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Texto: Raíssa Pimenta / Edição de Imagem: Pedro Borges

“16 de junho... Hoje não temos nada para comer. Queria convidar os filhos para suicidar-nos. Desisti. Olhei meus filhos e fiquei com dó. Eles estão cheios de vida. Quem vive, precisa comer. Fiquei nervosa, pensando: será que Deus esqueceu-me? Será que ele ficou de mal comigo?”

1960. Período final da terceira fase do Modernismo e aniversário de 100 anos deste movimento literário. Lançamento de Quarto de Despejo. O Diário de uma favelada, subtítulo que carrega o livro que lançou fama à Carolina Maria de Jesus traz em suas páginas a narrativa de uma vida subjugada à miséria, à luta constante pela sobrevivência e, com não menos ardor, à busca pelo encontro e fortalecimento de uma identidade no mundo. Entre as produções do movimento modernista de 60 não consta Quarto de Despejo.

Carolina Maria de Jesus é a representação da mulher negra marginalizada que tem seu papel social estabelecido como suporte e, em dadas circunstâncias, como fetiche passageiro e alegórico. Se num primeiro momento Carolina ganhou visibilidade e apreço público, é certo que isso se deu por conta de uma manifestação literária que trazia a vida do negro e do pobre a partir de uma visão interna, experimental, testemunhal pela primeira vez – o que representava a satisfação de uma curiosidade, de um novo modelo, não a importância com a verdade trazida por ela. Quando Carolina lança Casa de Alvenaria, nem para o Brasil, nem para o exterior, é relevante sua voz. Perdeu-se a novidade, perdeu-se a dramaticidade primeira de uma narrativa que dizia de sua força, mas dizia primordialmente de suas dificuldades. Quando sua arte se fez crítica ao espaço que agora ocupava – ou supunha-se que ocupava –, Carolina já era uma voz a ser calada.

Casa de Alvenaria

 Carolina é a própria complexidade da mulher negra. Ela traz consigo a luta da raça, a luta do gênero, a luta da classe, a luta da maternidade e também a contradição, a distorção, o abandono, a imposição, o empoderamento, a força. É a mulher – que mesmo acompanhada era só –, a mãe que criou seus filhos sozinha, a catadora de papelão, a mão que ergueu seu próprio barraco, a mão que escreveu para erguer sua casa de alvenaria, a poeta, a sambista.

Trazida como uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil, o que se nota de fato é que Carolina não é lida, tampouco estudada, refletida, debatida. Ela não só escreveu sobre si e aqueles que a cercavam, também produziu poesia, produziu música. Carolina é mais um fenômeno, uma atração, não tratada com o respeito e a dignidade de uma produtora de material não só literário, mas intelectual e cultural. Ela reflete o que ocorre com a grande maioria dos negros que tem suas produções limitadas a um espaço e período de tempo. Deslegitima-se toda a universalidade, genuinidade produtiva e inovação de sua obra.

Carolina é uma grande escritora desconhecida pela grande maioria da população e quando citada é comparada com escritoras brancas como maneira de justificar a aparência de seu nome. Não há uma preocupação acadêmica em compreendê-la a partir de seu lugar de fala e a relevância de sua criação para um pensamento que questione as populações marginalizadas, as mulheres negras, seu papel social e, inclusive, dentro do feminismo, como também o significado intelectual do modelo de escrita que ela traz – inserida numa realidade de baixa escolaridade e muito autodidatismo.

É preciso rever a existência, a produção e a verdade dessa mulher. É preciso superar as contradições canônicas e aceitar que Carolina de Jesus é contemporânea – talvez não no que se estabelece pela ordem cronológica, mas através de um pensamento que ultrapassa aquele momento histórico e reflete ainda hoje a realidade de uma série de mulheres negras, chamadas mãe-solteiras, catadoras de lixo, moradoras de favela. É preciso compreender que Carolina simboliza a marginalização do negro mesmo nos espaços em que o colocam como aclamado. Tendo certo que se aceita a voz do negro que quando não faz rir, gera pena ou submissão. Mas se nega prontamente a voz do negro que aponta a contradição, a subversão, a realidade opressora.

Carolina Maria de Jesus - Corpo Imagem Carolina Maria de Jesus constrói a narrativa do cotidiano da mulher negra

Carolina precisa ser. Maria precisa ser. De Jesus precisa ser. Precisamos ser. Carolina de Jesus somos tantos e todos nós, negras e negros, que produzimos tanto intelectual quanto artisticamente, mas temos nossas vozes silenciadas e nossa relevância diminuída. Carolina Maria de Jesus somos nós, negros e negras, esquecidos na arte, na mesa da refeição, nos espaços de discussão, nos barracos despedaçados, esquecidos nas ruas como indigentes e em valas comuns como mortos anônimos. Somos nós vistos como irrelevantes para fazermos parte de um conjunto de relevância de estudo, de referência, de entendimento. Somos nós, apagados.

Se tanto há para se dizer dos cânones já tão revistos e citados, certamente há muito o que se dizer sobre uma mulher negra de obra tão complexa, ampla e projetiva. Sua obra é tão grandiosa quanto – ou mais – a de muitos autores da década de 60. O que ela traz consigo de diferencial é uma produção que não se encerra em si. É a representação genuína de um povo que traz a complexidade no sangue, na história, no seu imaginário próprio. De um povo que tem muito a dizer no seu tempo e para além dele, que não deve e não será, pela luta e resistência, esquecido. De um povo negro que na simplicidade do seu nome carrega a complexidade do seu ser. O povo negro que não terá sua voz silenciada, nem com a indiferença nem com o tempo. Carolina Maria de Jesus é resistência. Somos muitas, somos muitos.

Texto: Gabriel Carneiro / Edição de Imagem: Pedro Borges

Medo, calafrio, suor e angústia, sentimentos que muitos só sentem quando assistem a algum filme em seu imenso sofá em algum bairro nobre. Mas para nós, negros, isso tá muito longe de ser ficção. É a mais cruel das realidades. É a realidade das periferias que são esquecidas e mortas diariamente.

Quantas mães que conhecemos já não choraram pela perda de seus filhos? Jovens que saíram de manhã para estudar, trabalhar, fazer seus corres e não voltaram. Quantos filhos que conhecemos já não choraram pela ausência ou perda de suas mães? Que assim como Cláudia, saíram para seguir sua vida e por conta do ódio desse Estado fascista, racista e genocida, foi arrastada pelo chão por um carro da polícia.

PolíciaSP2 Polícia militar e a sua estrutura causam desconfiança para a população negra

Pois é, a periferia nunca acorda e dorme em paz. O dia a dia é constantemente opressor. A morte é moradora ativa nas comunidades, que acompanhada de escolta policial, camburão e o aval do Estado, sai passando por cima de quem for, e se for negro então – que é o quadro racial das periferias -, é alvo prioritário.

Geraldo Antonio Neto foi um dos alvos na sexta feira, 18 de Março, que assim como milhares, estavam a caminho da diversão da galera de periferia e não voltou. Não voltou porque era negro. Não voltou porque era negro e periférico. Não voltou porque o sistema não quer que voltemos. A bala do Estado tem direção. Somos nós.

E esse massacre diário nos sufoca. A insegurança de não saber se voltaremos para a nossa casa no fim dia é destruidora.

Tiram nossas vidas, nossos espaços, nossas famílias, nossa felicidade, nossa vontade de viver. Tiram tudo que podem, mas a gente resiste. A periferia resiste e está se unindo cada vez mais para acabar com essa situação que nos é imposta todos os dias.

Cláudia: http://blogueirasfeministas.com/2014/03/claudia-silva-ferreira-38-anos-auxiliar-de-limpeza-morta-arrastada-por-carro-da-pm/

Geraldo: http://www.geledes.org.br/ele-pediu-pelo-amor-de-deus-nao-me-mate-diz-vizinha-de-jovem-morto-no-eng-velho-de-brotas/

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