Texto: Gabriel Carneiro / Edição de Imagem: Pedro Borges

Medo, calafrio, suor e angústia, sentimentos que muitos só sentem quando assistem a algum filme em seu imenso sofá em algum bairro nobre. Mas para nós, negros, isso tá muito longe de ser ficção. É a mais cruel das realidades. É a realidade das periferias que são esquecidas e mortas diariamente.

Quantas mães que conhecemos já não choraram pela perda de seus filhos? Jovens que saíram de manhã para estudar, trabalhar, fazer seus corres e não voltaram. Quantos filhos que conhecemos já não choraram pela ausência ou perda de suas mães? Que assim como Cláudia, saíram para seguir sua vida e por conta do ódio desse Estado fascista, racista e genocida, foi arrastada pelo chão por um carro da polícia.

PolíciaSP2 Polícia militar e a sua estrutura causam desconfiança para a população negra

Pois é, a periferia nunca acorda e dorme em paz. O dia a dia é constantemente opressor. A morte é moradora ativa nas comunidades, que acompanhada de escolta policial, camburão e o aval do Estado, sai passando por cima de quem for, e se for negro então – que é o quadro racial das periferias -, é alvo prioritário.

Geraldo Antonio Neto foi um dos alvos na sexta feira, 18 de Março, que assim como milhares, estavam a caminho da diversão da galera de periferia e não voltou. Não voltou porque era negro. Não voltou porque era negro e periférico. Não voltou porque o sistema não quer que voltemos. A bala do Estado tem direção. Somos nós.

E esse massacre diário nos sufoca. A insegurança de não saber se voltaremos para a nossa casa no fim dia é destruidora.

Tiram nossas vidas, nossos espaços, nossas famílias, nossa felicidade, nossa vontade de viver. Tiram tudo que podem, mas a gente resiste. A periferia resiste e está se unindo cada vez mais para acabar com essa situação que nos é imposta todos os dias.

Cláudia: http://blogueirasfeministas.com/2014/03/claudia-silva-ferreira-38-anos-auxiliar-de-limpeza-morta-arrastada-por-carro-da-pm/

Geraldo: http://www.geledes.org.br/ele-pediu-pelo-amor-de-deus-nao-me-mate-diz-vizinha-de-jovem-morto-no-eng-velho-de-brotas/

Texto: Maurício Matos / Edição de Imagem: Pedro Borges
Você deve estar se perguntando como é possível com o fim da Lei de Cotas ingressar mais negros nas universidades. É sob essa afirmação que pretendo suscitar um entendimento mais amplo e crítico acerca da Lei de Cotas

Pretendo problematizar questões como: A Lei de Cotas é anti-negro? Estamos diante de uma reserva de vagas para brancos? A elite das escolas federais está colonizando as vagas das cotas? Disputam entre si negros e indígenas?

A sanção da Lei de Cotas em 2012 foi marcada por algumas manifestações contrárias como a do Reitor da UFF que afirmou à época que “era um retrocesso” com relação à política de inclusão adotada até então, além do co-autor das cotas raciais na UnB, Prof. José Jorge de Carvalho, que reconheceu “graves retrocessos e distorções” comparado com o modelo adotado por aquela universidade. Portanto, tais oposições são evidências de que um modelo (de fato) avançado pode e deve ser aplicado nas universidades. Primeiro, precisa-se fazer um análise dos impactos, e sem fazê-lo, ficaremos reféns de especulações e rendidos por um suposto avanço, o que precede de um entendimento menos dogmático e mais consciente acerca do teor e dos efeitos da Lei.

É importante afirmar que a presente reflexão não se dirige aos racistas e meritocratas de plantão que não engoliram (ainda) o povo negro na universidade, pois esse ensaio não é anti-cotas, mas pretende identificar os limites e por conseguinte problematizar uma alternativa mais avançada do ponto de vista do acesso. Em outros termos: é tudo nosso e nada deles!

Origem da Lei de Cotas

O projeto de lei originário é de 1999 na Câmara de Deputados que estabelece a reserva de vagas nas universidades, sendo de autoria de parlamentar do Partido Democratas (antigo PFL), mesmo partido que em 2009 questiona no STF as cotas raciais adotadas pela UnB - primeira universidade federal a adotar cotas em 2004.

O STF julga constitucional por unanimidade as cotas raciais adotadas pela UnB em julho de 2012, em agosto do mesmo ano o Senado aprova o projeto de lei de cotas – Lei n° 12.711/2012 - que é sancionada em agosto de 2012 pela presidência.

É importante destacar que as cotas adotadas pela UnB e por diversas outras universidades privilegiavam a adoção de critérios raciais para acesso. Já a Lei de Cotas toma um caráter distinto e privilegia os critérios sociais.
Cotasjá5

As cotas são uma pauta histórica do movimento negro

Como funciona a Lei de Cotas?
Fica estabelecido a reserva de no mínimo 50% das vagas por curso para estudantes egressos de escolas públicas nas universidades e institutos federais, e subcotas condicionadas por renda e cor/raça.

Para fins de exemplificação, podemos considerar a aplicação da lei como uma pizza, que é divida exatamente ao meio, estando de um lado a ampla concorrência (50%) e do outro lado a reserva de vagas por cotas para estudantes de escolas públicas com os demais 50%, mas  subdividido em 4 (quatro) subcotas, tendo a seguinte composição cada uma:

    • Estudantes de escola pública; autodeclarados pretos, pardos e indígenas e baixa renda 
    • Estudantes de escola pública e baixa renda 
    • Estudantes de escola pública; autodeclarados pretos, pardos e indígenas, independente de renda 


Os considerados de baixa renda são aqueles que possuem renda familiar bruta per capita igual ou inferior a 1,5 salário-mínimo.  As universidades sob orientação mínima de Portaria Normativa do MEC solicitam documentos comprobatórios aos candidatos para comprovar a situação declarada.

Os considerados pretos, pardos e indígenas são aqueles que assim se autodeclaram, normalmente por meio de um formulário onde o candidato assina se autodeclarando pertencente. Não existe verificação fenotípica, muito menos contestação por meio das Comissões de Matrícula das universidades, mesmo sob evidentes manifestações de uso conveniente ou “afroconveniência”. Não cabe aqui uma discussão densa sobre, o que será feito em outra oportunidade. Algumas denúncias de fraude já se alastraram como na UFES, na UFRGS e mais recentemente na UFRB, e em estaduais como na UESB e na UERJ.

Por um entendimento mais amplo e crítico

Antes da aplicação da lei, 40 das 58 universidades federais tinham estabelecido algum programa e/ou critério de ingresso de estudantes que considerava a procedência escolar, e/ou renda, e/ou cor/raça. Podendo ser reserva de sobrevagas, cotas, bônus e processos seletivos especiais.

Como se observa nas universidades que primeiro adotaram ação afirmativa, essas estabeleceram cotas raciais – UERJ, Uneb, e depois UnB – mas o projeto de lei sancionado enveredou-se por uma política declaradamente social, focada na origem escolar e na renda. Afirmou-se a existência em certa medida de uma democracia racial e que os problemas de desigualdades se orientam sobre maneira por ser pobre.

A lei de cotas se apresentou em um primeiro momento - quando de sua adoção obrigatória por universidades historicamente elitistas como a UFRJ, a UFMG – como a redenção do povo pobre e negro, que passaria da exclusão total ao ingresso no universo acadêmico. Mas não é bem assim.

Elenquemos alguns pontos polêmicos e problemáticos ao meu ver: 1) São reservadas vagas para estudantes de escolas públicas federais e militares; 2) A reserva para negros é de 25% e negros pobres de apenas 12,5%; 3) O sistema de cotas não adota um modelo de seleção universal, 4) Há uma reserva desigual de vagas, 5) Negros e indígenas disputam entre si nas cotas.

Explicando:

    • São escolas públicas os estabelecimentos federais (inclusive os militares), segundo a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996. Igualmente que essas escolas são de excelênc O desempenho dos alunos do terceiro ano do ensino médio das escolas federais no ENEM-2014 foi superior ao de outras redes de ensino, inclusive das escolas particulares, mesmo representando apenas 2% dos estudantes concluintes do ensino médio inscritos no exame nacional. Para fins de comparação: A UFMG registrou um índice de matriculados egressos de escolas federais de: 6% em 2012 (anterior a Lei de Cotas); 9% em 2013 (primeiro ano de Lei de Cotas), e de 18% em 2015 e uma diminuição drástica dos egressos de escolas estaduais, que em 2011 eram 2.010 matriculados e em 2015 foram 1.026, uma queda de aproximadamente 50% em 4 anos, segundo relatório da PROGRAD/UFMG. Cabe aqui um destaque, pois os anos de adoção das Cotas na UFMG coincidem com a adesão ao SISU, esse último aumentou exponencialmente a concorrência por vaga.



A Lei de Cotas exige para fins de comprovação apenas 3 (três) anos de estudo no ensino público. Até o bônus adotado pela UFMG entre 2009 e 2012 é mais avançado, pois exigia 7 (sete) anos de estudo no ensino público. O que pode explicar em alguma medida esse aumento de egressos de escolas federais na UFMG de 100% entre 2013 e 2015 (tendência crescente).

    • A reserva para negros é de apenas 25%, sendo dentre as 4 (quatro) subcotas, 2 (duas) que reservam para:



- Autodeclarados pretos, pardos e indígenas, baixa renda e de escola pública, ou seja, para os pobres e negros de escola pública; e

- Autodeclarados pretos, pardos e indígenas, independente de renda e de escola pública, ou seja, para os negros, de classe média ou alta das escolas públicas;

UspBranca2 Maioria dos estudantes das universidades brasileiras são brancos

As demais subcotas não consideram cor/raça como critério. Em outros termos, há uma reserva não declarada de 75% de vagas para brancos nas universidades públicas federais. Desse modo, podemos considerar que há uma “reserva de cotas para brancos ricos (aqueles que estudam nos colégios públicos de elite, como os de aplicação, os colégios militares, os Cefets [em MG e RJ], o Pedro II [no RJ] etc.); e exclui milhares de jovens negros de renda baixa que estudam em escolas privadas populares, muito mais frágeis do que os poderosos colégios privados onde estudam os jovens brancos de renda alta”, conforme afirma o Prof. José Jorge de Carvalho da UnB.

    • Se o negro cotista tirar uma nota maior que outro candidato da ampla concorrência, este ocupará a fração das cotas para negros o que é improcedente, pois deveria, segundo a própria lógica do mérito, ocupar a fração da ampla concorrência e tal vaga passar ao cotista seguinte na classificação. A lei de cotas no serviço público federal adota esse modelo de seleção universal onde o cotista concorre tanto na cota quanto na ampla concorrência.
    • No Brasil o ensino médio ofertado por escolas públicas contempla praticamente 90% das vagas (as escolas federais e municipais são minoria comparado com as estaduais), outros 10% são de vagas nas escolas privadas.

A Lei de Cotas formalmente evidencia que 90% dos egressos do ensino público terão direito a concorrer pelo menos 50% das vagas nas universidades, sendo que 10% (das escolas privadas) terão direito a concorrer na ampla concorrência aos outros 50% das vagas. O que pode explicar em alguma medida ser nas cotas registradas as maiores notas no SISU. É justo e avançado esse modelo, onde a disputa desigual dentre as escolas públicas privilegia os já privilegiados estudantes das escolas federais?

    • Historicamente negros e indígenas foram povos negados de direitos e condições dignas de vida. Com as cotas se evidencia que esses grupos terão que disputar entre si as vagas. Por isso é imprudente e sem efeito dizer que “agora estamos tomando as vagas dos brancos”. Está em vigor um modelo que gera uma disputa entre negros e indígenas e tendo a crer que os negros estão em vantagem pelos processos de acesso à educação no meio urbano, por mais que existam infinitas limitações. O MEC tem sugerido adoção de programas de seleção próprios para os indígenas.


Essas são algumas das principais questões que suscito pensando que militantes, ou não, cotistas, negros e negras, pobres, indígenas devam se debruçar. Pois a suposta conquista por um sistema oficial de acesso à universidade, pode se apresentar mais como um ligeiro retrocesso, um mecanismo de manutenção de privilégios legitimado e defendido pelos oprimidos.

Em síntese, a Lei de Cotas não é sinônimo de cotas raciais; ela garante o ingresso da elite das escolas federais e militares nas universidades públicas; o ingresso de negros por cotas é de apenas 25% e negros pobres de apenas 12,5%, bem longe dos 51% de negros na população; proporcionalmente os estudantes de escola privada tem mais vagas que os estudantes de escola pública; negros e indígenas disputam entre si por vagas.

Indígenas enfrentam inúmeras barreiras para ingressarem nas universidades

Para não concluir
Refletir aqui sobre as potencias limitações de uma lei, e não quero com isso dizer que se aplica a toda universidade do território brasileiro, ora pode se verificar maior avanço aqui, ora maior retrocesso ali, mas evidenciar que existe uma limitação acerca do desenho geral, da estrutura da Lei, que a todo instante está nos dizendo que o problema das desigualdades no Brasil é de ordem social e não racial.

Prontificados aos limites desta lei é que se pode construir alternativas e exigir um posicionamento institucional mais eficaz acerca de um processo que não pode ser legitimado que é a diminuição de negros na Universidade, que toda e qualquer política de ação afirmativa avance nesse quesito.

ProuniFies Prouni e FIES são o repasse de recurso público à iniciativa privada


O ensino superior é composto majoritariamente por instituições privadas (70%), sendo que estamos falando de 50% de vagas reservadas em um sistema (federal) que compõe apenas 15% dessas vagas, pois os outros 15% são em universidades públicas estaduais. Esse é um modelo defensável? Expansão do ensino privado em detrimento da expansão do ensino público?

É importante se pensar que estamos fazendo uma disputa pelas vagas existentes e não por mais vagas (não falo aqui de um modelo de expansão precarizada como o REUNI), mas de um aumento qualificado de vagas. O que se tem visto é o crescimento exponencial das faculdades privadas, com o apoio do PROUNI/FIES (verdadeiras políticas de transferências indiretas de recursos públicos ao setor privado), em detrimento da expansão da universidade pública.

É ainda mais importante se debater a existência e manutenção do vestibular, agora dominado por uma seleção – SISU – orientada pelo: “quem pontua mais, leva a vaga”, por mais que a escolha seja por um curso desviante do pretendido na maioria das vezes,  possibilitando uma evasão nunca antes registrada em cursos superiores, e maiores condições de aprovação aos que tiveram melhores condições de escolaridade por motivações distintas, aplicável até aos negros e pobres. Sem falar que a democratização do acesso é uma verdadeira balela, pois está democratizado o acesso ao público com recurso suficientes para migrar de cidade, estado e região, e não ao pobres e negros, pois a esses nem a assistência estudantil tem operado com condições dignas de permanência e conclusão dos cursos superiores. Exemplos são inúmeros.

Foi incitado aqui um cenário dramático que merece um olhar atento de militantes,  acadêmicos e curiosos, sem com isso ser defesas ortodoxas ou apaixonadas, mas conscientes e centradas em condições reais que indicam não ser esse o melhor e mais adequado modelo de inserção de negros, indígenas e pobres nas universidades, mas passível de mudanças dentro dos limites e das contradições da própria institucionalidade.

Maurício Sousa Matos é baiano, graduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e membro do Coletivo de Estudantes Negros – CEN. Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Texto: Stephanie Ribeiro / Ilustração: Vinicius de Araújo

Relações afrocentradas são aquelas que envolvem escolha de e entre parceiros negros, podendo ser de diferentes gêneros e orientações sexuais. A atualidade da discussão sobre o tema  traz a existência de um preterimento sobre os símbolos sociais que alguns corpos negros representam. Hoje se fala de solidão afetiva também entre mulheres negras trans, mulheres negras lésbicas e também homens negros gays. O amor que designa relações românticas e afetivas têm cor sim. Um dos trabalhos mais significativos sobre isso é o de  Claudete Alvez no seu livro “Virou Regra”, no qual ela  apresenta uma reflexão sobre a solidão da mulher negra e a sua subjetividade face ao preterimento pelo homem negro.

É preciso deixar evidente que tal solidão se aplica a relações heteroafetivas e homoafetivas, e que muitas das relações homoafetivas acabam as vezes repetindo padrões impostos onde o machismo está sendo reproduzido mesmo que seja uma relação entre duas mulheres, assim como o racismo. Deste modo, a solidão também se faz presente.

A questão é que não existe uma resposta única e simples a esse preterimento.

Eu acredito que, invariavelmente, a resposta está muito mais relacionada ao fato da mulher negra  não ser vista como sujeito, do que simplesmente ela se unir a alguém. Ou seja, não poder exercer o seu direito de fazer escolhas e gozar de uma vida digna e saudável, em plena sociedade contemporânea.

A realidade que vivemos hoje nos faz ter de lidar com alguns fatos. Pois, enquanto de um lado, mulheres negras mães, gordas e de pele escura não são vistas como ideais para relacionamentos, e sofrem o celibato definitivo; por outro lado, mulheres negras de pele mais clara, magras e jovens até são “escolhidas” para serem parceiras. Porém, precisamos ir além do estar ou não com alguém. O que não debatemos, além dessas questões, por exemplo, é que as relações dessas moças não é plena e saudável na maioria das vezes, gerando a situação chamada de Solidão a dois - que também não contribui para realização dessa mulher negra como sujeito.

O ponto central é que, dentro de tantas solidões e discussões, hoje estamos vivendo um contexto de romantização dos relacionamentos afrocentrados. Contexto no qual não se debate que, por trás dessa lógica citada acima, está sendo mantida uma visão colonizadora que dividia as negras entre aquelas que serviam apenas para o trabalho braçal e pesado, e as que poderiam até circular pela Casa Grande, desempenhando trabalhos domésticos e sendo diariamente vítimas de abuso.

O que a escravidão fez com as relações afetivas é muito mais complexo do que acreditamos. O imaginário de muitos de nós reproduz a visão colonizadora e racista. Exemplo: para muitos homens negros ter uma mulher companheira branca é uma forma de mostrar o poder para o homem branco. Nessa história, mulheres e negros se tornam mais objetos das opressões que recaem sobre seus corpos, do que donos de suas escolhas.

Conto de Fadas corpo editadaRelacionamentos pretos LGBTs também passam por essa questão (Foto: Divulgação)

Homens negros se relacionando com mulheres negras não significa que se esforçaram para desconstruir padrões sociais que foram impostos na sua construção de masculinidade numa sociedade machista e racista. Tirar o racismo do debate é agir como se ele não fosse introjetado e estrutural.

Sendo assim, simplesmente achar que negros devem se unir com negros e que isso é a perfeição, é não entender as subjetividades que envolvem um relacionamento e os indivíduos envolvidos nele. Esse acaba sendo um pensamento limitado, contudo muito difundido sem seus reais questionamentos, e no fundo resulta em relações trágicas. O problema é que o relacionamento afrocentrado  é colocado como um conto de fadas da “Disney preta”, que garante finais felizes para pessoas que viveram até então relações em sua maioria desastrosas e de preterimento.

Essa ótica é fora da realidade e embasa a manutenção de relações abusivas entre negros. Relações afrocentradas são complexas, pois estamos falando de indivíduos que tem vivências, buscas, respostas diferentes ao que é cobrado socialmente. Por fim, estamos falando de pessoas diversas e não bonecos que se unem.

Sendo assim, relacionamento nunca é fácil, muito menos entre negros que têm sua subjetividade e pensamento individual negados numa sociedade estruturada de forma racista e excludente e que passam por processos ou não, de construção de uma identidade negra.

CasalNegro1 Relacionamento entre pessoas negras é muitas vezes impedido pelo racismo

Foi tirado o direito de amar entre nós negros. Foi tirado o direito de nos amar entre negros. Isso acontece a partir do momento que era mais importante sobreviver na sociedade escravista do que ser.

E está sendo tirada a necessidade de se questionar relações negras, quando negamos que, assim como outras relações, elas não são simples.

Relacionamento não é uma foto bonita no Instagram ou Facebook. É dia-a-dia, discussão, divergência, carinho, conversa, amor. Inclusive, para que exista relacionamentos fora do conto de fadas, temos que parar de acreditar que questões de classe, meio social, acadêmicas e econômicas não interferem na construção de uma relação.

No fundo, apenas na Disney existem inúmeros relacionamentos entre pessoas de realidades extremamente distantes. No mundo real, isso é exceção. Por isso não podemos lidar como se fosse regra. Portanto não existe sentido na frase: mulheres negras “escolhem” demais.

Primeiro que escolher parte do pressuposto que você goza socialmente da posição de sujeito e na nossa sociedade essa pode ser a construção de uma vida toda para uma mulher negra, com a possibilidade dela nunca chegar. E segundo que, quando mulheres negras estudam, se auto sustentam, têm interesses diversos, etc.

Ao contrário do que acontece com uma mulher branca, ela é vista com menor apreço por homens. Pois ainda temos internalizada a ideia da dependência associada ao amor e que uma mulher negra como sendo a “base social” estar acima de você, é ofensivo. O fato é que isso se opõe à construção social imposta às negras. O ser forte não dialoga com o que querem numa mulher, mas o que querem numa mulher não dialoga com o que a sociedade impõe que sejamos. Por fim, acabamos não tendo o direito de ser o que quisermos e de ver pessoas lidando naturalmente e nos amando por isso.

Michelle e Barack Obama Michelle e Barack Obama

Pois isso acredito que a mulher negra deve gozar sim da liberdade de escolher a relação que lhe faz bem, plena e que se mostra saudável, num contexto racista, machista, elitista, onde ela representa o fim de uma pirâmide social. Isto posto não dá pra desconsiderar que a escolha acaba que sendo um privilégio ainda raro entre nós. Se  uma mulher negra puder escolher, deixe que ela escolha o que é melhor para ela. Na maioria das vezes, acabamos inclusive por questões de autoestima e medo da solidão, aceitando narrativas opostas as nossas, agressivas, machistas e muitas vezes até racistas. No fim, voltamos para a ideia de que até mesmo as que se relacionam, continuam solitária.

Homens negros, ao invés de ficarem criticando negras que tocam nessas questões, ou que namoram pessoas brancas, deveriam estar debatendo como a construção da masculinidade embutida neles é devastadora não só para si, mas para quem está ao redor, para o coletivo que tanto prezam. Vivemos num mundo onde:

- Homens acham que devem demostrar poder sobre a companheira, usando a força física e assédio moral para isso;

- Homens desmerecem as conquistas da parceira e não apoiam suas decisões nunca;

- Homens não têm abertura para as questões da companheira;

- Homens limitam o pensamento, forma de agir e até de vestir da parceira;

- Homens fazem de suas companheiras a fonte de exploração material e mão de obra;

- Homens abandonam seus filhos, ou não entendem a necessidade da participação efetiva e real na criação desses, e isso não se dá pelo pagamento da pensão em dia;

- Homens não escutam;

- Homens não falam o que sentem;

- Homens não fazem carinho;

- Homens não sabem nem dar prazer;

- Homens não são parceiros e nem companheiros.

Infelizmente essa é a narrativa comum, e não a exceção, para homens independente da sua identidade racial. Homens negros não só reproduzem tudo isso, por terem sido educados para acreditarem que ser homem é isso, como descontam e reproduzem no outro corpo negro da relação, o que o racismo faz com eles. É triste e lamentável ver mulheres negras em relações afrocentradas onde as parceiras simplesmente não falam, quando participam de um evento coletivo.

A questão é que: dentro de relações onde os envolvidos são negros, tais atitudes devem ser superadas antes de colocarmos o amor afrocentrado como um ideal a ser alcançado.

JungleFever3 Jungle Fever: filme de Spike Lee discute o estereótipo do homem negro e relacionamentos interraciais

Relações afrocentradas significam para mim ter um parceiro capaz de entender, porque também sente na pele, a forma como o racismo me afeta e ser um ponto de apoio não só para lidar com isso, como para ajudar a buscar respostas para isso. O racismo não afeta só os campos que geralmente citamos, ele não fica só evidente quando falamos de genocidio da população negra. Ele interfere na nossa construção social e de caráter.

A forma como nos colocamos para o mundo enquanto negros está mais ligada ao racismo do que acreditamos. Ao contrário do que se pensa, não é fácil olhar para o parceiro e admitir que a polícia te intercepta sempre que te vê na rua. Mas relações também são para coisas banais que não envolvem racismo. Relações são múltiplas e devem ser vividas sempre que fazem bem para os envolvidos. Relações afrocentradas não  são uma fábrica de crianças negras, como alguns colocam.

Ou seja, precisamos urgentemente falar de machismo e desconstruir uma romantização por trás de algumas ideias postas. Homens negros que não conseguem compreender que, se é complexo para eles viverem numa sociedade racista, imagina para nós negras que temos em nosso diante duas ou mais opressões, não servem na minha opinião para terem uma relação “afrocentrada”.

Não estou resumindo homens negros a opressores frios, mas a pessoas que querem realmente viver uma relação nesses moldes precisam se esforçar e se abrir para novas narrativas. Esse é um texto de uma mulher negra para homens negros, pedindo que eles parem de reproduzir o ideal de homem que acreditam ser melhor e se abram para construção de relacionamentos saudáveis. E isso requer esforço da parte deles de debater masculinidade e para vencer inclusive o ideal racista.

Não romantizo o que é ser mulher negra no Brasil. É triste, é duro, somos obrigadas a sermos fortes, mas mesmo assim temos uma sucessão de mulheres incrivelmente fantásticas, que construíram narrativas que hoje embasam todas nós. Por isso também não aceito como somos punidas entre quatro paredes pelos que nos chamam de companheiras na hora da luta negra. Nós somos a base, a força e as protagonistas de muitas lutas, e isso deve ser reconhecido.

E é por isso que estou agora dizendo: ou aceitam isso, ou viveremos a solidão como escolha. Algumas já sabem que ser plena não é ter um companheiro, e que pode ser muito bom sim ter alguém, se isso for saudável e construtivo.

ChrisBrownRihanna Rihanna se separou do músico Chris Brown depois de ser agredida pelo ex-companheiro

Paremos de dizer coisas absurdas como: “Rihanna e Chris Brown deveriam voltar, pois são lindos juntos”. Afinal um dos “lindos” dessa história é um agressor machista. As inúmeras Rihannas merecem relações de amor que não as  destruam, merecem ser sozinhas se quiserem e não por imposição, merecem fazer escolhas e serem vistas como sujeitas plenas, merecem ser vistas como pessoas e não como barrigas reprodutoras de crianças negras. Merecem ser vistas, apenas. Desejar isso para mulheres negras é o que devemos fazer.

Relações afrocetradas são, antes de tudo, relações afetivas e também interferem na nossa construção social e de caráter. Muitas mulheres negras precisam ter laços afetivos seguros, fortes e que lhes façam bem. Essa é uma resposta ao preterimento, e isso está com ela, com quem realmente a ama, e com quem ela quer ter próximo. Isso pode ser um namoro, uma amizade e até mesmo uma relação familiar. Ou tudo isso. É uma revolução muito grande uma mulher negra sendo amada. Precisamos entender mais o grande significado disso, antes de solucionar de forma tão simples questões tão complexas.

Peço desculpas pelo tom heteronormativo que o texto assume em determinado momento. Considero que mesmo em relações homoafetivas o padrão se reproduz, porém parto da minha perspectiva pessoal.

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