Texto: Luciana Luz / Edição de Imagem: Pedro Borges

A verdade sobre a crítica à fiscalização das cotas raciais

Sem hipocrisia: O real “problema” da comissão para fiscalização da veracidade das autodeclarações está em garantir a reserva de vagas apenas a pessoas fenotipicamente negras. Essa medida assegura representatividade e distribuição (ainda que morosa) de uma parcela das oportunidades negadas sistematicamente a mais da metade da população durante séculos.

O ingresso, principalmente em cargos de alto escalão nas esferas da administração pública, age no cerne da distribuição de privilégios que mantém o Brasil, segundo a pesquisadora da Faculdade de Direito de Fordham, NY, Tanya Katerí Hernandéz, como um país onde a estrutura formal (ordenamento jurídico, instituições públicas) e o discurso dissimulado sobre a “inocência racial” das leis brasileiras exercem juntos o controle da raça, mantendo a população negra “subordinada racialmente”, servindo como massa de manobra das vontades políticas.

Finalmente, depois das várias e frustradas tentativas de denúncias de fraudes em vagas reservadas para cotistas raciais, entidades do movimento negro conseguiram, primeiro no município de São Paulo, e agora, junto ao Governo Federal, a instauração de uma comissão de aferição da veracidade da autodeclaração das vagas em concurso para cargos públicos.

A Orientação Normativa nº 3, de 1º de agosto de 2016, instituída pelo Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, determina o procedimento de que os funcionários de setores responsáveis pela contratação de aprovados em concursos de órgãos públicos federais deverão adotar para fazer cumprir a norma estabelecida pela Lei nº 12.990, de 9 de junho de 2014, que destina aos negros 20% (vinte por cento) das vagas oferecidas nos concursos públicos de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da administração pública federal.

A diversidade da identidade negra brasileira é gigante

Esta medida já havia sido implementada pelo Município de São Paulo, por meio da Portaria Conjunta SMPIR/SNJ/SMG nº 001 de 25 de abril de 2016, cumprindo o art. 11, do Decreto nº 54.949/14, que regulamenta a norma que instituiu a reserva de 20% das vagas para negros – Lei n° 15.939, de 23 de dezembro de 2013 – no serviço público municipal, em cargos de provimento efetivo e em comissão. A saber:

Art. 11. Fica criada a Comissão de Monitoramento e Avaliação da execução da Lei nº 15.939, de 2013, para compilação de dados, avaliação dos resultados, acompanhamento e proposição de medidas para o efetivo cumprimento da lei.

  • 1º A comissão de que trata este artigo será constituída por ato do Prefeito e integrada, no mínimo, por servidores públicos indicados pela Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial, que a coordenará, pela Secretaria Municipal de Planejamento, Orçamento e Gestão e pela Secretaria Municipal dos Negócios Jurídicos.

 § 2º A Comissão de Monitoramento e Avaliação encaminhará ao Prefeito, anualmente, no mês de abril, relatório sobre a execução da Lei nº 15.939, de 2013.

Dada a complexidade das relações raciais no Brasil, agravada pela consistência do mito da democracia racial, e do conflito classe X raça, facilmente desmantelados pelos trágicos números sobre a situação dos pretos e pardos nesse país, o Movimento Negro, prevendo as possibilidades de fraude, conquistou a criação dessa fundamental Comissão para controle desse direito arduamente conquistado.

O primeiro concurso para cargo público com cotas raciais do Estado São Paulo foi o da Procuradoria do Município, em 2014. Após o concurso da Defendoria Pública do Estado definir a autodeclaração e o critério de aferição como fenotipia e ascendência em primeiro grau (pai e mãe), os primeiros problemas apareceram. 13 vagas eram destinadas a candidatos negros e índios. Como houve desconfiança de fraude, tomaram-se as medidas cabíveis: aferição, exoneração dos falsários e posse dos que tinham direito.

Nada de novo no front: A esquerda contra os pretos

Além da já esperada reação da fatia declaradamente conservadora e contrária às cotas, uma enxurrada de mídias ditas de esquerda, livres e etc., criticaram negativamente a medida, e ainda por cima, apelidaram a Comissão de “tribunal racial”, fazendo uma analogia aos tribunais existentes durante o regime do apartheid sul-africano, um dos governos mais cruéis de que se tem notícia no mundo. Para piorar, jogou a “culpa” no governo ilegítimo vigente.

Ou seja, primeiro, desrespeitaram o esforço estratégico dos Movimentos Negros em negociações incansáveis, negando a veracidade aos leitores ao não informar sobre o protagonismo dos atores negros; segundo, zombam do sangue negro derramado naquele regime (e nesse), em detrimento de uma ação que visa garantir o acesso a um direito duramente conquistado. Afinal, as cotas são uma política pública que visa combater outra política pública que vigorou durante 388 anos – a escravização.

Não é de hoje que a esquerda serpenteia contra medidas que visam à amenização das desigualdades raciais. Ancorada (sem ingenuidade) na máscara do discurso das classes, esse rebanho se colocou em princípio contra a aplicação de ações afirmativas na modalidade de cotas raciais para acesso ao Ensino Superior no Brasil. O imaginário da democracia racial descansa sob a sombra do discurso de base marxista, que não coloriu (e não colore até hoje) durante anos suas estatísticas sobre a classe trabalhadora, apesar da realidade do país de tradição escravocrata antinegro. Os números mostram, porém, quem escolhe ver?.

Rafael Braga é um grande exemplo da seletiva violência estatal

Quem é negro no Brasil?

Rafael Braga, Luana dos Reis, Amarildo, Cláudia Silva, Aranha. Nunca vi ninguém questionar o pertencimento racial de nenhum deles. Ninguém questiona critérios de aferição dos Mapas da Violência, que mostra que enquanto brancos morrem por doenças crônicas, pretos tombam aos montes por fuzis; afinal, essas pessoas estão cumprindo a função dos corpos negros nesse país: nascer, servir, morrer.

Pergunte ao detector de metais que não nos deixam entrar, aos professores que nos traumatizam em vez de educarem, aos empregadores que não nos dão oportunidade, aos garçons e vendedores de lojas que não nos atendem. A lista de “autoridades em reconhecimento de fenotipia negra” é longa.

Basta que se verifique a ausência de cor, a falta de “diversidade” nos estabelecimentos que se frequenta, principalmente as lideranças ou cargos de maior poder hierárquico, em qualquer situação. Ou também, que se verifique a abundância dela em alguns espaços. Diversas pesquisas, como o Mapa da Violência, índice de analfabetismo, Mapa racial que expõe a segregação geográfica antinegra, entre centenas de outros, provam que não dá para jogar todos os brasileiros no mesmo balaio de cores. O artifício do apelo à mestiçagem está desgastado. A desculpa da avó neta de escravos já não vai afiançar vaga de alguns oportunistas, como o caso do branco Mathias de Souza Lima Abramovic, que em duas vezes se autodeclarou negro no concurso para diplomacia, já que a concorrência entre cotistas é menor do que na ampla concorrência.

Vai ter comissão de avaliação das cotas raciais sim!

Pela direita ou pela esquerda, o choro é livre.

Texto: Alexandre Matheus / Edição de Imagem: Vinicius de Almeida

No dia 01 de Agosto, o Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão publicou uma orientação normativa que institui a necessidade de comissões designadas para a verificação da veracidade da autodeclaração de negros, que se declararem pretos ou pardos, nos concursos públicos.  Nesta orientação, no artigo IV e no seu inciso 1°, está prevista a possibilidade de recurso para os não considerados negros (pretos e pardos) passarem por um processo de verificação presencial, sendo que o critério de avaliação da veracidade ou não da autodeclaração levará em consideração somente os aspectos fenotípicos (características físicas) do candidato.

A medida vem em resposta aos vários casos de “fraude” em concursos públicos e vestibulares, que adotam o sistema de ação afirmativa para negros, por indivíduos que são socialmente lidos como brancos, possuem o fenótipo caucasiano ou não negro, afirmam e construíram suas identidades como brancos ou não negros e, portanto, são portadores da maioria dos privilégios que uma sociedade racista anti-negro como a nossa dispõem aos grupos e sujeitos não negros. Mas, por conveniência e abuso da brecha da autodeclaração, se declaram como negros para obterem mais uma vantagem sobre a população negra que se vê excluída historicamente de cargos e universidades públicas.

Dessa maneira, a orientação também vai ao encontro das denúncias que os movimentos negros, e dos negros em movimento, têm feito sobre a fragilidade da regulação do sistema de cotas que tem permitido que os indivíduos brancos, nas condições citadas acima, tenham acesso a uma política pública que não lhes dizem respeito e, sendo assim, devem ser considerados como “fraudulentos”. No entanto, devemos considerar que o sistema de reserva de vagas para negros tendo como único parâmetro a autodeclaração permitia através dessa brecha a qualquer um que se autodeclarasse negro, que se beneficiasse da política pública. Desta maneira, não poderíamos considerar esse uso como uma fraude, mas sim como um problema de regulação que agora está sendo sanado.

A partir dessas considerações iniciais, que já estavam óbvias para quem estava acompanhando o debate desde o seu início, gostaria de me dedicar na discussão, muito polêmica, gerada por jornalistas considerados progressistas que chegaram a comparar a orientação normativa emitida pelo governo federal com os experimentos realizados pelos pseudocientistas do século XVIII e XIX, que buscavam comprovar a existência de diferentes “raças humanas”; a política de Apartheid da África do Sul; e até a irônica sugestão de que as pessoas deveriam ser tatuadas como minorias ao nascerem para facilitar o processo.

Essas referências foram retiradas, mais especificamente, de dois textos: “Governo vai fazer bancas para definir quem é negro”– Leonardo Sakamoto (02/08/2016) e “APARTHEID BRASILEIRO: Governo Temer adota comitê de pureza racial” – Laura Capriglione (Jornalitas Livres, 03/08/2016). Vale ressaltar, mais para averiguar de onde esses jornalistas estão falando do que para deslegitimar a discussão levantada por eles, que os mesmos (até onde pude perceber) não se declaram como negros, ou seja, não estão passíveis de participar da política pública em debate.

Com isso, ao ler os textos citados, é perceptível a ânsia da crítica pela crítica, principalmente ao fato da orientação normativa se restringir aos aspectos fenótipos na avaliação do ser ou não negro, sem que a nenhum momento os jornalistas se propusessem a apresentar outras experiências que  permitam uma regulação alternativa para a política pública em questão que barre os sujeitos que não são o seu alvo.

Neste sentido, o texto de Sakamoto fundamenta sua argumentação a partir desses questionamentos:

“Qual legitimidade tem uma comissão constituída pelo poder vigente para dizer o contrário? Quem poderá atestar que uma pessoa não sofreu preconceito ou teve seus direitos limitados ao longo da vida por ser considerada negra em um país onde o racismo corre solto como o Brasil? Haverá uma escala de cor para ser usada como referência?”

Sinceramente, para mim esses questionamentos são típicos de quem ainda esta nadando no discurso do mito da “democracia racial” e que sustenta o argumento da mestiçagem nacional como impossibilidade de que se determinar quem é negro e quem não é. Para a primeira questão, acredito que assim como o Estado brasileiro soube muito bem quem era branco quando implantou a política de branqueamento no Brasil no século XIX, uma comissão saberá também quem é negro para acessar o sistema de cotas. Já para a segunda (sério?!), se a pessoa sofreu por ser considerada negra não foi porque ela apresentou a árvore genealógica dela, mas sim pelas características físicas (fenótipo). Por fim, a terceira, não sei se haverá uma escala de cor, mas como traz Abdias do Nascimento em seu livro  Genocídio do Negro Brasileiro- processo de um racismo mascarado:

“Um brasileiro é designado preto, negro, moreno, mulato, crioulo, pardo, mestiço, cabra- ou qualquer outro eufemismo; e o que todo o mundo compreende imediatamente, sem possibilidade de dúvidas, é que se trata de um homem-de-cor, isto é, aquele assim chamado descende de escravos africanos. Trata-se, portanto, de um negro, não importa a gradação da cor da sua pele. Não vamos perder tempo com distinções supérfluas…”

Sem mudança evidente, a jornalista Laura Capriglione não melhora na argumentação. Assim como Sakamoto, se inspira em regimes de aspiração racialista, desumana e segregacionista para comparar com a medida regulamentatória adotada pelo governo federal. O primeiro o compara com o regime hitlerista da Alemanha, a segunda com o sistema utilizado no Apartheid na África do Sul. Essa ótima mistura se constitui para mim na famigerada falsa simetria. Se nestes regimes há explicitamente uma ordem de dominação racial, pelo contrário, no caso da orientação normativa vemos uma tentativa de garantia de reparação histórica aos sujeitos ainda hoje herdeiros de um sistema de subjugação racial análogo ao dos apresentados pelos jornalistas.

Racismo no Brasil é de marca, não de origem como nos EUA

A jornalista também esqueceu de afirmar que já existe um Apartheid não legalizado no Brasil e por isso é necessário que se duplique a seguridade de garantia de direitos para a população negra em um contexto em que nem as políticas de reparação são respeitadas. Não acredito que mediante os casos de “fraudes”, a revisam do critério único de autodeclaração seja um “apartheid” ou uma política hitlerista. Isso para mim é o mesmo tipo de argumento usado pelos contrários à política de cotas na data de sua instituição.

Não obstante, concordo com os jornalistas quando tento visualizar em suas críticas o limite que o fator fenótipo possa oferecer a uma política que pretende reparar “um grupamento racial/cultural/social/histórico discriminado” nas palavras da jornalista Laura Capriglione, levando em consideração que existem pessoas com fenótipo caucasiano, mas com o pai ou mãe negro.

No entanto, isto não diminui o fato da abordagem utilizada pelos comunicadores e formadores de opinião para tratar a problemática ser totalmente descabida. Sei que é problemático abordar simplesmente o fenótipo como único critério, no entanto, temos plena ciência que o racismo que se desenvolveu no Brasil foi sim via fenótipo, de “marca” para o estudioso Oracy Nogueira e não “sanguíneo” ou de origem como nos EUA. É bem polêmico, mas infelizmente temos que lidar com um trauma histórico que não foi realizado por nós negros e saber lidar, novamente, com esses casos de restituição que nunca serão plenamente justos e haverá sim contradições, porém são necessários.

Por fim, contra o raivoso ataque à medida que entra em vigor no governo golpista deixo a resposta do Presidente da Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra no Brasil, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Humberto Adami “que relata que a norma já vinha sendo trabalhada durante a administração de Dilma Rousseff e foi mantida pelo governo interino:

– Isso significa que a política de ações afirmativas tem de ser entendida como política de Estado para reparação de uma dívida histórica.”

Texto: Mirts Sants / Edição de imagem: Vinicius Martins

Primeiramente, não venho falar em nome nem da direita nem da esquerda, mas em prol da luta do meu povo, que sempre estará em primeiro plano na minha ideologia política. Sou mulher preta, militante do movimento negro e vivencio na pele todos os dias o que é ser negra/o no Brasil.

No início deste ano, denunciamos ao MPF cerca de 40 casos de fraudes nas autodeclarações do vestibular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Esse número é bem maior do que possamos imaginar, já que aqui, como a maioria das universidades brasileiras, não há mecanismos de fiscalização. Lutar contra as fraudes nas cotas raciais no Brasil tem sido o mesmo que lutar contra o próprio racismo institucional e suas diversas facetas. Ao invés das instituições fiscalizarem o cumprimento da lei e protegerem os direitos reservados à população negra e indígena, criam-se diversos argumentos para deslegitimar a lei de cotas e não se criminalizar os responsáveis pelos atos ilícitos.

Ao colocar um pouco de luz na história que a educação eurocentrada insiste em esconder da sociedade brasileira, é possível notar que não é de hoje que o movimento social negro luta pelo direito à educação dos afro-brasileiros! Sinto informar que “não é benesse de nenhum governo”, mas sim uma conquista da luta histórica de um povo que construiu esse país debaixo de chibatas e constantes violações de seus direitos por longos 400 anos. Enquanto lutávamos pela liberdade, a aristocracia brasileira concentrava as riquezas e determinava a posição de cada sujeito “em seu devido lugar” na estrutura social do país.

Porém, só em 2012, depois de imensuráveis debates que trouxeram um desconforto nacional na branquitude, a Lei de cotas foi aprovada por unanimidade no STF, com pontos que já haviam sido alertados pelo movimento negro desde 1998. Um deles foi sobre a possibilidade de fraudes nas ditas autodeclarações, mas a “brancaiada” que lá impera não iria deixar de manter tais “brechas” afim de garantir seu quinhão.

A busca por políticas públicas que melhorem as condições de vida da população negra vem sempre acompanhada de muita luta para garantirmos tais direitos. Isso porque as barreiras são impostas e realocadas ao passo que avançamos em direção a estes direitos. Por isso, a importância da participação ativa dos novos sujeitos de direitos, a juventude de negros e negras, que vem contribuindo na luta do movimento negro contemporâneo e permitindo uma oxigenação no movimento em prol das antigas e atuais demandas para toda a população negra.

O despertar da manhã de 04/08 aconteceu com a leitura de um texto no mínimo “oportunista” publicado pelo portal onlineJornalistas Livres, que também fez escola na Folha de S. Paulo. Intitulado APARTHEID BRASILEIRO: Governo Temer adota comitê de pureza racial”, a autora compara a verificação da autodeclaração pela análise dos fenótipos com a “Reedição constrangedora de práticas nazistas e do regime racista do Apartheid da África do Sul…”. Ela ainda credita ao “governo golpista de Michel Temer” a adoção da medida através da Orientação Normativa nº 3, de 1º de agosto de 2016, que se trata de pleito do movimento negro há anos, como medida necessária e urgente para a coibição das fraudes nos concursos públicos, assim como, nos vestibulares das universidades públicas e privadas. Como se não bastasse, ela conclui o subtítulo da matéria dizendo ser este um “avanço definitivamente do sinal, atropelando os direitos humanos da comunidade afrodescendente”.

No primeiro momento, a indignação vem devido ao texto ser de uma jornalista que aparentemente se coloca como “aliada” das lutas dos movimentos sociais, de direitos humanos e pela Democracia do Estado Brasileiro. O que vimos, porém, logo em seguida, é só mais um pouco da tradicional posição literária, hierárquica, elitista, branca e racista, ao qual tanto questionamos da esquerda branca brasileira. Quando é preciso, para garantir seus privilégios e seus interesses, são capazes de tudo, inclusive cortar “a carne mais barata do mercado”, ou seja, “a carne negra”, como diz Elza Soares. A autora, por vaidade e na tentativa de dar repercussão ao texto, foi infeliz em todas as suas colocações e argumentos. A infelicidade maior, contudo, residiu no fato de não ouvir as críticas do próprio movimento negro.

Antes de decidir escrever esse texto, tendo em vista que não sou escritora, muito menos jornalista, fui até a página pessoal da autora e pedi um “mea culpa” para que ela refletisse. Queria que assumisse o erro tremendo e que se retratasse perante o movimento negro, pois muitas de nós, militantes do movimento, estávamos nos sentindo lesados/as pelo ‘“fogo amigo”. Nos sentimos violados/as quando a jornalista direcionou seus canhões para as mesmas vítimas do genocídio do Estado Brasileiro, que luta co-ti-dia-na-men-te pra conter as várias formas que o Estado e a sociedade têm para nos matar como povo preto, em especial os jovens negros.

Como se não bastasse a invisibilidade dos nossos corpos negros e o silenciamento continuo de nossas vozes, as manifestações escritas que eu e tantas outros/as militantes do movimento negro fizemos na página pessoal e no portal dos jornalistas livres, não foram respondidas. Quem sabe, sequer foram lidas. No alto de seus privilégios, está uma jornalista branca que não ouviu o movimento social ao qual se propõem “representar” em texto presunçoso e longe da realidade das lutas político e social que vivemos, parecendo até não haver jornalistas negros/as para orientar ou responder às demandas de cunho racial do canal de notícias.

Que fique bem escuro que é justamente por este e tantos outros motivos que o Movimento Negro por meio dos coletivos negros universitários vem lutando contras as fraudes e pela garantia da Lei de Cotas Raciais. Quem melhor do que nós pra falar de nós ou saber o que queremos e precisamos? Garantir o direito ao acesso ao ensino superior garante que tenhamos mais jornalistas, veículos de comunicação com editoriais pretos e profissionais liberais no mercado de trabalho que nos representem. As fraudes têm reduzido drasticamente a possibilidade de acesso da população negra nas universidades e nos serviços públicos. Nas salas de aula e nos cargos de chefia nas empresas, ainda procuramos negros e negras com dificuldade. Quando nos identificamos, conseguimos contar nos dedos de uma só mão quantas/os somos.

Parafraseando a jornalista, eu me direciono aqui à esquerda branca brasileira: “é vergonhoso” sim! Em pleno século XXI, depois de resistirmos a um terrível período escravocrata, conquistarmos uma falsa abolição, lutarmos em duas ditaduras, sobrevivermos a governos de direita, ainda termos que lidar com uma esquerda que usa as pautas dos movimentos sociais como massa de manobra para conquistar aquilo que deseja. A matéria fala de “Apartheid”, “Tribunal Racial” e “Pureza Racial”, todos termos usados em tempos atuais nos argumentos das ultrapassadas teorias racistas para a negação da identidade e diluição dos direitos da população menos favorecida.

Sobre o “Apartheid”, o dia 04 de Agosto marcou os 25 anos da visita ao Brasil do líder africano Nelson Mandela. Em 1990, Mandela foi libertado depois de 27 anos na prisão por combater o racismo e o regime separatista do “Apartheid” na África do Sul. Recém-eleito presidente do Congresso Nacional Africano (CNA), ele realizou viagens internacionais, incluindo em seu roteiro alguns estados brasileiros, como o Espírito Santo. O Apartheid, política instituída na África do Sul, nos Estados Unidos da América e entre outros países, ganhou destaque no mundo através da luta de Nelson Mandela, quem viveu uma vida inteira de cárcere para ver seu povo livre de tal discriminação. Comparar as bancas avaliadoras com o “Apartheid” e práticas “Nazistas” é tão perverso quanto desrespeitoso com todos aqueles que pereceram nesses períodos horrendos da história.

É uma pena que a matéria em foco não veio a denunciar o verdadeiro “Apartheid Brasileiro”, quando formalmente e/ou por meio de normas e procedimentos, ocupamos lugares pré estabelecidos socialmente, como cadeias, manicômios, viadutos, empregos subalternizados, ruas, morros e favelas. Como esquecer o lugar da população preta, pobre e periférica nestas Olimpíadas no Rio de Janeiro? Os principais critérios utilizados para distinguir em que lugares devemos ou não estar são as características físicas e estéticas, ou seja, os fenótipos negróides. Quando é para sofrer racismo ou ser discriminado por injúrias raciais, nossos traços não são difíceis de serem identificados. Acredito ser este um critério que deva ser também utilizado para garantir os nossos direitos.

Quanto ao “Tribunal Racial”, este já está instituído nas relações raciais desde o momento que as populações negra e indígena são julgadas sumariamente como suspeitas e culpadas antes mesmo do devido processo legal. Afinal de contas, o que são as instâncias jurídicas desde país? Quando na tríplice jurídica o sujeito negro ocupa quase sempre o lugar de réu?  E para não dizer que não falei da “pureza racial”, sabemos muito bem que aqui no país da “Democracia Racial”, onde todos somos “miscigenados” graças ao constante estupro das mulheres e dos homens negros e da política de Estado de “branqueamento”, uma gota de sangue negro não o faz ser abordado na rua ou ser morto pela polícia. Não é motivo sequer para sofrer racismo em razão de sua cor. Portanto, não me venha falar que “todos somos iguais” pois no dia a dia não é essa a realidade dos pretos e pretas. Quanto mais fenótipos negroides e melaninado for, mais o racismo recai sobre você.

Este tema tem que ser tratado com seriedade e responsabilidade pois a necessidade de mecanismos de fiscalização e verificação da autodeclaração nos concursos públicos e nas universidades se dá devido às artimanhas do próprio racismo à brasileira, que primeiro nega a identidade negra aos afro-brasileiros, inferioriza-os, desqualifica e depois tira-lhes os direitos conquistados com tanta luta. Te pergunto aqui, será que se eu disser que sou filha ou neta de descendentes europeus, terei assim o direito aos mesmos privilégios de ser branca perante a sociedade brasileira? A respostá é taxativa: Não! A branquitude, seja de direita ou de esquerda, para manter seus privilégios, ainda não admite que pretos e pretas possam sentar nos mesmos bancos das universidades, fazer os mesmos cursos, sejam eles os mais ou menos concorridos, dar aulas nas faculdades brasileiras, ocupar os mesmos cargos políticos ou de gestão, ou até dar ordens numa empresa.

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