Texto: Stephanie Ribeiro / Edição de Imagem: Vinícius de Almeida / Imagem: Elifas Andreato

Um texto para o meu avô, que aos domingos colocava um álbum do Martinho da Vila e me tirava pra dançar

Como já disse Nina Simone, é dever do artista mostrar os tempos em que vivemos. Com os cantores de samba não foi diferente. Ao contrário do que muitos imaginam, não foi só quando surgiu o rap que o negro passou a fazer críticas e denúncias ao contexto social que estamos inseridos.

São canções feitas a anos atrás, nas décadas de 50 à 80, que se hoje fossem escutadas por nós ainda fariam sentido e seriam facilmente identificadas com nossas atuais vivências. A origem do samba por si só explica o porquê esse ritmo negro fala tanto sobre nós:

“Uma das formas mais comuns pelas quais os negros reafirmavam seus laços de amizade e cooperação ocorria durante as festas nas casas das “tias” ou das “vovós”. As casas das “tias” e das “vovós” eram grandes pontos de encontro daquelas comunidades. Durante essas festas, ocorria a celebração de rituais religiosos, o oferecimento de variados pratos de comida e a execução de diferentes manifestações musicais. Usualmente, aqueles que frequentavam essas festam diziam que frequentavam o “samba” na casa da vovó (ou da titia). Dessa maneira, antes de surgir a música “samba” o termo era sinônimo de festa. Outros pesquisadores do assunto ainda relatam que o termo “samba” tem origem no termo africano “semba”, que era comumente utilizado para designar um tipo de dança onde os dançarinos aproximam seus ventres fazendo uma “umbigada”. Segundo o dicionário Aurélio o termo originário ainda significa “estar animado” ou “pular de alegria”.

Origem: http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/carnaval/a-origem-termo-samba.htm

Não precisamos sequer de um explicação tão grande, basta escutar as canções de Martinho da Vila “Batuque na Cozinha” ou “Segure Tudo” e identificar a batida de terreiro, que já entenderíamos de onde vem o samba. É uma música feita sobre nós negros numa época em que essa era uma forma de explicitar a vida cotidiana do preto pobre brasileiro, os marginalizados que viviam nas periferias formadas no pós-abolição. E como muita coisa não mudou, ainda hoje temos nossa realidade refletida em algumas canções.

Por exemplo, hoje muito se fala de apropriação cultural, mas o sambista Geraldo Filme na canção “Vai Cuidar da Sua Vida” já cantou:

“Crioulo cantando samba/ Era coisa feia / Esse é negro é vagabundo / Joga ele na cadeia / Hoje o branco tá no samba / Quero ver como é que fica / Todo mundo bate palmas / Quando ele toca cuíca.”

{youtube}https://www.youtube.com/watch?v=cldp-Belt_o{/youtube}

O mesmo sambista na canção “Garoto de Pobre” esmiuçou sobre a realidade do pobre brasileiro:

“Garoto de pobre / só pode estudar / em escola de samba / Ou ficar pelas ruas / jogado ao léu (...) Ele desce dos morros / ele vem das vilas / e chega a cidade / alegra os turistas / recebe os aplausos da sociedade”

Em tempos onde ficamos compartilhando em redes sociais fotos de crianças negras trabalhando nas ruas, com textos bonitos, precisamos escutar mais o que Geraldo Filme cantou.  E assim começar a questionar essa realidade na qual estamos inseridos para não acreditarmos que tais atos e “textos bonitos” são empatia.

Bezerra da Silva já mostrou como as pessoas quando não romantizam a pobreza, criminalizam-na, como na música “Vítimas da Sociedade”:

“Se vocês estão a fim de prender o ladrão / Podem voltar pelo mesmo caminho / O ladrão está escondido lá embaixo / Atrás da gravata e do colarinho (...) / Só porque moro no morro / A minha miséria a vocês despertou / A verdade é que vivo com fome / Nunca roubei ninguém, sou um trabalhador / Se há um assalto à banco / Como não podem prender o poderoso chefão / Aí os jornais vêm logo dizendo que aqui no morro só mora ladrão.”

Ele ainda conclui:

“Somos vítimas de uma sociedade / Famigerada e cheia de malícias / No morro ninguém tem milhões de dólares / Depositados nos bancos da Suíça.”

As letras denunciam situações até sobre a forma como o samba foi apropriado e seus cantores embranquecidos para que o gênero fosse aceito:

Samba / Negro, forte, destemido / Foi duramente perseguido / Na esquina, no botequim, no terreiro / Samba /Inocente, pé-no-chão / A fidalguia do salão / Te abraçou, te envolveu / Mudaram toda a sua estrutura / Te impuseram outra cultura / E você nem percebeu.”

A música acima “Agoniza Mas não Morre” de Nelson Sargento, facilmente explica o que aconteceu com o Blues, Rock e vem acontecendo com o Funk e até mesmo com o Rap.

É obvio que além de denunciar, os sambas também tomam como partido o enaltecimento da cultura negra. Uma das músicas que mais me emociona é “Orgulho Negro” da Jovelina Pérola Negra:

“Negro é raiz / Negro é raiz / Me orgulho por isso / me sinto feliz / Negro é raiz / Negro é raiz /Negro é raiz / Na senzala, o negro não tinha sossego / Ao ver a chibata / Tremia de medo / Fazia de tudo para não apanhar / Só sentia em seu rosto suor escorria / trabalhando embaixo do sol de meio-dia / Se sacrificando para se libertar / Recordando / O homem no tronco apanhando / os olhos dos outros só lacrimejando / pedindo clemência para ele descansar / É ou não é raiz?”

E nossa maravilhosa Dona Ivone Lara já cantou que o negro é a raiz da Liberdade, em “Sorriso Negro”:

“Um sorriso negro, um abraço negro / Traz....felicidade / Negro sem emprego, fica sem sossego / Negro é a raiz da liberdade/ (...) Negro que já foi escravo / Negro é a voz da verdade / Negro é destino é amor / Negro também é saudade.. (um sorriso negro!)”

{youtube}http://https://www.youtube.com/watch?v=xVtowndTTiE{/youtube}

Muitas pessoas falam de letras que são machistas e eu reconheço que tem sim sambas que reproduzem ideias que inferiorizam as mulheres, assim como em todos os gêneros musicais. Mas duvido que alguém encontre uma música na década de 50 como a de Cartola “Vou Contar Tintim por Tintim”:

"Eu fui tão maltratada / Foi tanta pancada / Que ele me deu / Que estou toda doída / Estou toda ferida / Ninguém me socorreu / Ninguém lá em casa apareceu / Mas eu vou ao distrito / Está mais do que visto / Isto não fica assim / Vou contar tintim por tintim / Tudo nele eu aturo / Menos tapas e murros / Isto não é para mim”

As sambistas mulheres negras também eram não só questionadoras como atemporais nas questões que envolvem o universo feminino. Chiquinha Gonzaga em “Dois Corações” já dizia:

“Dei o meu a aquele ingrato / Que não soube me amar / Conheci duas meninas / Todas as duas eu quero muito bem / Uma mais do que a outra / Uma mais do que a outra / E a outra mais do que ninguém”

E tem até trechos empoderadores como na canção “Luz do Repente” da já supracitada Jovelina Pérola Negra:

“Eu sou partideira da pele mais negra / Que venho, que chego para improvisar / Já vi partideiro que nunca vacila / Entrando na fila, querendo versar / Mas dou um aviso que meu improviso / É sério, é ciso, não é de brincar / Otário com aço, eu mando pro espaço / Versando, eu faço o bicho pegar”

{youtube}http://https://www.youtube.com/watch?v=frC4dcOj-8U{/youtube}

Vamos entender que se fala na origem do samba atrelada a uma mulher, a tão citada por alguns sambistas: Tia Ciata. Ela seria a dona do quintal “Berço do Samba”, mas também segundo alguns, era uma das que cantavam sambas anteriormente à década de 50, por isso não coloquei nesse texto nada que fixe a origem do samba exatamente. Acredito que ele tem origens negras, portanto, me dói quando vejo pessoas dando a Noel Rosa um título de grande nome desse gênero musical num país onde Geraldo Filme já disse: “Sambista de rua morre sem glória”

Por fim:

“Eu sou o samba / A voz do morro sou eu mesmo sim senhor /Quero mostrar ao mundo que tenho valor / Eu sou o rei do terreiro / Eu sou o samba / Sou natural daqui do Rio de Janeiro / Sou eu quem levo a alegria / Para milhões de corações brasileiros / Salve o samba, queremos samba / Quem está pedindo é a voz do povo de um país / Salve o samba, queremos samba / Essa melodia de um Brasil feliz”

Sim Zé kiti, a “Voz do Morro” é o samba.

Eu cresci escutando sambas como os então citados, principalmente Martinho que era um dos grandes ídolos do meu avô Daniel. Foi "Canta Canta Minha Gente" que me inspirou para esse texto. E hoje eu percebo a importância de ter tido uma figura como ele na minha vida, que me tirava para dançar, que me fazia rir quando dançava miudinho, que me ensinou que nem todos os homens vão me tratar mal, enquanto meu pai se esquecia da minha existência... Meu avô foi também a minha referência negra dentro de casa. E hoje eu lamento muito não poder mostrar para ele a mulher, que ele também educou.

Nós negros crescemos acreditando num passado perdido e triste quando na verdade muitos lutaram por nós. Essas letras mostram uma intelectualidade ritmada, um pensar nosso. Para mim hoje é fácil saber que eu vou ser arquiteta, porque meu avô pintava paredes, porque minha bisavô lavava roupa para fora, porque alguém sobreviveu mesmo quando nós negros éramos tratados como escravos. Eu acho que temos que entender o passado para viver o presente e conquistar um futuro. Por isso busquei inspiração nas letras de samba, que são heranças que negros nos deixaram e precisamos usá-las...

Para o meu avô eu cantaria Cartola: “Você também me lembra a alvorada / Quando chega iluminando / Meus caminhos tão sem vida…”

E ele me responderia:

“Canta Canta, minha Gente / Deixa a tristeza pra lá / Canta forte, canta alto / Que a vida vai melhorar (...) Cantem o samba de roda / O samba-canção e o samba rasgado / Cantem o samba de breque, / O samba moderno e o samba quadrado.”

Obrigada.

Stephanie Ribeiro é estudante de Arquitetura e Urbanismo na PUC de Campinas. Ativista feminista negra, já teve textos seus postados no site da revista Marie Claire, Blogueiras Negras, Géledes, Confeitaria, Modefica, Imprensa Feminista, Capitolina, entre outros. Em 2015, recebeu da Assembleia Legislativa de São Paulo a Medalha Theodosina Ribeiro, que homenageou seu ativismo em prol das mulheres negras.

É também uma das fundadoras do projeto Afronta - http://www.afronta.org/.

Texto: Mônica Gonçalves Mendes / Ilustração: Araújo

Dias atrás estive numa aula da pós graduação da Faculdade de Medicina da Usp em que um professor – importante dentro da instituição pelo papel contra-hegemônico de denúncia que desempenha – contou sobre o “menino” negro que havia conquistado a única vaga de professor numa universidade estadual em São Paulo. O professor, que foi banca do processo seletivo, relatou minutos a fio sobre ter notado a história magnífica do menino preto periférico que venceu todos as barreiras sendo sempre o melhor em tudo. Narrou que no concurso, depois de superar 42 concorrentes, chegou a última etapa concorrendo com uma mulher branca, “filha da casa”, com uma diferença superior de 0,1 ponto em relação a ela.

Enquanto para os membros da banca a diferença justificava a revisão das notas e do processo seletivo – e, não sejamos ingênuos, a entrada da menina – para ele a não validação desse 0,1 seria racismo. E ainda ante a essa consciência, seguiu: nos contou sobre sua argumentação, do quanto foi importante ter interpelado e constrangido a banca a esse respeito, do quanto foi laborioso e persuasivo indo contra todo o sistema e as pessoas que certamente se posicionariam em consenso pela entrada da menina, fosse do jeito que fosse – ainda que infringindo princípios éticos e agindo desonestamente. E, ao ser o rapaz eleito, descreveu como lhe deu os cumprimentos, honroso de seu papel, do trabalho árduo que fez e fizeram todos da banca, gabando-se da escolha acertada que tinham tomado.

A aula aconteceu na mesma semana quando, dias depois, uma companheira de república querida me mostrou com certo entusiasmo uma reportagem que falava sobre o homem branco que ocupou o pódio junto a Tommy Smith e John Carlos na Olimpíada de 68 – sim, falamos dos dois homens que, apropriados de seu lugar político enquanto negros, ergueram seus punhos diante de um mundo inteiro (literalmente) que os assistia como símbolo de resistência, fazendo alusão ao movimento Black Panter, em pleno processo de luta pelo reconhecimento de direitos civis dos negros nos EUA.

Tommy Carlos e John Smith fazem o símbolo dos Panteras Negras nos jogos Olímpicos de 1968

Tommy Carlos e John Smith fazem o símbolo dos Panteras Negras nos jogos Olímpicos de 1968

Intitulada “O terceiro homem”, a matéria de 2006, enaltece a solidariedade do homem branco em relação à luta negra já no subtítulo. Toda a tônica do texto é sobre o ~grande feito~ de ter sido solidário aos pretos em protesto. Ali, cientes de que eram passíveis de punição, mas aguerridos, carregando consigo todo um povo que subiu ao pódio com eles, suas dores e suas lutas, foram mais do que heróis e protagonistas, foram baluartes de parte da história universal do mundo – muito além do lugar particular e racializado em que se insiste colocar os negros. Na matéria, porém, apagados e invisibilizados (atente-se a imagem que precede a matéria!), quem brilhou foi o ‘in-sujeito’ do fato histórico, alçado na reportagem a uma posição heróica, saindo da zona de indiferença que sustentava sua invisibilidade – legítima.

No texto, a narradora descreve com detalhes a cena em que John e Tommy ajustam os detalhes da intervenção, sendo observados pelo “terceiro homem”. Na versão dela, é este terceiro homem quem "ouve intrigado”, de modo que os detalhes que humanizam e dão vida à cena – e a toda a história – deslocam o olhar da ação ativa dos pretos, que elaboram a ação, para a passiva do branco que os assiste. A autora fala desse personagem “ouvir intrigado” deslocando o protagonismo da fala e da ação para o gesto passivo de escuta; usa a palavra “kit-protesto”, nivelando nossos símbolos históricos a mera mercadoria (e mercadoria barata!); e ainda descreve que o in-sujeito “deu sugestão” diante de um impasse que se apresentou. O texto é velho, tal qual o raciocínio que o sustenta, mas estaria esse fenômeno circunscrito ao passado?!...

A última narrativa branca é recente. Divulgada pelo portal (X), mereceu minha atenção e repudio ao texto “O feminismo pelo qual se esqueceram de militar”. O texto gira em torno da narrativa de uma mulher branca, e da ação que desenvolve na periferia de São Paulo, Brasilândia. De classe média alta, formada em um dos cursos mais elitistas e brancos da USP, Psicologia (é possível ver o perfil dos alunos em www.fuvest.br), com pais formados em ensino superior, ela descreve tooooda a importância do movimento feminista negro, sua história, sua origem, sua invisibilidade, seus dramas, suas pautas, seus antagonismos em relação ao feminismo hegemônico branco (para elucidar a questão sintática e política, registro: “seus” e “suas” se referem ao feminismo negro, não à narradora, embora não seja possível perceber se essa distinção está tão evidente pra ela como aqui está feita...). A moça descreve o que “se passa na cabeça” das mulheres periféricas pretas, diz que não almejam ser chefes diante das dificuldades encontradas para isso e acrescenta que essas mulheres “não conseguiriam refletir” sobre assuntos como a redução da maioridade penal não fosse o grupo que ela conduz.

Quando me tornei psicóloga (assim como a última narradora!), a primeira coisa que me foi ensinada foi nunca nomear ou enunciar pelo outro. Porque o sujeito da enunciação é o sujeito do poder: é ele quem tem o controle de sua vida. O uso de seu discurso, a apropriação desse discurso por ele mesmo, a tomada da narrativa de sua própria vida, são as chaves da transformação de sua condição.

É curioso e mesmo impressionante como não há possibilidades ínfimas de que as histórias negras sejam transformadoras e catárticas quando as narrativas são brancas. Nesse sentido, ainda que em circunstancias diferentes (que ocorram em ambientes diferentes e falem de personagens distintos), o que une as três histórias é o mesmo bom e velho olhar do colonizador, para quem os negros são sempre coadjuvantes, personagens secundários de sua própria história, aqueles por quem se deve falar, aqueles que não podem ocupar o primeiro lugar quando um branco está em segundo. Nas três histórias, à revelia do ato ou lugar heróico que ocupa cada um desses negros – sejam os históricos campeões olímpicos, sejam os poucos e festejados negros que viraram doutor a partir de sacrifícios de vida de muitos, sejam as pretas periféricas que lutam diariamente para sobreviver – eles são apenas coadjuvantes cuja vitória, superação e destaque se deveram a ação de um... branco!

É um colonialismo discursivo, portanto simbólico, mas que segue nos tornando reféns. É expressão de poder da branquitude que age como se todos os lugares, concretos e simbólicos, fossem seus. Não são. O que marca essas narrativas é um isabelismo obsceno que as perverte totalmente: então protagonista é quem colabora? Então não se questiona que essa banca não fez mais que sua obrigação ética e moral? Então quem fez o bom trabalho e é sujeito meritório são os professores, não o preto que sempre foi o melhor em tudo o que fez? E foi a solução dada pelo branco que manteve a possibilidade de protesto? Então as pretas não são capazes de pensar entre si e são as brancas da elite quem as faz conhecer o feminismo?

Para muitos, ainda permanece o erro histórico de que foi princesa Isabel quem libertou negras e negros da escravidão Para muitos, ainda permanece o erro histórico de que foi princesa Isabel quem libertou negras e negros da escravidão

A última narrativa foi a mais repulsiva porque o colonialismo e isabelismo estão tão tão tão cristalizados que a produtora do texto não percebe que, ao dizer no título que “se esqueceram de lutar” pelas (pautas de) mulheres periféricas e/ou negras, genericamente, universalizando esse sujeito que se esquece, que não está racializado, acaba justamente por invisibilizar a luta árdua, aguerrida, dolorida e continua das mulheres pobres e pretas. Não é justamente contra isso que, ~ideologicamente~ texto e narradora se posicionam? E as feministas negras estão fazendo o que? Não é justamente pela ação delas que existe um feminismo negro? Será mesmo que são as mulheres pretas quem precisam de alguém que lhes auxilie a enxergar o mundo? Mas aqui quem narra e é a personagem central da narrativa é a branca solidária!

Que fique escuro: o feminismo negro e a luta das mulheres periféricas e pobres não estão esquecidos. Quem não luta por essa pauta historicamente (não só não luta em favor, como muitas vezes luta contra) são (algumas) mulheres brancas. Da mesma forma que a solidariedade desse esportista branco não foi o motor da luta pelos direitos civis americanos, da mesma forma que o gesto do professor não dirime uma história de vida de resiliência e superação.

Se nas narrativas brancas, o branco foi necessário ao feito histórico de Tonny Smith e John Carlos, é ele quem ocupa o maior lugar no pódio, é ele quem traz soluções que os outros não são capazes de elaborar sozinhos, o solidário é quem é protagonista; se nas narrativas brancas, é o branco quem merece as congratulações devido ao preto ter se superado a vida toda, por ter sido reconhecido seu desempenho que o diferenciava em 0,1 (que ele conquistou sozinho) de sua concorrente; se nas narrativas brancas é a menina branca de classe média que estuda na universidade mais elitista do país a responsável por absolver as mulheres pretas periféricas de sua condição de alienação; então temos a prova de que está na hora de tomarmos de assalto aquilo que nos tomaram os herdeiros de Isabel: a nossa possibilidade de narrar nossa própria história, em que seremos nós os personagens principais e ninguém precisará nos dar a boa ideia, a luz da sapiência, o direito ao que é de direito, a humanidade.

A manutenção do genocídio só é possível quando ele opera em nível simbólico. Quando se faz acreditar que nossos feitos não são nossos, que nossas vitórias não são nossas, que não fomos nós que as construímos (e sim os brancos), o que se anuncia é a morte. Essa morte não é do corpo e sim do espírito, mas é preciso questionar: que corpo pode se sustentar sem alma que anime a vida, sem um psiquismo que sustente a existência, daquilo de mais imaterial que garante a materialidade do corpo? Mais do que isso, é preciso entender: a que serve um corpo cujo pensamento, a história e a sapiência servem a branquitude? Sejamos narradores. Que a partir de agora (e como diz minha mãe, “já passou da hora!”), seja lei: história preta, é preto quem vai contar, não Isabel.

Mônica Mendes Gonçalves nasceu em Cambara, interior do Paraná, e é formada em Psicologia pela Unesp Bauru. Ela tem especialização em psicologia da saúde e é mestranda na área da saúde pública pela USP. Mônica compôs a Ocupação Preta da USP.

Texto: Caroline Amanda Lopes Borges / Ilustração: Araújo

De uma jovem negra em diáspora para toda a juventude negra

Quero pedir licença aos meus mais novos e aos meus mais velhos!

Impulsionada por muita indignação, sensação de impotência, ódio e uma fagulha de esperança escrevo como um desabafo. Após a noticia do aprisionamento arbitrário de Rafael Braga, fui tomada por um turbilhão de memórias que necessitam ser organizadas e, sobretudo, compartilhadas. Tais reflexões se dão através dos seguintes questionamentos:

Com quantos jovens negros (VIVOS, MORTOS, MUTILADOS, APREENDIDOS, DESAPARECIDOS) se faz capitalização política?

Qual é o volume da movimentação material e imaterial que se pode acumular ao manipular esse produto chamado: JUVENTUDE NEGRA?

Inicialmente não tínhamos cor e nem pertencimento étnico/cultural. Nenhuma política pública, edital ou investidor visibilizavam e/ou investiam em projetos ou iniciativas que apresentassem a palavra “negro”. Hoje, é praticamente automático ou obrigatório. Como bônus, cereja do bolo, momento ápice, a palavra negro é cravada em textos, artigos, projetos, sobretudo discursos.

A luta dos movimentos negros em denunciar a seletividade racial das estratégias do Estado para a manutenção da vulnerabilidade e da miséria refletiu o apontamento da necessidade do protagonismo daqueles que gemem, o povo negro, aqui especificamente, a juventude negra.

No entanto, devemos refletir: Há protagonismo?

Protestos de Junho de 2013 ganharam as ruas brasileiras Protestos de Junho de 2013 ganharam as ruas brasileiras

Podemos destacar como exemplo as marchas de junho de 2013.  As câmeras das mídias alternativas e da mídia hegemônica captavam imagens de bochechas rosa (algumas pintadas), discursos com termos rebuscados e corpos que não pareciam viver a rotina de longas viagens desconfortáveis repletas de assédio e desesperança nos transportes públicos das principais capitais.

Os megafones e microfones eram em sua maioria conduzidos por jovens brancos. Jovens que falavam em substituir carros por bicicleta, mas que não faziam a mínima ideia da distância do bairro de Paciência ao centro da cidade do Rio de Janeiro. Jovens que se apoiavam na sua branquitude para gozar do privilégio de exercer direitos, em um país que vive em regime de exceção para negros.  E quando “passavam dos limites”, eram alertados pela polícia com balas de borracha e gás lacrimogêneo.

Enquanto isso, o complexo de favelas da Maré vivenciara uma chacina terrível com mais uma dezena de vítimas.  Os bairros do Capão Redondo, Jardim Ângela e Campo Limpo na cidade de São Paulo mal poderiam se recuperar de um ano sangrento e extramente letal como 2012. O sangue negro no nordeste seguia escorrendo sem luz ou sensibilização nacional.  Diversas capitais e cidades do interior perceberam que nos bairros de maioria negra jamais foram vistas munições do Estado que não fossem necessariamente letais, tão pouco, alguma ação militar em meio a tantas pessoas sem nenhuma vítima letal.

As marchas de junho nos deixaram de lição a experiência vivida por Rafael Braga, jovem negro em situação de rua, que um ano e três meses depois da maior manifestação realizada no Rio de Janeiro em 2013, fora julgado e condenado. No dia em que foi preso, ele saiu de onde morava, um casarão abandonado em frente à Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (DCAV), no Centro do Rio, com duas garrafas de plástico, uma com água sanitária e a outra com álcool, situação que não o caracteriza enquanto manifestante do ato, tão pouco como terrorista. Segundo o laudo do Esquadrão Antibomba da Coordenadoria de Recursos Especiais, a utilização do material aponta aptidão mínima de incêndio. No texto, um trecho ainda indica ínfima possibilidade de funcionar como coquetel molotov. Mesmo assim, Rafael Braga Vieira, jovem negro, foi condenado pela existência de etanol em uma das garrafas.

No inicio de 2014 vivenciamos a importante experiência dos Rolezinhos, que se multiplicaram nos shoppings das principais capitais do país.  A juventude negra decidiu exercer o seu direito de ir e vir também, mas, o que aconteceu? Não havia 1.000.000.000 de bochechas rosa ao nosso lado.  E quando nosso irmão foi acorrentado preso pelo pescoço no Aterro do Flamengo por jovens brancos? Não houve movimentação.

Rolezinhos ganharam repercussão no final de 2013 e foram reprimidos Rolezinhos ganharam repercussão no final de 2013 e foram reprimidos

Sem esquecer de mencionar o fatídico período da exibição do programa “Sexo e as Nega”, que agravou profundamente diversas mulheres negras, mulheres que puderam contar pouco ou nada com as organizações feministas, majoritariamente brancas, para denunciar tal despautério.

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Iniciamos 2015 com a apreensão arbitrária de uma jovem negra, doutoranda em farmácia pela maior universidade federal do país. Mas, mais uma vez, meus olhos não puderam registrar milhares de bochechas rosas. Ainda em 2015, testemunhamos investimentos em ações lúdicas, pirotecnia virtual, festivais Cult bacaninhas contra a redução da maior idade penal. De maneira centralizada e em territórios de maioria branca, com discursos que não dialogavam com o nosso povo, muito menos com “os de menor” e seus familiares, que têm seus lares invadidos por avalanches de ódio através do jornalismo sensacionalista da TV aberta. Ações arquitetadas e protagonizadas por personagens que jamais tiveram ou terão sua liberdade cerceada.

Na crista da onda que comumente arrebenta em nossas costas, alguns brancos e brancas tornaram se baluartes da “luta”. Estamparam capa de revista, ocuparam cargos públicos, tornaram se assessores parlamentares, diretores de ONGs, e, em alguns casos, os que foram detidos saíram condecorados como “presos políticos” e já poderiam levar tal título para seu Lattes.

Organizações Não Governamentais, academia, partidos políticos e até empresários têm se esforçado para falar no mínimo superficialmente de juventude negra. A cada dia que passa, fala se melhor de nós e capta se mais em nosso nome. Nos contabilizam vivos ou mortos e se projetam em nossas mazelas.

Na perspectiva de muitos, somos os verdadeiros trampolins. Somos úteis para os conservadores e os progressistas. Ambos falam de nós, descrevem como agimos, o que queremos ou o que merecemos. Determinam quais medidas devem ser imputadas sobre (contra) nós.

Junho de 2013 e seu legado nos permitiu constatar que 0,20 centavos valem mais do que os nossos desejos e direitos mais básicos. Contatamos que a sociedade brasileira segue reduzindo mulheres negras jovens ao sexo. Experimentamos o consentimento inflamado do ódio dessa sociedade contra nós, clamando pelo nosso encarceramento e naturalizando nossa morte.

2016 chegou aspirando 2013. Chegou com ato marcado contra o aumento das passagens, selfs revolucionários e o mesmo personagem de outrora novamente apreendido, Rafael Braga Vieira. Novamente será estampado em camisetas e bandeiras. Alguns perguntam por que tanta perseguição a esse rapaz? E me parece que a pergunta mais coerente seria desde quando Rafael Braga é perseguido? Supondo a resposta, ouso dizer que Rafael é perseguido desde o ventre da primeira mulher que teve seu filho sequestrado em África, desde o ventre da mulher que o concebeu na diáspora.  Ouso dizer que é perseguido desde a primeira “dura” da polícia, desde a primeira vez que passou a viver nas ruas do Rio de Janeiro, desde a primeira noite na penitenciaria e a primeira experiência na solitária.

Rafael Braga acorrentado pelos pés em delegacia

Nós, juventude negra somos todos Rafael Braga!!! Somos nós, as jovens negras, que morremos aos montes em trabalhos de parto e como vítimas da criminalização do aborto nos fundos dos hospitais públicos. Somos nós os que não têm acesso à educação básica. Somos nós os que mais evadem nas instituições de educação.  Somos nós os “de menor” e os “de maior”. Somos nós os que são explorados pelo trabalho infantil, os que têm seus corpos traficados, os que são aliciados. Somos nós as maiores vítimas de empalamento. Somos nós as que mais sofrem de violência doméstica. Somos nós o maior número de internados da nossa geração nos hospitais psiquiátricos. Somos o exercito de reserva e o exercito das facções, bem como os soldados da polícia. Somos nós o maior montante de corpos no IML. Somos nós! Nós somos Rafael Braga!!! Somos nós a verdadeira classe trabalhadora desse país, nós que sacrificamos nossa juventude embebida de insalubridade no campo e na cidade. Nós que alimentamos diversos setores da economia com a nossa força de trabalho. E por que damos tanto espaço, licença, autoridade para eles? Porque legitimamos suas ações em nosso nome??? O que há conosco? Nós somos a perpetuação do nosso povo. É nossa responsabilidade assumir a tarefa de reerguer a diáspora africana, começando pelos quilombos que moramos, herança dos nossos mais velhos.

Seguimos sentindo a solidão política que nos foi relegada desde os tumbeiros que atravessaram a grande Kalunga. Relembramos a solidão ancestral das matas escuras à procura de terra segura para construir Quilombo!!!

Os velhos métodos não têm sido capazes de nos libertar. As velhas práticas culminaram em aprofundamento do nosso povo em sangue, dor e engodo. Nossa geração deve ser capaz de aprender a fazer sem editais ou salários oriundos de liberação partidária. Nossos ancestrais merecem de nós maior dedicação. Nossa dignidade pode se dar através do fortalecimento de organizações autônomas, construção de estratégias e táticas para autodefesa e autogestão.

Inspiração nãos nos falta, assim como Garvey, Cheick Anta Diop, Assata Shakur, Winnie Mandela, Fannon, Dandara, Zumbi, Zeferina, Yedo Ferreira, Beatriz do Nascimento, Candeia, Racionais Mc’s...

Necessitamos retomar nossa Agência. Eles o fizeram ainda na juventude e compreenderam a importância de centrar esforços naquilo que nos edifica enquanto povo. Souberam perceber que cada geração é responsável pela abolição de seu tempo.

As respostas se apresentarão a medida da nossa unidade. Há apenas uma certeza: devemos ser no mínimo, do tamanho do nosso problema.  Seremos maiores juntos, impulsionando e gerindo nossa história!!!

 

Mas se você quer lutar por poder e você é oprimido ou oprimido por um poder colonial que te nega à ideia de humanidade plena, você tem que antes lutar CONTRA O PODER, não aceitar qualquer migalha, distinção ou banquete, cargos subalternos como se fosse poder, isso não é poder é uma MIRAGEM DE PODER.

 

                                                                                 Hamilton Borges Walê


Caroline Amanda Lopes Borges é articuladora nacional da campanha “Reaja ou Será Morta!”. Colaboradora da “Associação de Mulheres de Ação e Reação”,membro do Coletivo Negro Carolina de Jesus (UFRJ).integrante do grupo de pesquisa PET/Conexões de Saberes, Identidades e Diversidade, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Caroline Amanda Lopes Borges é também articuladora nacional do Encontro de Estudantes e Coletivos Universitários Negros, EECUN.

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