Texto: Miriam Alves / Edição de Imagem: Pedro Borges


Quando ingressei na UFMG, não imaginava que passaria por diversas situações de opressão, desde professora de Filosofia da Educação que não gostava de alunos pobres, pois segundo ela, reduzia a excelência de ensino da Faculdade, a agressão física sofrida por um ex-companheiro e às vezes em que não pude contar com a assistência estudantil. Sem dúvida, passar no vestibular foi a realização de um grande sonho, estava cheia de expectativa, pois era a primeira da minha família a ingressar no ensino superior, mas essa expectativa, também trouxe desafios...

Perceber o racismo e o racismo institucional foi algo doloroso, mas que me deu forças para suportar tudo aquilo. Obviamente o fato da Faculdade de Educação ter um departamento de Ações Afirmativas, e ter ao longo de minha trajetória quatro professores negros que contribuíram com a discussão étnico-racial em sala de aula, foi um diferencial. Privilégio este que não faz parte da realidade da maioria dos que ingressam na academia.

Muito se discute sobre a importância da Lei 10.639 e sua falta de implementação na educação básica, mas quase nunca nos questionamos: e no ensino superior? Onde está uma educação para relações étnicas raciais? Onde está uma educação que respeite a diversidade sexual, cultural e religiosa? Será que nós acadêmicos não precisamos?

Com a ocupação preta da Reitoria em 2013, pelo Coletivo de Estudantes Negros, coletivo no qual eu atuava na época, tivemos uma pequena conquista, a criação em 2014 da PRAE (Pró-Reitoria de Assistência Estudantil), responsável por promover Ações Afirmativas. Nessa época o Movimento Estudantil e o DCE simplesmente nos ignoraram. Foi um momento importante, pois está com os meus, o que tornou aquela situação em um processo de muito aprendizado.

Ocupação Preta USP Estudantes negros por todo o país tem ocupado espaços de privilégio das universidades como forma de protesto

Com a entrada cada vez mais ostensiva dos guardas no Campus da UFMG, tivemos inúmeros conflitos, devido a práticas que reforçavam o racismo institucional e a criminalização da pobreza. Muitos jovens têm sido impedidos de acessar as dependências da universidade, com a alegação de que não tem “cara de estudante”. Ou seja, os estereótipos definem os lugares sociais a qual temos que ocupar, e definitivamente nossos corpos são tão rejeitados, como nossos saberes.

Mesmo com a adoção das cotas raciais, faltam referências teóricas e autores negros para construirmos novas bases epistemológicas. Temos que ocupar lugares de representatividade, para sermos ouvidos e vistos como parte do corpo universitário; e é fundamental pensar um novo projeto político pedagógico, sem uma concepção bancária e eurocêntrica, que possa frear o maquinário elitista.

Outra pequena conquista são as formações transversais, entre elas: Saberes Tradicionais, e a disciplina História da África e Cultura Afro Brasileira, que será ofertada a partir desse semestre para alunos de todos os cursos. O que só foi possível após muitos conflitos e disputa, e ainda não podemos perder de vista os enormes desafios a ser enfrentados, daqui para frente, para que cada vez mais a universidade se torne o lugar do povo, para que de fato se torne preta e favelada!

Sabemos que quanto mais conquistamos espaços, mais o racismo se desmascara, em postagens raivosas nas redes sociais, ou pichações racistas nos banheiros contra alunos cotistas. Ou simplesmente a anulação pelo mito da democracia racial, que faz com que alunos brancos, ocupem vagas reservadas a estudantes negros. É necessário barrar as fraudes no ensino superior, reforçando o dever das universidades em criar mecanismos de controle e fiscalização para que os alunos negros sejam contemplados com a garantia plena de seus direitos.

Coletivo Negrada - UFES Movimento Negro do Espírito Santo fez denúncia de fraude no vestibular da UFES

O racismo institucional cria desigualdades e mecanismos que garantam a manutenção de privilégios da branquitude, e quando analisamos a política de cotas raciais, vemos que a mesma tem profundas brechas.

Segundo o antropólogo José Jorge de Carvalho, em entrevista pra Afropress: “A Lei federal 12.711/2012 significou um avanço parcial inegável, na medida em que fez aumentar o número de estudantes negros, porém fez um alerta aos colegas professores, estudantes e apoiadores das cotas de que, ao mesmo tempo em que amplia as vagas para inclusão dos negros, a lei pelo seu formato restritivo, impede a construção de uma plena igualdade étnica e racial no ensino superior”

Atualmente, a Lei oferece sub-cotas para negros e indígenas com duplo condicionamento de origem e renda. Ela tem caráter restritivo; impossibilita o ingresso de alunos oriundos das classes populares e acirra as desigualdades, além de gerar maior competição entre grupos já marginalizados.  Se a nota de corte dos cotistas é superior a dos não cotistas, não se trata de melhor desempenho, mas sim que a competição entre alunos negros têm aumentando. E pelo próprio vestibular ser um sistema meritocrático, temos um maior ingresso de alunos de institutos técnico e federais, que possuem maior qualidade de ensino e renda.

UFMG Alunos da UFMG relatam que pessoas "sem cara de estudante" foram impedidas de entrar no campus pela guarda universitária

Nesse caso, o jovem negro da periferia continuará sendo vítima do genocídio com raras exceções como o estudante Douglas Damasceno, de 20 anos, morador da comunidade Alto Vera Cruz em Belo Horizonte, que foi um dos primeiros colocados em medicina na UFMG. O extermínio da juventude é sistêmico e tem se agravado com o fechamento de escolas e turmas de EJA (Educação de Jovens e Adultos) em todo país nos últimos anos, mais uma barreira para que o sonho de ingressar no ensino superior continue sendo sonho de poucos.

Nem todos terão a mesma oportunidade que Douglas; oportunidade esta que não é garantia de permanência, uma vez que, os cortes de verba no ensino superior, é um entrave para continuidade das bolsas e assistência estudantil. O epistemicídio tem sido uma das armas mais vorazes utilizada contra nosso povo, e é nossa dever reverter o processo de aniquilação que encarcera nossos jovens e reflete no número de obituários.

Texto: Juarez Xavier / Ilustração: Moska Santana


A globalização intensificou a “expropriação da mais-valia”, em cada pedaço do território global. A exploração do trabalho tornou-se mais selvagem. Caem por terra as máscaras das veleidades. O capital devora tudo que encontra pela frente: lucro, políticas públicas, liberdades democráticas e a vida dos grupos sociais em condições vulneráveis.

A máquina trituradora de gente deixa um rastro de corpos jovens, não brancos e de moradores das periferias do mundo. É a perversidade em estado puro!

O diagnóstico é do geógrafo Milton Santos. A ocupação do território pelo capital estreita as margens de possibilidades dos segmentos acêntricos e alimenta os incautos com fábulas e simulacros, como a meritocracia em sociedades desiguais: “todos somos iguais, e com nossos esforços individuais, podemos chegar lá, sem a ajuda do estado”.

Milton Santos3 "Por uma outra globalização", uma das principais obras de Milton Santos, é um clássico da literatura brasileira

Nos embates modernos, a questão central é o estado e suas possibilidades de realização: agudizam-se os enfrentamentos pela sua posse e pelas suas políticas públicas potenciais. Esse jogo define quem ganha e quem perde.

A disputa é entre o “partido da inclusão” versus o “partido da exclusão”. O sociólogo Jessé José Freire de Souza [1] sacou a natureza desse conflito. A luta pelas políticas públicas é a luta pelas possibilidades de inclusão social, contra a segregação.

A disputa dá-se em âmbito planetário e alinha o que há de mais conservador em termos de políticas públicas no mundo.

David Cameron –partido conservador britânico-, Jean-Marie Le Pen –frente nacional francesa-, Donald Trump –pré candidato do partido republicano norte-americano-, e Jair Bolsonaro –partido progressista, no Brasil.

O que há de comum entre as ações desses políticos é a característica anti-negra de suas propostas. Todos são contra as políticas públicas de inclusão dos segmentos não brancos, como critério definidor de direitos, e abominam qualquer possibilidade compensatória e reversiva, pautadas pela questão racial.

É um traço característico permanente da velha e nova direita: são militantes anti-cotas para os segmentos sociais acêntricos.

População branca Segundo pesquisa Zero Horas, nos protestos a favor do impeachment de Dilma, apenas 8% dos manifestantes se autodeclararam negros. Foto: Jornalistas Livres

No país, a disputa em curso opõe os defensores de políticas públicas de inclusão versus os partidários anti-políticas públicas inclusivas, na modalidade de cotas. No tabuleiro político, as peças distribuídas opõem os alinhados das ações de estado para a promoção da igualdade versus os militantes da privatização das ações do estado e de seus benefícios, imateriais e materiais.

Essa disputa se dá desde o período da democratização do país, na década de 1980, nos estágios de mudanças institucionais no governo e no estado.

No final do período da ditadura civil-militar [1964-1985], o movimento social de negras e negros era um protagonista político ativo importante, junto às forças democráticas e de oposição.

O lançamento do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial [MNU], em 7 de julho de 1978, antecipou em um ano a promulgação da lei anistia [lei n° 6.683], em 28 de agosto de 1979, e em seis anos o início da campanha pelas direta já, em 1984.

MNU3 Movimento Negro Unificado, criado em 1978, é uma referência histórica no combate ao racismo

Nos anos de 1980, as políticas públicas de inclusão dos governos estaduais democráticos adotaram as demandas políticas do movimento negro [Franco Montoro, em São Paulo e Leonel Brizola, no Rio de Janeiro, são referências desse momento político].

A radicalização política do movimento negro nos anos de 1990 impactou as políticas públicas de inclusão nas décadas subsequentes.

No 1º Encontro Nacional de Entidade Negras [ENEN realizado na cidade de São Paulo, com o apoio da então prefeita Luiza Erundina] aprovou-se a resolução de que o racismo não seria superado nos marcos do estado segregacionista brasileiro, articulado em 1850, como apontava o sociólogo Clóvis Moura [1925-2003], e redesenhado periodicamente pelos segmentos hegemônicos da sociedade, em diversos golpes de estado, ao longo do século 20.

Essa resolução repercutiu e impactou a política pública dos governos federais no anos seguintes: José Sarney [criação da Fundação Cultural Palmares -Lei Federal nº 7.668, de 22 de agosto de 1988.], Fernando Henrique Cardoso [instalação do Grupo de Trabalho Interministerial para a Valorização da População Negra, em 1996; e mobilização do estado para a Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Conexa, em Durban, África do Sul, em 2001]; Luiz Inácio Lula da Silva [criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), em 21 de março de 2003]; Dilma Rousseff [apoio à aprovação da Década Internacional de Afrodescendente 2015/2024, na assembleia geral da Organização das Nações Unidas, em 23 de dezembro de 2013].

O governo de Fernando Collor de Mello [1990-1992] assumiu o país no contexto do Consenso de Washington –composto por dez medidas básicas-, formulado em novembro de 1989, por economistas do Fundo Monetário Internacional [FMI], do Banco Mundial, e do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, em encontro realizado na capital norte-americana, que previa a redução dos gastos públicos, e a desidratação das políticas públicas, para o pagamento da dívida externa, via privatização [2].

No campo legislativo, o movimento social de negras e negros assegurou a criminalização da prática do racismo, nos debates da Assembleia Nacional Constituinte -Constituição promulgada [Art. 5, inc. XLII da Constituição Federal de 1988] -, e na definição dos crimes resultantes da discriminação racial, Lei Caó [7.716/89], em homenagem ao deputado constituinte Carlos Alberto Oliveira dos Santos.

O movimento negro compreendeu, nesses momentos de mudanças institucionais, que a democracia política é condição sine qua non para o aprofundamento das políticas públicas com recorte étnico-racial.

No cenário em disputa, a autonomia política e organizativa do movimento negro é fundamental e estratégica.

Porém, ele não pode deixar de considerar que a articulação [à esquerda e para baixo] e a radicalização [ater-se à essência e não à aparência] política criam as condições favoráveis para o enfrentamento do preconceito, da discriminação e do racismo.

Como sugeriu o cancioneiro popular, Solano “Vento Forte Africano” Trindade [3]” [1908-1974], no belo poema “Negros”, à esquerda, irmãs e irmãos, é a palavra de ordem possível, neste momento!

[1] Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada [Ipea].

[2] As dez regras: Disciplina fiscal, Redução dos gastos públicos, Reforma tributária, Juros de mercado, Câmbio de mercado, Abertura comercial, Investimento estrangeiro direto, com eliminação de restrições,

Privatização das estatais, Desregulamentação (afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas) e Direito à propriedade intelectual.

[3] NEGROS - Negros que escravizam/E vendem negros na África/Não são meus irmãos/Negros senhores na América/ A serviço do capital/ Não são meus irmãos/ Negros opressores/ Em qualquer parte do mundo/ Não são meus irmãos/ Só os negros oprimidos/ Escravizados/ Em luta por liberdade/ São meus irmãos/ Para estes tenho um poema/Grande como o Nilo.

Texto: Francy Silva / Ilustração: Moska Santana

A banalização da violência contra jovens negros

Entre Dorvi e os companheiros dele havia o pacto de não morrer. Eu sei que não morrer, nem sempre é viver. Deve haver outros caminhos, saídas mais amenas. Meu filho dorme. Lá fora a sonata seca continua explodindo balas. Neste momento, corpos caídos no chão, devem estar esvaindo em sangue. Eu aqui escrevo e relembro um verso que li um dia. “Escrever é uma maneira de sangrar”. Acrescento: e de muito sangrar, muito e muito... (EVARISTO, 2015, p. 109).

Era fevereiro de 2010. Por volta do meio-dia, ouvi três disparos secos. Em pouco tempo, todos nós já sabíamos: o barulho viera da rua de cima. Dois jovens encapuzados e de motocicleta haviam disparado contra três garotos. Um deles, de 15 anos, conseguiu fugir antes de ser atingido. O segundo, também de 15 anos, levou um tiro nas costas, perto da coluna, o que o deixaria durante um bom tempo na cadeira de rodas. O terceiro, de 17 anos, fora atingido com um tiro na cabeça e morreu na hora. Os três eram meus alunos. Os três eram negros e pobres. Os três eram traficantes e usuários de drogas.

Jonas, o garoto morto, era filho de mãe solteira e tinha mais cinco irmãos. Dois deles também estavam envolvidos no mundo do tráfico. Jonas estava cursando o primeiro ano do Ensino Médio. Era um bom aluno. Faltava muita aula, mas quando estava presente era muito participativo. Aos poucos, Jonas começou a mudar o seu comportamento em sala de aula. Tornou-se rebelde e agressivo. Desconfiei que estivesse usando drogas. Algum tempo depois, ele abandonou definitivamente a escola. Minhas suspeitas se confirmaram. Jonas tornara-se traficante e usuário de crack e caiu na armadilha de ficar devendo aos seus parceiros que não perdoaram a dívida. Como não tinha dinheiro para pagar o que devia, Jonas acabou pagando com a própria vida. Morreu poucos meses depois de entrar no mundo das drogas.

Dias antes de sua morte, o encontrei na rua. Falei pra ele voltar pra escola, que estava fazendo falta. Disse-me sorrindo “vou voltar, professora!”. Não voltou. Partiu aos dezessete anos. Tão garoto, tão cheio de sonhos...

 

"Acerto as contas, as minhas, levo o concluído e entrego ao bacana. Nunca falhei. Ele retira o que é dele e devolve o que é meu. Hoje não terá devolução alguma. Devo. Falta. A dívida do outro é minha dívida. É? O apartamento da chefia é bonito. Olhando para baixo vê o mar. Quero a morte lenta e calma. Quero boiar no profundo do mar. Quero o fundo do mar-amor, onde deve reinar calmaria. É lá no profundo fundo que vou construir um castelo para a morada de meu filho, Bica, predileta minha, vai também. Ela sabe que da ponta da escopeta também sai carinho [...]. O mar lá embaixo abrindo todo, todo. Grande é o mar. Quando não estou com a minha arma por perto, me borro de medo. Tenho vontade de chorar. Olhando o mar lá de cima, vi que pequeno sou eu [...]. Quero o fundo do mar. Quero a predileta minha e o meu putinho que nasceu. Um dia vou ser navegante [...]. Quero fazer uma viagem profunda, pro fundo do mar-amor. Predileta minha, o putinho meu e eu, os três... A viagem funda que afunda. A vida vale? A dívida é minha? Com quem dividir essa dívida? Essa dúvida?" (EVARISTO, 2015, p. 104).

Crack ganhou muitos usuários primeiro nos EUA na década de 1980, com o uso entre as comunidades negras e latinas. Foto: Robson Ventura/Folhapress

Crack ganhou muitos usuários primeiro nos EUA na década de 1980, com o uso entre as comunidades negras e latinas. Foto: Robson Ventura/Folhapress

Oito meses depois da morte de Jonas, estava voltando da faculdade quando fui informada do assassinato de outro jovem. Mateus tinha sido meu aluno por duas vezes, e abandonara a escola nas duas ocasiões.  Mateus havia sido abandonado pela mãe ainda bebê e fora criado pela avó doente mental e pelo pai, usuário de drogas. Tinha sido meu aluno em 2009 e havia abandonado as aulas no meio do ano. Em 2010, voltou a estudar. Estava empolgado no início do ano letivo. Sempre muito crítico e participativo, era o primeiro a terminar as atividades, sem dúvida, o melhor aluno da turma.

Numa das aulas, escreveu um poema que dedicou a uma colega. Estava apaixonado. Achei que naquele ano ele não desistiria. Desistiu mais uma vez. Eu e outras professoras tentamos convencê-lo a voltar pra escola, mas as tentativas foram frustradas. Durante o tempo em que frequentou as minhas aulas, Mateus nunca me desrespeitou, jamais alterou o tom de voz, mesmo quando estava irritado. Gostava de ficar quieto em seu canto. Tinha dia que participava ativamente das aulas, mas normalmente preferia o silêncio. Sabia que algo o angustiava. Perguntava o que estava sentindo, mas ele dizia que não era nada. Que estava tudo bem. Não estava. Nunca esteve. E eu me sentia impotente por não poder fazer nada que o fizesse sentir-se melhor.

Em meio ao caos, Mateus encontrou refúgio no crack. Foi assassinado, porque assim como Jonas, ficou devendo aos traficantes. Depois da sua morte, lembrei-me então de uma atividade que tinha realizado no primeiro dia de aula. Pedi para que os alunos e alunas escrevessem uma carta dizendo quais eram os seus objetivos naquele ano. Que falassem dos seus sonhos e expectativas. Ao final do ano letivo, abriríamos as cartas para ver se o que tinham desejado havia se concretizado. Abri a carta do Mateus. Nela ele falava do seu maior sonho: conhecer a sua mãe. Dizia também que queria se tornar uma pessoa melhor. Não fazer mal aos outros. Queria ser bom, fazer o bem. Não teve tempo de realizar os seus sonhos. Morreu aos dezenove anos. Mateus queria ser bom, mas esse mundo é muito ruim.

Desde a morte de Mateus, muitos outros garotos, majoritariamente negros, foram assassinados em minha cidade natal, um município com menos de sete mil habitantes. Em seis anos, já foram inúmeras mortes, todas seguindo o mesmo padrão. Os primeiros assassinatos, em uma cidade tão pequena, provocaram certo pânico na população. Mas, com o passar do tempo, as pessoas passaram a se acostumar com as mortes. Afinal, não estavam morrendo “pessoas de bem”, mas bandidos. E “bandido bom é bandido morto”, especialmente se for negro e pobre.

 

"Porra, o cara me deu um banho e eu estou escorregando na água dele, com sabão de lavar cachorro. O prazo está terminando e o meu também. Busco aquele puto no inferno, pois sei que os homens de Baependi vão me buscar também. Eles me catarão debaixo da saia da minha mãe, se preciso for. E a gente combinamos de não morrer. Que merda, selamos agora a própria morte. [...] Penso no risco que estou correndo. Risco não, tudo já é certo. A solução está definida. O destino traçado. Não há recuo. Não estou aflito. Não estou desesperado. Não estou calmo. Não estou inocente ou culpado. Apenas estou sabendo que daqui a pouco, questão de um dia e meio, não estarei mais. Nem eu, nem ele. Acabo com ele, mas isto não resolve. Outros acabarão comigo. Nosso trato de vida virou às avessas. Morremos nós, apesar de que a gente combinamos de não morrer. A morte às vezes tem um gosto de gozo? Ou o gozo tem um gosto de morte? [...]. Vou matar, vou morrer. É lá no mar que vou ser morrente. Mar-amor, mar-amar, mar-morrente. É no profundo do fundo, que guardarei para sempre as lembranças do meu putinho e da dileta minha". (EVARISTO, 2015, p 106-107).

Guerra às drogas é a principal desculpa dada por especialista em Segurança Pública para justificar o genocídio da juventude negra

Na última semana de janeiro de 2016, mais um garoto negro virou estatística. João tinha 16 anos. Foi meu vizinho desde que nasceu. Posso assim dizer, que o vi nascer e morrer. João sempre foi um menino de poucas palavras, meio arredio e desconfiado. João guardava em si uma revolta. Algumas pessoas diziam que era por causa das muitas surras que levara do pai. Um homem que acreditava que ao castigar o filho poderia livrá-lo do mau caminho.


João seguiu outros caminhos. Aos dez anos já traficava. Era mais um garoto que vendia drogas para poder ter dinheiro para comprar aquilo que o seu pai, trabalhador rural assalariado que sustentava uma família composta por cinco pessoas, não podia lhe oferecer. O pai batia cada vez mais no filho, à medida que ia percebendo que esse estava cada vez mais envolvido no mundo das drogas. Sempre lhe disseram esse era um caminho sem voltas, mas por muito tempo acreditou que poderia resgatar o seu menino. Desistiu quando o filho tornou-se muito agressivo. João passou a ser temido na cidade. Ganhou o respeito que sempre quisera. Deixou de ser mais um menino negro excluído e marginalizado para ser o centro das atenções. A fama lhe trouxe muitos inimigos.

João passou a ser perseguido e viver na penumbra. Em dezembro de 2015, João cometeu um assassinato. Matou um traficante que estava lhe devendo. O jovem assassinado, branco e de classe média, era de uma família muito conhecida na cidade. A população ficou revoltada. Repensou, por um momento, a premissa de “bandido bom, bandido morto”. O rapaz usava e vendia drogas, mas era de uma boa família. Não podia ter morrido daquele jeito.

Depois do crime, João passou a ser ainda mais odiado pelos cidadãos de bem.  Sua cabeça foi colocada a prêmio. Todos queriam a morte do “negrinho criminoso”. O desejo dos “homens e mulheres de bem” foi realizado no dia 28 de janeiro. João foi morto com um tiro à queima roupa. Um tiro certeiro no peito. Foi atingido longe de casa, mas ainda teve forças de correr na tentativa de chegar à sua residência. Sucumbiu faltando alguns poucos metros para chegar ao seu lar. A mãe, que tinha acabado de voltar da igreja, correu desesperada ao encontro do filho. Chegou a tempo de ouvir a última respiração do seu menino. O pai foi poupado de assistir a essa cena, não estava em casa no momento em que o fato aconteceu. Estava trabalhando em uma fazenda distante. Soube apenas no dia seguinte da morte do filho.

Criminalização da juventude negra pelo Estado e pelos veículos de comunicação alimenta o genocídio do povo negro Criminalização da juventude negra pelo Estado e pelos veículos de comunicação alimenta o genocídio do povo negro

No velório, estava inconsolável. O homem rude chorava feito criança. Fui ao encontro dele na tentativa de falar alguma coisa que o confortasse, mas ainda não inventaram palavras capazes de consolar um pai ou uma mãe pela perda de um filho. Olhei para ele e balbuciei alguma coisa, uma dessas frases bem clichês. Ele me disse em um choro compulsivo: “perdi o meu filho para as drogas”. Eu não consegui falar mais nada. Não havia o que dizer. Enquanto os pais choravam desolados pela perda do filho, os “cidadãos de bem” celebravam a morte de mais um bandido. Mais um negro delinquente que havia escolhido viver na criminalidade.

Para essas pessoas, viver no mundo do crime é simplesmente uma escolha que esses garotos fazem.  É como se eles já tivessem nascido dizendo “mãe, eu quero ser bandido quando crescer”. Os “cidadãos de bem” não compreendem ou não querem compreender que quando um jovem entra no mundo da criminalidade não é uma mera escolha. Há uma série de fatores que contribuem para que um garoto torne-se um usuário de drogas, traficante ou um assassino. Sobretudo, se esse jovem for pobre, negro e da periferia. Nascer pobre e preto em um país racista, excludente e desigual é um fardo pesado demais que esses meninos têm que carregar.

Vivemos em uma sociedade capitalista. A sociedade do consumo, das aparências, em que as pessoas são valorizadas pelo o que tem ou demonstram ter, não pelo o que realmente são. A maioria dos jovens que entra na criminalidade quer ter o celular de última geração, um tênis maneiro, um casaco de marca. Nascidos sob a marca da diferença e da exclusão, o ter lhes proporciona uma sensação de poder, uma sensação de que eles existem no mundo. É uma maneira de se auto afirmarem, de conseguirem reconhecimento e respeito. Esses garotos, negros e pobres, na maioria das vezes, são marginalizados muito antes de se tornarem marginais. E quando os “cidadãos de bem” celebram a morte desses jovens, pensando que estão se livrando de um problema, talvez não consigam perceber que eles também fazem parte do problema. Quando um “cidadão de bem” vibra com a morte de um garoto envolvido no mundo do crime, ele não está contribuindo para o fim da violência, mas colaborando com ela.

A violência é um problema social. E já que fazemos parte de uma mesma sociedade, somos, em alguma medida, culpados pelas mortes desses jovens. Somos vítimas, mas também algozes. Em vez de comemorar a morte desses jovens que estão vivendo na criminalidade, é preciso pensar em estratégias eficientes que possam evitar que esses garotos entrem no mundo do crime e\ou tentar recuperar aqueles que estão nele.

“Deve haver uma maneira de não morrer tão cedo e de viver uma vida menos cruel” (EVARISTO, 2015, p. 108).

* Os excertos destacados no texto foram retirados do conto “A gente combinamos de não morrer”, do livro Olhos D’água, de Conceição Evaristo, grande escritora afro-brasileira. Olhos D’água foi indicado ao Prêmio Jabuti 2015 e conquistou o 3º lugar, na categoria contos e crônicas.

* Todas as histórias narradas são verídicas.

Francy Silva é Mulher, Negra, Nordestina, Feminista, Militante do Movimento Negro. É integrante do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros – NEAB Viçosa. Doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC Minas, estuda a produção literária de escritoras negras brasileiras e escritoras dos países africanos de língua portuguesa. Atriz nas horas vagas e professora por vocação. Acredita na educação como uma importante arma no combate ao racismo e a todas as práticas discriminatórias.

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