Texto: Gabriel Carneiro / Edição de Imagem: Pedro Borges


Nós, jovens negros da periferia, sabemos o quão o capitalismo e o racismo afetam as nossas vidas diariamente. Os passos mais lentos quando passa um carro de polícia, o constrangimento com os olhares das pessoas, o nojo do nosso cabelo, a “exotificação” da nossa cor.

Mas em algum momento, principalmente quando entramos na faculdade, nós seremos bem tratados. A diferença entre os tons de pele será irrelevante, seu cabelo vai ser até legal, descolado. E quando esse momento chega, nos tornamos o amigo negro. Sim, o amigo negro. O amigo que será a muleta para o discurso desconstruído da roda. Mas também, por mais que estejamos ambientados com nossos colegas, majoritariamente brancos, ficaremos para trás em todas as questões sociais. Questões essas que nossos amigos brancos tentam entender “ao máximo”, mas que enquanto puderem desfrutar de seus privilégios, o farão.

Muitos comentários racistas serão ditos, e o complexo de inferioridade que nos é imposto desde nossa infância volta como um soco no estômago. E a realidade da forma mais agressiva nos é exposta, e então, descobrimos que somos negros. E quando digo que “descobrimos”, não é porque já não sejamos negros e que não tenhamos noção do quão inferiorizados a sociedade nos torna. Mas sim, porque naquele momento, onde a convivência com a branquitude nos faz querer esquecer as dificuldades que nós negros enfrentamos, somos jogados ladeira abaixo de novo. E esse é o momento da descoberta da nossa identidade. Esse também é o momento onde nos buscaremos em nossos semelhantes, os negros.

Steve Biko - Consciência Negra

É claro que, quando falamos de ensino superior, sabemos que a presença de jovens negros é mínima. Mas eles estão lá, para nos acolher e ajudar a levantar.

E por mais difícil que isso seja, é libertador. Se descobrir negro, se aceitar negro e se amar negro. Amar a nossa fisionomia, nossa cultura, compartilhar os problemas com aqueles que os sofrem.

Isso não quer dizer que nos devemos nos afastar de nossos amigos brancos e amá-los menos. A não ser que eles insistam em serem racistas idiotas. Mas temos em nossa mente a verdadeira história, e compartilha-la, seja com branco ou com nossos irmãos, é importante.

É uma escolha pessoal e sempre será.

Temos em nós a história, a luta e a alma dos nossos antepassados. Os reis que governaram e os escravizados que lutaram.

Devemos nos amar cada vez mais, só assim amaremos nossos irmãos. E só assim, lutaremos juntos.

Texto: Dennis de Oliveira / Ilustração: Moska Santana


Um tema muito repisado nos últimos tempos na luta contra o racismo é a autoestima de negras e negros. Em boa parte, este tema vem sempre à tona para demonstrar a importância do estudo, disseminação e reflexão sobre a cultura africana, afro-brasileira e a história da África. Evidentemente, contada a partir dos seus protagonistas e não aquela apropriada e recontada por quem sempre oprimiu.

Sem dúvida que estas conquistas – ainda que não plenamente implantadas – são importantes. Mas as mudanças na Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da educação por meio da lei 10639/03 e 11645/08 vão muito além.

Por serem alterações na LDB, elas se aplicam a todo o sistema educacional brasileiro. Independente da escola ter muitos, poucos ou nenhum estudante negra ou negro. Trata-se de uma legislação que visa contribuir na mudança das relações étnicorraciais. E isto significa intervir não só na “autoestima” de negras e negros, como também no comportamento de brancos.

Em uma entrevista concedida a um documentário sobre a “Década do Afrodescendente”,  Danilo Benedicto, ativista da Rede Quilombação e estudante de economia da Unifesp, disse taxativamente: “autoestima não paga conta”.

A afirmação pode ser dura, mas tem seu fundo de razão. Não que a autoestima não seja importante. Sem dúvida que a postura de reivindicação ou de assujeitamento a uma condição de subalternidade tem muito a ver com a autoestima. Mas ela, por si só, é insuficiente para resolver o problema do enorme fosso social entre brancos e negros existente no Brasil.

Diferença Negros Brancos

Isto porque o risco de se centrar a discussão na autoestima é responsabilizar o próprio negro e negra pela sua condição. Discurso este comumente feito pelos brancos: “vocês (negros) mesmo que não se valorizam e são racistas”. E aí vem o eterno exemplo do Pelé e outras celebridades negras.

O racismo é uma forma de relação social de opressão, criada por quem está no topo e está no poder. Como ideologia, ela é disseminada e penetra em todos os segmentos sociais, inclusive na própria população negra. Da mesma forma que a ideologia burguesa está presente também na classe proletária. O poder de um grupo minoritário se mantém assim.

E o que é importante nesta reflexão é o porquê disto. O racismo existe porque mantém privilégios sociais, mantém estruturas de poder. O branco que pratica o racismo o faz não por má educação apenas (embora ela possa também existir) ou por uma maldade inata ao seu ser (embora isto possa também acontecer), mas porque mantém um lugar de privilégio para ele.

O racismo garante que uma pessoa branca não tenha preocupações de sua aparência ser vital na seleção de uma vaga de trabalho. Ou de ter que provar que é inocente e uma pessoa honesta na hora que é abordada pela polícia. Ou ter que conviver com cenas como uma pessoa atravessar a rua ou segurar a carteira quando chega próximo.

Em um sentido mais amplo, este privilégio racial garante, por exemplo, que se mantenham intactas estruturas repressivas típicas de regimes autoritários em plena democracia no Brasil. Exemplo: práticas policiais que invadem domicílios sem mandados de busca nas periferias; execuções extrajudiciais; torturas nas delegacias; detenções sem amparo judicial e/ou legal. Esta mesma estrutura repressiva que impõe um estado de sítio nas periferias é mobilizada para conter ações dos movimentos sociais, como passeatas, greves, protestos.


Este mesmo privilégio racial propicia à burguesia brasileira condição favorável para manter um regime de superexploração do trabalho com o sub-emprego e os salários mais baixos impostos aos trabalhadores negras e negros.

E a brutal exploração da trabalhadora doméstica reduz a pressão da população em geral por políticas públicas como mais creches, lavanderias coletivas e restaurantes populares que permitam a conciliação do trabalho com as demandas domésticas.

Doméstica Regularização do trabalho doméstico no Brasil causou grande alvoroço na elite do país

Em outras palavras, estamos falando de poder – e não apenas o poder expresso nas estruturas governamentais. Mas o poder social exercido pelas classes dominantes. Os privilégios raciais legitimam esta ordem social de concentração de renda, cidadania restrita e violência como prática política central.

Não se trata apenas de como o negro e a negra se veem. Mas como eles estão inseridos no sistema capitalista brasileiro. Até porque o capitalismo é tão dinâmico que a cada dia cria mecanismos de apropriação de certas demandas culturais desde que elas não contradizem sua lógica sistêmica. O pessoal da Casa Grande até deixa a turma da senzala frequentar certas coisas – desde fazer uma feijoada, tocar um samba ou jogar uma capoeira. Mas o que não se discute é a propriedade da Casa Grande. Dividir o espaço da manifestação cultural, até pode, mas a propriedade não. E para pagar as contas, é preciso de dinheiro.

Texto: Ézio Rosa / Ilustração: Moska Santana


Durante praticamente todos os (poucos) anos de vida, tentei encontrar um nome para as situações rotineiras que aconteciam comigo e com outra parcela específica da sociedade. O racismo tem muitas nuances e por isso nem sempre o percebemos como tal. Por esse motivo só comecei a me importar de fato com questões raciais (para além de evitar práticas racistas), quando entendi que as situações pontuais que marcam meus dias de segunda à segunda tinham nome sim; racismo!

Situação 1

Subo no ônibus sabendo que mais uma vez as pessoas vão me olhar como se eu fosse a criatura mais espetaculosa do picadeiro. Os fones de ouvido tornam a viagem menos pior. Muitas vezes pego o ônibus no ponto final, podendo então escolher o lugar em que vou sentar. O busão enche como de costume e o único lugar que está vazio é o do meu lado. Quando as pessoas começam se espremer nos corredores, enfim alguém se senta no banco vazio.
Se eu não dependesse do transporte público todos os dias da minha vida e não visse essa cena se repetir dia sim, dia não, até pensaria que é coisa da minha cabeça.
#SeráQueÉRacismo?

Bancos - Divisão Racial Hábitos cotidianos revelam muitas práticas racistas

Situação 2

Uma vez fui até o prédio da prefeitura de São Paulo para assinar uma contratação artística e a atendente branca não permitiu minha entrada. Me perguntou mais de uma vez o que eu iria fazer no 11º andar e só quando deram um ok lá de cima, tive o acesso permitido.

Um ponto a se destacar é que durante os minutos de espera, a mesma liberou várias outras pessoas a entrarem no prédio. Estas não passaram pelo procedimento "padrão" pelo qual eu passei.

Será que não faço o estilo padrão prefeitura? Risos
#SeráQueÉRacismo?

Situação 3

Durante a minha ultima ida ao Rio de Janeiro, uma gringa veio até onde eu estava dançando com um grupo de amigos e pediu para "experimentar" meu cabelo. Seja lá o que ela quis dizer com isso, ser exotificado não é legal.
Seria bacana poder circular por aí tranquilamente sem essas abordagens invasivas.
#SeráQueÉracismo?

Cabelo Black Power Uma das faces do racismo é a exotificação dos corpos negros

Situação 4

Ter o fenótipo e a textura capilar ridicularizados acontece desde que me entendo por gente. Eu demorei para dar nomes aos bois, mas hoje em dia não me engano mais.
O cabelo crespo incomoda muita gente, os xingamentos e as "brincadeiras" não têm local nem horário para acontecer. Eu posso estar no ponto de ônibus, na fila do mercado, na praia, no hospital (SIM no hospital!), na minha rua ou em qualquer outro lugar. O agressor (sobretudo homens hétero) adoram fazer uma piadinha para enaltecer sua masculinidade, e aí os apelidos são vários; cotonete, Jackson Five, microfone, cabelo duro, cabelo ruim, peruca e por aí vai.

Para além do cabelo crespo, ter o nariz largo e a boca grande também é um prato cheio para os piadistas de plantão (leia-se racistas e homofóbicos).
Durante uma aula de ciências, a utilização de um livro ilustrado é a pedida para que as crianças encontrem os animais e os comparem com seus amigos. É claro que os meninos brancos vão ser comparados com o leão, o gato ou outro animal considerado majestoso. Eu fui comparado com um daqueles macacos brancos sabe?

É lógico que os colegas de pele escura foram bem mais humilhados pelos demais pré-aborrecentes. E a cereja do bolo nesta situação foi o silêncio da professora que estava na sala de aula.
#SeráQueÉRacismo?

Macaco A comparação entre pessoas negras e determinados animais, como o macaco, é uma tentativa de desumanizar negras e negros

Mesmo depois das quatro situações relatadas, ainda há quem diga que racismo não existe, ou então, “mas você não é negro”! Para além de como nós nos identificamos, temos que nos preocupar como é que nós somos vistos pelo Estado. Este sim, sabe muito bem quem é preto e quem não é.
Ter a pele clara significa carregar consigo o grande privilégio de ter dúvidas de quem nós somos de origem, já que aos negros de pele escura não cabe a duvida. Ter dúvida significa que podemos transitar pelos espaços com nossa identidade embranquecida e com isso acessar espaços que negros retintos não acessam.

O que deixa a casa grande louca é quando nós, negros de pele clara, tomamos conhecimento desta identidade e a enaltecemos. Para eles é inaceitável que estejamos tomando consciência de questões relacionadas à raça, pois tendo a pele clara, poderíamos nos passar por brancos ou pardos, mas não! Não queremos e nem vamos nos passar por algo que não somos.
Entre nós negros existem muitas especificidades, e o tom de pele é uma delas. Ser quase negro ou  sofrer quase racismo não existe! E por esse motivo eu me posiciono, porque não posso ser pela metade. Bem que eu gostaria de ter a opção de sofrer só metade da homofobia, ou só metade do racismo, mas sabendo que o racismo e a héteronorma são estruturantes em nossa sociedade, isso seria como desejar uma piscina no deserto.
O mito da democracia racial tem criado muitos negros que se acham brancos e também muitos afroconvenientes. Saiba quem tu és! Tome conhecimento da sua história e reconheça seus privilégios. Ser quem se é em essência deveria ser inerente ao ser humano.

A todas as Bichas Nagô força na caminhada!

RSS

feed-image RSS

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com

Mais Lidos