Texto: Mônica Gonçalves Mendes / Ilustração: Araújo

Dias atrás estive numa aula da pós graduação da Faculdade de Medicina da Usp em que um professor – importante dentro da instituição pelo papel contra-hegemônico de denúncia que desempenha – contou sobre o “menino” negro que havia conquistado a única vaga de professor numa universidade estadual em São Paulo. O professor, que foi banca do processo seletivo, relatou minutos a fio sobre ter notado a história magnífica do menino preto periférico que venceu todos as barreiras sendo sempre o melhor em tudo. Narrou que no concurso, depois de superar 42 concorrentes, chegou a última etapa concorrendo com uma mulher branca, “filha da casa”, com uma diferença superior de 0,1 ponto em relação a ela.

Enquanto para os membros da banca a diferença justificava a revisão das notas e do processo seletivo – e, não sejamos ingênuos, a entrada da menina – para ele a não validação desse 0,1 seria racismo. E ainda ante a essa consciência, seguiu: nos contou sobre sua argumentação, do quanto foi importante ter interpelado e constrangido a banca a esse respeito, do quanto foi laborioso e persuasivo indo contra todo o sistema e as pessoas que certamente se posicionariam em consenso pela entrada da menina, fosse do jeito que fosse – ainda que infringindo princípios éticos e agindo desonestamente. E, ao ser o rapaz eleito, descreveu como lhe deu os cumprimentos, honroso de seu papel, do trabalho árduo que fez e fizeram todos da banca, gabando-se da escolha acertada que tinham tomado.

A aula aconteceu na mesma semana quando, dias depois, uma companheira de república querida me mostrou com certo entusiasmo uma reportagem que falava sobre o homem branco que ocupou o pódio junto a Tommy Smith e John Carlos na Olimpíada de 68 – sim, falamos dos dois homens que, apropriados de seu lugar político enquanto negros, ergueram seus punhos diante de um mundo inteiro (literalmente) que os assistia como símbolo de resistência, fazendo alusão ao movimento Black Panter, em pleno processo de luta pelo reconhecimento de direitos civis dos negros nos EUA.

Tommy Carlos e John Smith fazem o símbolo dos Panteras Negras nos jogos Olímpicos de 1968

Tommy Carlos e John Smith fazem o símbolo dos Panteras Negras nos jogos Olímpicos de 1968

Intitulada “O terceiro homem”, a matéria de 2006, enaltece a solidariedade do homem branco em relação à luta negra já no subtítulo. Toda a tônica do texto é sobre o ~grande feito~ de ter sido solidário aos pretos em protesto. Ali, cientes de que eram passíveis de punição, mas aguerridos, carregando consigo todo um povo que subiu ao pódio com eles, suas dores e suas lutas, foram mais do que heróis e protagonistas, foram baluartes de parte da história universal do mundo – muito além do lugar particular e racializado em que se insiste colocar os negros. Na matéria, porém, apagados e invisibilizados (atente-se a imagem que precede a matéria!), quem brilhou foi o ‘in-sujeito’ do fato histórico, alçado na reportagem a uma posição heróica, saindo da zona de indiferença que sustentava sua invisibilidade – legítima.

No texto, a narradora descreve com detalhes a cena em que John e Tommy ajustam os detalhes da intervenção, sendo observados pelo “terceiro homem”. Na versão dela, é este terceiro homem quem "ouve intrigado”, de modo que os detalhes que humanizam e dão vida à cena – e a toda a história – deslocam o olhar da ação ativa dos pretos, que elaboram a ação, para a passiva do branco que os assiste. A autora fala desse personagem “ouvir intrigado” deslocando o protagonismo da fala e da ação para o gesto passivo de escuta; usa a palavra “kit-protesto”, nivelando nossos símbolos históricos a mera mercadoria (e mercadoria barata!); e ainda descreve que o in-sujeito “deu sugestão” diante de um impasse que se apresentou. O texto é velho, tal qual o raciocínio que o sustenta, mas estaria esse fenômeno circunscrito ao passado?!...

A última narrativa branca é recente. Divulgada pelo portal (X), mereceu minha atenção e repudio ao texto “O feminismo pelo qual se esqueceram de militar”. O texto gira em torno da narrativa de uma mulher branca, e da ação que desenvolve na periferia de São Paulo, Brasilândia. De classe média alta, formada em um dos cursos mais elitistas e brancos da USP, Psicologia (é possível ver o perfil dos alunos em www.fuvest.br), com pais formados em ensino superior, ela descreve tooooda a importância do movimento feminista negro, sua história, sua origem, sua invisibilidade, seus dramas, suas pautas, seus antagonismos em relação ao feminismo hegemônico branco (para elucidar a questão sintática e política, registro: “seus” e “suas” se referem ao feminismo negro, não à narradora, embora não seja possível perceber se essa distinção está tão evidente pra ela como aqui está feita...). A moça descreve o que “se passa na cabeça” das mulheres periféricas pretas, diz que não almejam ser chefes diante das dificuldades encontradas para isso e acrescenta que essas mulheres “não conseguiriam refletir” sobre assuntos como a redução da maioridade penal não fosse o grupo que ela conduz.

Quando me tornei psicóloga (assim como a última narradora!), a primeira coisa que me foi ensinada foi nunca nomear ou enunciar pelo outro. Porque o sujeito da enunciação é o sujeito do poder: é ele quem tem o controle de sua vida. O uso de seu discurso, a apropriação desse discurso por ele mesmo, a tomada da narrativa de sua própria vida, são as chaves da transformação de sua condição.

É curioso e mesmo impressionante como não há possibilidades ínfimas de que as histórias negras sejam transformadoras e catárticas quando as narrativas são brancas. Nesse sentido, ainda que em circunstancias diferentes (que ocorram em ambientes diferentes e falem de personagens distintos), o que une as três histórias é o mesmo bom e velho olhar do colonizador, para quem os negros são sempre coadjuvantes, personagens secundários de sua própria história, aqueles por quem se deve falar, aqueles que não podem ocupar o primeiro lugar quando um branco está em segundo. Nas três histórias, à revelia do ato ou lugar heróico que ocupa cada um desses negros – sejam os históricos campeões olímpicos, sejam os poucos e festejados negros que viraram doutor a partir de sacrifícios de vida de muitos, sejam as pretas periféricas que lutam diariamente para sobreviver – eles são apenas coadjuvantes cuja vitória, superação e destaque se deveram a ação de um... branco!

É um colonialismo discursivo, portanto simbólico, mas que segue nos tornando reféns. É expressão de poder da branquitude que age como se todos os lugares, concretos e simbólicos, fossem seus. Não são. O que marca essas narrativas é um isabelismo obsceno que as perverte totalmente: então protagonista é quem colabora? Então não se questiona que essa banca não fez mais que sua obrigação ética e moral? Então quem fez o bom trabalho e é sujeito meritório são os professores, não o preto que sempre foi o melhor em tudo o que fez? E foi a solução dada pelo branco que manteve a possibilidade de protesto? Então as pretas não são capazes de pensar entre si e são as brancas da elite quem as faz conhecer o feminismo?

Para muitos, ainda permanece o erro histórico de que foi princesa Isabel quem libertou negras e negros da escravidão Para muitos, ainda permanece o erro histórico de que foi princesa Isabel quem libertou negras e negros da escravidão

A última narrativa foi a mais repulsiva porque o colonialismo e isabelismo estão tão tão tão cristalizados que a produtora do texto não percebe que, ao dizer no título que “se esqueceram de lutar” pelas (pautas de) mulheres periféricas e/ou negras, genericamente, universalizando esse sujeito que se esquece, que não está racializado, acaba justamente por invisibilizar a luta árdua, aguerrida, dolorida e continua das mulheres pobres e pretas. Não é justamente contra isso que, ~ideologicamente~ texto e narradora se posicionam? E as feministas negras estão fazendo o que? Não é justamente pela ação delas que existe um feminismo negro? Será mesmo que são as mulheres pretas quem precisam de alguém que lhes auxilie a enxergar o mundo? Mas aqui quem narra e é a personagem central da narrativa é a branca solidária!

Que fique escuro: o feminismo negro e a luta das mulheres periféricas e pobres não estão esquecidos. Quem não luta por essa pauta historicamente (não só não luta em favor, como muitas vezes luta contra) são (algumas) mulheres brancas. Da mesma forma que a solidariedade desse esportista branco não foi o motor da luta pelos direitos civis americanos, da mesma forma que o gesto do professor não dirime uma história de vida de resiliência e superação.

Se nas narrativas brancas, o branco foi necessário ao feito histórico de Tonny Smith e John Carlos, é ele quem ocupa o maior lugar no pódio, é ele quem traz soluções que os outros não são capazes de elaborar sozinhos, o solidário é quem é protagonista; se nas narrativas brancas, é o branco quem merece as congratulações devido ao preto ter se superado a vida toda, por ter sido reconhecido seu desempenho que o diferenciava em 0,1 (que ele conquistou sozinho) de sua concorrente; se nas narrativas brancas é a menina branca de classe média que estuda na universidade mais elitista do país a responsável por absolver as mulheres pretas periféricas de sua condição de alienação; então temos a prova de que está na hora de tomarmos de assalto aquilo que nos tomaram os herdeiros de Isabel: a nossa possibilidade de narrar nossa própria história, em que seremos nós os personagens principais e ninguém precisará nos dar a boa ideia, a luz da sapiência, o direito ao que é de direito, a humanidade.

A manutenção do genocídio só é possível quando ele opera em nível simbólico. Quando se faz acreditar que nossos feitos não são nossos, que nossas vitórias não são nossas, que não fomos nós que as construímos (e sim os brancos), o que se anuncia é a morte. Essa morte não é do corpo e sim do espírito, mas é preciso questionar: que corpo pode se sustentar sem alma que anime a vida, sem um psiquismo que sustente a existência, daquilo de mais imaterial que garante a materialidade do corpo? Mais do que isso, é preciso entender: a que serve um corpo cujo pensamento, a história e a sapiência servem a branquitude? Sejamos narradores. Que a partir de agora (e como diz minha mãe, “já passou da hora!”), seja lei: história preta, é preto quem vai contar, não Isabel.

Mônica Mendes Gonçalves nasceu em Cambara, interior do Paraná, e é formada em Psicologia pela Unesp Bauru. Ela tem especialização em psicologia da saúde e é mestranda na área da saúde pública pela USP. Mônica compôs a Ocupação Preta da USP.

Texto: Caroline Amanda Lopes Borges / Ilustração: Araújo

De uma jovem negra em diáspora para toda a juventude negra

Quero pedir licença aos meus mais novos e aos meus mais velhos!

Impulsionada por muita indignação, sensação de impotência, ódio e uma fagulha de esperança escrevo como um desabafo. Após a noticia do aprisionamento arbitrário de Rafael Braga, fui tomada por um turbilhão de memórias que necessitam ser organizadas e, sobretudo, compartilhadas. Tais reflexões se dão através dos seguintes questionamentos:

Com quantos jovens negros (VIVOS, MORTOS, MUTILADOS, APREENDIDOS, DESAPARECIDOS) se faz capitalização política?

Qual é o volume da movimentação material e imaterial que se pode acumular ao manipular esse produto chamado: JUVENTUDE NEGRA?

Inicialmente não tínhamos cor e nem pertencimento étnico/cultural. Nenhuma política pública, edital ou investidor visibilizavam e/ou investiam em projetos ou iniciativas que apresentassem a palavra “negro”. Hoje, é praticamente automático ou obrigatório. Como bônus, cereja do bolo, momento ápice, a palavra negro é cravada em textos, artigos, projetos, sobretudo discursos.

A luta dos movimentos negros em denunciar a seletividade racial das estratégias do Estado para a manutenção da vulnerabilidade e da miséria refletiu o apontamento da necessidade do protagonismo daqueles que gemem, o povo negro, aqui especificamente, a juventude negra.

No entanto, devemos refletir: Há protagonismo?

Protestos de Junho de 2013 ganharam as ruas brasileiras Protestos de Junho de 2013 ganharam as ruas brasileiras

Podemos destacar como exemplo as marchas de junho de 2013.  As câmeras das mídias alternativas e da mídia hegemônica captavam imagens de bochechas rosa (algumas pintadas), discursos com termos rebuscados e corpos que não pareciam viver a rotina de longas viagens desconfortáveis repletas de assédio e desesperança nos transportes públicos das principais capitais.

Os megafones e microfones eram em sua maioria conduzidos por jovens brancos. Jovens que falavam em substituir carros por bicicleta, mas que não faziam a mínima ideia da distância do bairro de Paciência ao centro da cidade do Rio de Janeiro. Jovens que se apoiavam na sua branquitude para gozar do privilégio de exercer direitos, em um país que vive em regime de exceção para negros.  E quando “passavam dos limites”, eram alertados pela polícia com balas de borracha e gás lacrimogêneo.

Enquanto isso, o complexo de favelas da Maré vivenciara uma chacina terrível com mais uma dezena de vítimas.  Os bairros do Capão Redondo, Jardim Ângela e Campo Limpo na cidade de São Paulo mal poderiam se recuperar de um ano sangrento e extramente letal como 2012. O sangue negro no nordeste seguia escorrendo sem luz ou sensibilização nacional.  Diversas capitais e cidades do interior perceberam que nos bairros de maioria negra jamais foram vistas munições do Estado que não fossem necessariamente letais, tão pouco, alguma ação militar em meio a tantas pessoas sem nenhuma vítima letal.

As marchas de junho nos deixaram de lição a experiência vivida por Rafael Braga, jovem negro em situação de rua, que um ano e três meses depois da maior manifestação realizada no Rio de Janeiro em 2013, fora julgado e condenado. No dia em que foi preso, ele saiu de onde morava, um casarão abandonado em frente à Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (DCAV), no Centro do Rio, com duas garrafas de plástico, uma com água sanitária e a outra com álcool, situação que não o caracteriza enquanto manifestante do ato, tão pouco como terrorista. Segundo o laudo do Esquadrão Antibomba da Coordenadoria de Recursos Especiais, a utilização do material aponta aptidão mínima de incêndio. No texto, um trecho ainda indica ínfima possibilidade de funcionar como coquetel molotov. Mesmo assim, Rafael Braga Vieira, jovem negro, foi condenado pela existência de etanol em uma das garrafas.

No inicio de 2014 vivenciamos a importante experiência dos Rolezinhos, que se multiplicaram nos shoppings das principais capitais do país.  A juventude negra decidiu exercer o seu direito de ir e vir também, mas, o que aconteceu? Não havia 1.000.000.000 de bochechas rosa ao nosso lado.  E quando nosso irmão foi acorrentado preso pelo pescoço no Aterro do Flamengo por jovens brancos? Não houve movimentação.

Rolezinhos ganharam repercussão no final de 2013 e foram reprimidos Rolezinhos ganharam repercussão no final de 2013 e foram reprimidos

Sem esquecer de mencionar o fatídico período da exibição do programa “Sexo e as Nega”, que agravou profundamente diversas mulheres negras, mulheres que puderam contar pouco ou nada com as organizações feministas, majoritariamente brancas, para denunciar tal despautério.

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Iniciamos 2015 com a apreensão arbitrária de uma jovem negra, doutoranda em farmácia pela maior universidade federal do país. Mas, mais uma vez, meus olhos não puderam registrar milhares de bochechas rosas. Ainda em 2015, testemunhamos investimentos em ações lúdicas, pirotecnia virtual, festivais Cult bacaninhas contra a redução da maior idade penal. De maneira centralizada e em territórios de maioria branca, com discursos que não dialogavam com o nosso povo, muito menos com “os de menor” e seus familiares, que têm seus lares invadidos por avalanches de ódio através do jornalismo sensacionalista da TV aberta. Ações arquitetadas e protagonizadas por personagens que jamais tiveram ou terão sua liberdade cerceada.

Na crista da onda que comumente arrebenta em nossas costas, alguns brancos e brancas tornaram se baluartes da “luta”. Estamparam capa de revista, ocuparam cargos públicos, tornaram se assessores parlamentares, diretores de ONGs, e, em alguns casos, os que foram detidos saíram condecorados como “presos políticos” e já poderiam levar tal título para seu Lattes.

Organizações Não Governamentais, academia, partidos políticos e até empresários têm se esforçado para falar no mínimo superficialmente de juventude negra. A cada dia que passa, fala se melhor de nós e capta se mais em nosso nome. Nos contabilizam vivos ou mortos e se projetam em nossas mazelas.

Na perspectiva de muitos, somos os verdadeiros trampolins. Somos úteis para os conservadores e os progressistas. Ambos falam de nós, descrevem como agimos, o que queremos ou o que merecemos. Determinam quais medidas devem ser imputadas sobre (contra) nós.

Junho de 2013 e seu legado nos permitiu constatar que 0,20 centavos valem mais do que os nossos desejos e direitos mais básicos. Contatamos que a sociedade brasileira segue reduzindo mulheres negras jovens ao sexo. Experimentamos o consentimento inflamado do ódio dessa sociedade contra nós, clamando pelo nosso encarceramento e naturalizando nossa morte.

2016 chegou aspirando 2013. Chegou com ato marcado contra o aumento das passagens, selfs revolucionários e o mesmo personagem de outrora novamente apreendido, Rafael Braga Vieira. Novamente será estampado em camisetas e bandeiras. Alguns perguntam por que tanta perseguição a esse rapaz? E me parece que a pergunta mais coerente seria desde quando Rafael Braga é perseguido? Supondo a resposta, ouso dizer que Rafael é perseguido desde o ventre da primeira mulher que teve seu filho sequestrado em África, desde o ventre da mulher que o concebeu na diáspora.  Ouso dizer que é perseguido desde a primeira “dura” da polícia, desde a primeira vez que passou a viver nas ruas do Rio de Janeiro, desde a primeira noite na penitenciaria e a primeira experiência na solitária.

Rafael Braga acorrentado pelos pés em delegacia

Nós, juventude negra somos todos Rafael Braga!!! Somos nós, as jovens negras, que morremos aos montes em trabalhos de parto e como vítimas da criminalização do aborto nos fundos dos hospitais públicos. Somos nós os que não têm acesso à educação básica. Somos nós os que mais evadem nas instituições de educação.  Somos nós os “de menor” e os “de maior”. Somos nós os que são explorados pelo trabalho infantil, os que têm seus corpos traficados, os que são aliciados. Somos nós as maiores vítimas de empalamento. Somos nós as que mais sofrem de violência doméstica. Somos nós o maior número de internados da nossa geração nos hospitais psiquiátricos. Somos o exercito de reserva e o exercito das facções, bem como os soldados da polícia. Somos nós o maior montante de corpos no IML. Somos nós! Nós somos Rafael Braga!!! Somos nós a verdadeira classe trabalhadora desse país, nós que sacrificamos nossa juventude embebida de insalubridade no campo e na cidade. Nós que alimentamos diversos setores da economia com a nossa força de trabalho. E por que damos tanto espaço, licença, autoridade para eles? Porque legitimamos suas ações em nosso nome??? O que há conosco? Nós somos a perpetuação do nosso povo. É nossa responsabilidade assumir a tarefa de reerguer a diáspora africana, começando pelos quilombos que moramos, herança dos nossos mais velhos.

Seguimos sentindo a solidão política que nos foi relegada desde os tumbeiros que atravessaram a grande Kalunga. Relembramos a solidão ancestral das matas escuras à procura de terra segura para construir Quilombo!!!

Os velhos métodos não têm sido capazes de nos libertar. As velhas práticas culminaram em aprofundamento do nosso povo em sangue, dor e engodo. Nossa geração deve ser capaz de aprender a fazer sem editais ou salários oriundos de liberação partidária. Nossos ancestrais merecem de nós maior dedicação. Nossa dignidade pode se dar através do fortalecimento de organizações autônomas, construção de estratégias e táticas para autodefesa e autogestão.

Inspiração nãos nos falta, assim como Garvey, Cheick Anta Diop, Assata Shakur, Winnie Mandela, Fannon, Dandara, Zumbi, Zeferina, Yedo Ferreira, Beatriz do Nascimento, Candeia, Racionais Mc’s...

Necessitamos retomar nossa Agência. Eles o fizeram ainda na juventude e compreenderam a importância de centrar esforços naquilo que nos edifica enquanto povo. Souberam perceber que cada geração é responsável pela abolição de seu tempo.

As respostas se apresentarão a medida da nossa unidade. Há apenas uma certeza: devemos ser no mínimo, do tamanho do nosso problema.  Seremos maiores juntos, impulsionando e gerindo nossa história!!!

 

Mas se você quer lutar por poder e você é oprimido ou oprimido por um poder colonial que te nega à ideia de humanidade plena, você tem que antes lutar CONTRA O PODER, não aceitar qualquer migalha, distinção ou banquete, cargos subalternos como se fosse poder, isso não é poder é uma MIRAGEM DE PODER.

 

                                                                                 Hamilton Borges Walê


Caroline Amanda Lopes Borges é articuladora nacional da campanha “Reaja ou Será Morta!”. Colaboradora da “Associação de Mulheres de Ação e Reação”,membro do Coletivo Negro Carolina de Jesus (UFRJ).integrante do grupo de pesquisa PET/Conexões de Saberes, Identidades e Diversidade, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Caroline Amanda Lopes Borges é também articuladora nacional do Encontro de Estudantes e Coletivos Universitários Negros, EECUN.

Texto: Zenon Zago / Imagem: Vinicius Martins

Ao que parece, as diversas formas de opressão são fundamentadas por mitos que dão aos oprimidos uma noção errônea de que a sociedade está saudável e que o único motivo que causa algum desconforto é o fato de se questionar o status quo pré estabelecido, não a situação social em si. Meritocracia e democracia racial são dois repertórios muito utilizados ao se justificar que as opressões alegadas inexistem. Essas são, porém, ideias fantasiosas sem nenhum embasamento real.

A ciência, como parte integrante da cultura atual da nossa sociedade, também possui alguns mitos (por mais contraditório que isso possa parecer), que servem de forma a manter o status quo social aristocrático. Essa posição conservadora é sustentada por aquilo que consideramos como as ciências duras (hard). Um desses mitos é o da credibilidade intangível do cientista, concebida na mente da sociedade contemporânea junto ao mito da ciência salvacionista: o cientista, então, se apresenta como uma figura de imposição de autoridade intelectual e superior a natureza humana, sem falhas e sem a possibilidade de ser influenciado.

Desta forma, quando um cientista emite sua opinião de forma pública relatando que “comprovou cientificamente” que negros são inferiores a brancos por serem menos evoluídos, é natural que isso se torne o senso comum em toda a sociedade - ainda mais se tratando de um mundo racista e xenofóbica, que precisa apenas de um álibi científico. Essa foi uma contestação muito similar a de que os negros não o têm alma, para de certa forma relativizar atos abomináveis em nome da manutenção dos privilégios sociais das elites (inclusive dos cientistas, que em sua maior parte constituíam a aristocracia e trabalhavam para ela).

A ciência é uma ferramenta lógica que tem como função testar a credibilidade de hipóteses através da observação, para assim explicar fenômenos naturais. Devido ao caráter interpretativo dos resultados de uma análise científica, interpretações mal feitas (para deixar por isso) e não aprofundadas, tem resultados desastrosos quando emitidos à opinião pública – visões simplórias e em certa parte tendenciosas que não levam em conta que um resultado não pode justificar um ato. Essa explicação pode ser considerada um caso de falácia naturalista, ou seja, justificar um ato (muitas vezes abominável como estupro ou xenofobia) só porque este comportamento é natural¹.

Estranhamente, algumas dessas interpretações tendenciosas de como o ser humano e os animais se comportam na natureza, não levam em conta espécies animais que possuem comportamento homossexual (aí, se recorre à falácia conservadora em que se apela aos padrões sociais humanos de forma a reprimir um ato natural). Desta forma, quando observamos os fenômenos naturais, andamos sobre ovos em relação a ser tendenciosos, devido a nossa formação política, religiosa ou qualquer outro posicionamento que possuímos em relação ao mundo em que habitamos.

Hipóteses racistas, machistas e homofóbicas têm sido debatidas pelos diversos campos de estudo e se apresentam cada vez mais como reflexo de nossos preconceitos, estereótipos e mitos. Logo, percebemos mais e mais que algumas “verdades absolutas” são descontruídas sob uma visão crítica da ciência corroborada por estudos de história e filosofia. Ainda vemos um predomínio desta falta de lógica preconceituosa e opressora no meio científico, aliado ao fato de muitos cientistas tentarem encaixar seus preconceitos com uma roupagem de “verdade absoluta” proveniente dos meios acadêmicos (e ao usar a “verdade absoluta” de seu livro sagrado, o cientista não fica devendo em nada ao fanático religioso que se opõe ao bom senso e se apega as suas convicções).

Mesmo tendo essa constante necessidade epistemológica de busca do argumento lógico, há aqueles que defendam que o racismo é um fato causado por uma falta de afinidade cognitiva e evolutiva de uma etnia para com a outra, causando aversão e até sensação de repúdio. Deslegitimam as cotas criticando as como racistas, já que hipoteticamente, um indivíduo de uma população da costa sul da África tem muito mais proximidade genética de um indivíduo de uma população da Finlândia do que um chimpanzé teria de um indivíduo da mesma população – ignorando completamente qualquer fator social ou histórico de que, independente do genótipo, os policiais identificam os fenótipos negros para matar. A ciência dá ao racista seu álibi e ainda reforça a máxima de que somos iguais, falácia de cunho naturalista.

Somente pense por algum momento o quão lógico aparenta um argumento que trata os seres humanos como se ainda vivessem de caça e coleta. Imaginem tudo isso proferido por um “cientista” que anda em um carro, come carne de bandeja no mercado e usa um computador. É natural?¹ Bom, eu descrevo como falta de bom senso, empatia e analfabetismo político e científico.

¹ a definição de natural é relativa:
1.que pertence ou se refere à natureza. "riquezas n."

2.regido pelas leis da natureza; provocado pela natureza. "fenômenos n."

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