem amparo judicial e/ou legal. Esta mesma estrutura repressiva que impõe um estado de sítio nas periferias é mobilizada para conter ações dos movimentos sociais, como passeatas, greves, protestos.


Este mesmo privilégio racial propicia à burguesia brasileira condição favorável para manter um regime de superexploração do trabalho com o sub-emprego e os salários mais baixos impostos aos trabalhadores negras e negros.

E a brutal exploração da trabalhadora doméstica reduz a pressão da população em geral por políticas públicas como mais creches, lavanderias coletivas e restaurantes populares que permitam a conciliação do trabalho com as demandas domésticas.

Doméstica Regularização do trabalho doméstico no Brasil causou grande alvoroço na elite do país

Em outras palavras, estamos falando de poder – e não apenas o poder expresso nas estruturas governamentais. Mas o poder social exercido pelas classes dominantes. Os privilégios raciais legitimam esta ordem social de concentração de renda, cidadania restrita e violência como prática política central.

Não se trata apenas de como o negro e a negra se veem. Mas como eles estão inseridos no sistema capitalista brasileiro. Até porque o capitalismo é tão dinâmico que a cada dia cria mecanismos de apropriação de certas demandas culturais desde que elas não contradizem sua lógica sistêmica. O pessoal da Casa Grande até deixa a turma da senzala frequentar certas coisas – desde fazer uma feijoada, tocar um samba ou jogar uma capoeira. Mas o que não se discute é a propriedade da Casa Grande. Dividir o espaço da manifestação cultural, até pode, mas a propriedade não. E para pagar as contas, é preciso de dinheiro.

Sobre o Alma Preta

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