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Texto:Juarez XavierImagem:Vinicius Martins

O Coordenador do Núcleo Negro da Unesp para Pesquisa e Extensão da Unesp faz uma análise sobre as finalidades do projeto Escola Sem Partido em relação às populações negras e marginalizadas no país

O projeto da Escola Sem Partido é a tentativa de perpetuar o processo de articulação de um aparelho ideológico, cujo objetivo é promover a ocultação do etnocídio e genocídio das populações não brancas no país.

Nesses últimos 500 anos, as classes dominantes construíram a mais perfeita máquina de destruição de corpos não normatizados, o estado brasileiro. Ele promoveu a destruição de grupos nativos, africanos, o estupro coletivo de mulheres negras e indígenas [deu origem à cultura do estupro-, o sequestro do futuro da juventude] com o massacre contínuo e ininterrupto- e o desenvolvimento do racismo de classe, que condena o pobre a uma condição de descartabilidade humana. O massacre de Canudos foi o ápice modelar dessa prática genocida e de higienização social: racismo, preconceito, discriminação, estupro, barbárie em nome do progresso social.

Para ocultar o dispositivo da violência, arquitetou-se o sofisticado aparelho ideológico de justificação do destroçamento desses corpos. A escola –[o sistema escolar] foi o epicentro dessa máquina de simulacros. As escolas jesuíticas ensinaram que o branco estava no topo do processo civilizatório. A legitimação da sua pedagogia [da violência e da pancada] justifica-se nos textos sagrados da bíblia. As faculdades [a de medicina, a partir de 1808, e a de direito, a partir de 1827] adestraram todas e todos na lógica do racismo científico, base da construção dos capitais econômico, cultural, social e político, que congelaram o negro, mas condições mais adjetas na sociedade.

A violência foi o método [o estado promotor do genocídio] o etnocídio, [a desarticulação dos universos negros] o objetivo. A resistência negra deu-se com a construção de novas narrativas. Fora da academia – instituição das rodas sagradas no universo negro: candomblé, capoeira e samba. E dentro da universidade [pesquisas sobre a negritude, a branquitude, o genocídio de mulheres, jovens e crianças negras, a identidade, as artes, as ciências], a jovem e ativa intelectualidade negra varreu todas as áreas e temas de interesses da população, e reescreveu em parte sua história.

O movimento é antigo, mas tomou impulso com a adoção das políticas públicas reivindicadas pelas populações negras, desde o fim da ditadura militar-civil. Propostas articuladas no processo constituinte [como a da criminalização da prática do racismo], na formação dos conselhos da população negra em governos democráticos [que divulgaram dados macroambientais sobre o racismo, importantes para a elaboração das políticas públicas], nos fóruns internacionais [Organização das Nações Unidas e Anistia Internacional] e na formulação de políticas inclusivas, como as cotas raciais nas universidades públicas.

O projeto Escola Sem Partido visa paralisar essa espiral ascendente, que contribui para desanuviar a “opacidade da dominação” racista no país. A universidade deve ser o espaço heterotópico e disruptivo da criação e invenção científica, cultural e tecnológica: espaços de abrigo dos contraditórios, dos enfrentamentos de pontos de vistas distintos e da renovação conceitual.

Por essa via e caminho, a intelectualidade negra desmantelou o “mito da democracia racial”. É por essa vereda que desmantelará o “mito moderno da meritocracia” [não existe mérito em sociedades desiguais; existem privilégios], justificativa maior das desvantagens da população negra, em relação às demais. A radicalidade necessária para a reumanização das populações negras implica o rechaço do projeto Escola Sem Partido!

Texto: Danilo Lima / Edição de Imagem: Vinicius Martins

Mesmo com a expansão da internet, os grandes jornais impressos continuam publicando grandes tiragens, se mantendo como veículos importantes na formação da opinião pública, sobretudo, a de uma parcela especifica da sociedade, a parcela dominante.

De acordo com pesquisa publicada em 2014 pelo Governo Federal, por meio da Secretaria de Comunicação Social — Secom, sobre o nível de confiança dos brasileiros nas mídias53% dos entrevistados diziam confiar mais nos jornais impressos do que nas noticias da TV, do radio e da internet.

A mesma pesquisa aponta ainda que pouquíssimos brasileiros leem regularmente esse tipo de publicação, cerca de 7%. Uma boa forma de se aproximar do perfil desses leitores é conhecer o perfil dos assinantes da Folha de São Paulo, o jornal brasileiro de maior tiragem e circulação entre os diários nacionais. Os dados de 2015 da Folha de São Paulo mostram que a maioria de seus consumidores, 60%, eram da classe A e B.

Uma questão importante de reflexão aqui é: Você seria assinante de um jornal de opiniões frontalmente opostas aos valores que você acredita ? Certamente não.

Os dados consultados da Folha não demostram o perfil racial dos leitores, o que não nos impede de deduzir que eles, os 60%, sejam majoritariamente de homens brancos, uma vez que o Brasil ao longo de sua história construiu profundos abismos entre as classes sociais, os gêneros e as raças.

Os grandes jornais, além das posições próprias apresentadas nos Editorias de cada edição, costumam destacar algumas pessoas do tecido social para vincular sua opinião sobre os fatos do cotidiano em suas páginas. Essas pessoas são consideradas especialistas em determinado assunto, classificadas como colunistas de opinião.

O Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa — GEMAA da Universidade Estado do Rio de Janeiro — UERJ, apresentou recentemente um importante material sobre o jornalismo brasileiro, no qual são analisados os gêneros e cor/raça dos colunistas dos principais jornais do país:

Ocupar o espaço de colunista em um veículo de comunicação de massa é ocupar um espaço de poder na sociedade, uma vez que existe a possibilidade concreta de influenciar centenas de milhares de pessoas. Portanto, em um país que 53% da população se auto-declara negra, o tratamento das questões raciais em nossa imprensa deveria ser mais sério.

Dos jornais analisados pelo GEMAAA — UERJ todos eles já publicaram editoriais contra as cotas raciais.

No caso da Folha de São Paulo foram vários editoriais nesse sentido. Disso podemos entender um pouco melhor duas coisas: a primeira é como a elite do país influencia a opinião pública para manutenção dos seus privilégios, e a segunda é que (pela distribuição dos dados), percebemos o quanto essa estrutura de dominação é rígida, pois no caso de mulheres negras, elas praticamente não têm voz.

Assim, quando se trata da questão racial, as páginas cotidianas de opinião do Estadão, do Globo e da Folha de São Paulo “se apequenam”, não passam de bloquinhos de notas que reforçam as visões de mundo de uma elite branca, e que muitas vezes também é preconceituosa.

Porém, historicamente nós negros usamos e abusamos da tinta pretaprimeiro com a chamada Imprensa Negra e nos dias atuais por uma serie de portais de mídia (tanto digitais como impresso), construindo opiniões de libertação dos “grilhões das mãos e das mentes” por meio da informação crítica e representativa do povo negro.

lançado no ano de 1999 no cinema norte americano o filme The Matrix entrou para a lista dos mais vistos da história, com enredo carregado de doses generosas de ação, filosofia e ficção cientifica. O longa conta a história do protagonista Neo, personagem angustiado pela busca de conhecer a si e a realidade do mundo que o cerca.

Umas das grandes sacadas/críticas sociais do filme está na figura do Oráculo. Eles são seres mitológicos com capacidades místicas de profecias e dons especiais. Em The Matrix, o oraculo é interpretado por uma mulher, moradora do subúrbio e negra. Ou seja, os seres mais capacitados para ler o mundo e produzir as melhores interpretações sobre ele, seriam justamente aquelas pessoas mais subjugadas pela ordem social estabelecida.

 

E se, em vez dos discursos de autoridade das colunas jornalísticas, passássemos a ouvir e refletir mais sobre as vivencias das pessoas que experimentam cotidianamente sobre si os dilemas deste país?

Para que a opinião deixe de ter cor definida pelo racismo, que sejamos então capazes de identificar os oráculos anônimos do nosso tempo.

Texto: Francy Silva / Edição de Imagem: Pedro Borges

Literatura de Mulheres Negras

Se a leitura desde a adolescência foi para mim um meio, uma maneira de suportar o mundo, pois me proporcionava um duplo movimento de fuga e inserção no espaço em que eu vivia, a escrita também desde aquela época, abarcava estas duas possibilidades. Fugir para sonhar e inserir-se para modificar. Essa inserção para mim pedia a escrita. E se inconscientemente desde pequena, nas redações escolares eu inventava outro mundo, pois dentro dos meus limites de compreensão, eu já havia entendido a precariedade da vida que nos era oferecida, aos poucos fui ganhando uma consciência. Consciência que compromete a minha escrita como um lugar de auto-afirmação de minhas particularidades, de minhas especificidades como sujeito-mulher-negra. […] A nossa escrevivência não pode ser lida como histórias para “ninar os da casa” e sim para incomodá-los em seus sonos injustos.  (Conceição Evaristo).

Desde que encarei o desafio de estudar a produção literária de mulheres negras brasileiras e africanas, tenho enfrentado de perto os problemas de ser uma pesquisadora negra, estudando a literatura produzida por mulheres negras, dentro de um espaço acadêmico maioritariamente branco. São muitas as críticas que recebo por realizar esse estudo. Dizem que a minha pesquisa é engajada, militante, política, como se isso fosse um defeito, uma mácula irreparável.

Não me deixo intimidar pelos olhares tortos e a cada vez que me deparo com as produções das escritoras negras que são sujeitos da minha pesquisa, a cada vez que contribuo com a divulgação da escrita dessas mulheres, dentro e fora do espaço acadêmico, reafirmo a minha certeza de que, mesmo com todos os percalços, vale a pena trilhar esse caminho. Nessa trilha, encontrei Maria Firmina dos Reis, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo…

Não me lembro em que circunstância especifica me deparei com a literatura de Maria Firmina dos Reis. Sei que esse encontro ocorreu nos idos de 2012, quando comecei a cursar o meu Mestrado em Estudos Literários, na Universidade Federal de Viçosa. Não, não estudei as obras de Maria Firmina nas minhas aulas da pós-graduação, na verdade, durante as aulas, em meus dois anos de Mestrado, não estudei a produção literária de nenhuma mulher negra. Encontrei essas mulheres através de minhas pesquisas individuais.

Certo dia, Maria Firmina dos Reis me surgiu iluminada com a sua força de mulher negra nordestina e me arrebatou. A história de Maria Firmina dos Reis é uma história de insubmissão como de tantas outras mulheres negras. Professora maranhense e mulher à frente de seu tempo, Maria Firmina publicou o romance Úrsula, em 1859, 29 anos antes da suposta Abolição da Escravatura. Nesse livro, considerado o primeiro romance a ser publicado por uma mulher no Brasil, Maria Firmina dos Reis mostra uma preocupação com a história, o elo com a África e a consciência para com as próprias raízes. Em Úrsula, Maria Firmina dos Reis, num gesto de ousadia e transgressão absoluta, ainda no período escravocrata, dá voz às mulheres e aos escravos. A personagem principal dessa obra questiona a postura tirana do seu pai e a submissão de sua mãe:

Não sei por quê; mas nunca pude dedicar a meu pai amor filial que rivalizasse com aquele que sentia por minha mãe, e sabeis por quê? É que entre ele e sua esposa estava colocado o mais despótico poder: meu pai era o tirano de sua mulher; e ela, triste vítima, chorava em silêncio, e resignava- se com sublime brandura. (REIS, 1988).

Transgressora como as suas personagens, além do romance Úrsula, Maria Firmina dos Reis colaborou em jornais e escreveu muitas outras obras, a maioria delas não chegou a ser publicada. Ela faleceu em 1917, aos 92 anos, cega, pobre e esquecida.

Assim como Firmina dos Reis, a escritora Carolina Maria de Jesus também morreu pobre e esquecida. Mulher negra, semianalfabeta, favelada e mãe solteira de três filhos, Carolina viveu durante anos na extinta favela do Canindé, em São Paulo, e para sustentar os filhos e a si mesma, trabalhava catando lixo. Do lixo, Carolina recolhia os livros que lia com verdadeira devoção e também papeis onde escrevia o seu diário. A leitura e a escrita para Carolina era o seu refúgio, a sua saída em meio ao caos. No seu diário, ela denunciava as condições miseráveis nas quais viviam os moradores das favelas. Carolina conseguiu publicar Quarto de despejo: diário de uma favelada, seu primeiro livro, em 1960. A visão de uma favelada sobre a favela provocou grande curiosidade.  O livro foi publicado em mais de 40 países e em mais de 20 idiomas.

Carolina viveu dias de estrela, sendo considerado por alguns “a cinderela negra”. O seu conto de fadas, no entanto, durou pouco tempo. Depois do alvoroço inicial, Carolina foi relegada ao ostracismo. Muitos chegaram a dizer que não eram dela os textos publicados. Uma mulher negra, semianalfabeta e favelada não podia escrever tão bem, afinal, o fazer literário era coisa de homens brancos, abastados, com um grau de instrução elevado. Depois de Quarto de despejo, Carolina publicou mais quatro obras: Diário de BititaCasa de Alvenaria, Pedaços de Fome,  Provérbios, livros que não tiveram nenhuma visibilidade.

Antes de conhecer a obra de Carolina Maria de Jesus, descobri, por acaso, a produção literária de Conceição Evaristo. A poesia de Evaristo chegou até mim ainda na época da graduação. Um dia, olhando um mural na universidade, vi um poema intitulado “Vozes-Mulheres”, que me chamou imediatamente a atenção. O texto narrava o sofrimento das mulheres negras dos porões dos navios às favelas. Contava a história de dor, mas, sobretudo, de luta e resistência, apontando para um devir em que poderíamos nos soltar de todas as amarras que nos prendem, ecoando o tão desejado grito de libertação.

Vozes-mulheres
A voz da minha bisavó 
Ecoou criança 
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
 
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.

 
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue

fome.
 
A voz de minha filha
recorre todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.


A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.

O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
 (EVARISTO, 1990).

Conceição Evaristo é, certamente, uma das maiores escritoras do Brasil, quiçá, do mundo. Sua produção literária perpassa os mais variados gêneros: romance, contos, poesias. E tudo que ela se propõe a escrever, faz com grande competência e genialidade. Os seus textos são verdadeiras obras de arte, elaboradas através de um grande trabalho estético e estilístico. Em seus textos, Conceição Evaristo tematiza as vivências de homens e mulheres negros, marcados pela violência do racismo. Como ela mesma disse, a sua literatura é indigesta. Mas é uma indigestão necessária, imprescindível para tirar o leitor de sua zona de conforto, na tentativa de fazê-lo tornar-se empático a dor do outro.

Da menina, a pipa

Da menina a pipa
e a bola da vez
e quando a sua íntima
pele, macia seda, brincava
no céu descoberto da rua,
um barbante áspero,
másculo cerol, cruel
rompeu a tênue linha
da pipa-borboleta da menina.

E quando o papel
seda esgarçada
da menina
estilhaçou-se entre
as pedras da calçada
a menina rolou
entre a dor
e o abandono.

E depois, sempre dilacerada,
a menina expulsou de si
uma boneca ensanguentada
que afundou num banheiro
público qualquer.

(EVARISTO, 2008)

Depois de Conceição Evaristo, descobri muitas outras escritoras negras brasileiras que produzem literatura de qualidade, mas que são invisibilizadas pelas universidades e pelas grandes editoras. Mulheres que não se silenciam, não aceitam o lugar de submissão que lhes foi imposto e utilizam a escrita como uma ferramenta de protesto e resistência contra um sistema que tenta a todo custo nos aniquilar.

Miriam Alves

Além de Maria Firmina dos Reis, Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo, conheci muitas outras escritoras negras, tais como: Miriam Alves, Lia Vieira, Esmeralda Ribeiro, Elisa Lucinda, Madu Costa, Cidinha da Silva, Cristiane Sobral, Lívia Natália, Ana Cruz e muitas, muitas outras, que estão aí, (re) escrevendo as histórias que não nos contaram. Mulheres que insistem, resistem, persistem.  Mulheres insubmissas que usam a escrita como uma ferramenta de denúncia. Mulheres que gritam por nós, encorajando-nos a gritar também.

No nosso país tudo está enfraquecendo. O dinheiro é fraco. A democracia é fraca e os políticos fraquíssimos. E tudo que está fraco, morre um dia. Os políticos sabem que eu sou poetisa. E que poeta enfrenta a morte quando vê o seu povo oprimido.  (Carolina Maria de Jesus)

* O título desse texto foi inspirado no poema “Óleo azeviche sobre tela”, extraído do livro Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz, da escritora Cristiane Sobral.

Francy Silva é Mulher, Negra, Nordestina, Feminista, Militante do Movimento Negro. É integrante do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros – NEAB Viçosa. Doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC Minas, estuda a produção literária de escritoras negras brasileiras e escritoras dos países africanos de língua portuguesa. Atriz nas horas vagas e professora por vocação. Acredita na educação como uma importante arma no combate ao racismo e a todas as práticas discriminatórias.

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