Texto: Fabiana Pinto / Ilustração: Zenon Zago

Com campanhas como “Senti na Pele” e debates a respeito do racismo nas indicações ao Oscar 2016, o ofício de ator para a população negra entra mais uma vez em pauta nesse inicio de ano. Para além de críticas aos papeis estereotipados como de empregadas, escravos, mulatas, bandidos e favelados que o ator negro precisa se submeter ao longo de sua formação e carreira, é preciso realizarmos um debate acerca das dificuldades pelas quais a maior parte dos atores negros passa durante a construção de sua carreira, além do contexto social que é ser e assistir um negro atuando.


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Correr atrás de seus sonhos é uma filosofia bonita a ser seguida, mas para a camada pobre e negra da população essa filosofia se limita à teoria. Afinal, antes de correr atrás de um sonho é preciso correr atrás do alimento, da vestimenta e da moradia…é preciso correr atrás do dinheiro. Vivemos em uma sociedade capitalista e a ideia de sonho e aspirações infelizmente não cabe a todos. Para algumas pessoas só existem necessidades a serem supridas. A vida se torna uma questão de sobrevivência e dentro desse jogo de sobrevivência que todos os dias negros e pobres encaram, infelizmente não há espaço para sonhos.

Por maior que seja seu talento, se você não possuir apoio financeiro, psicológico e afetivo para investir nele, aquilo jamais se tornará realidade e, tratando-se de um sonho teatral a coisa é ainda pior já que, o ofício de ator é algo desvalorizado, algo que pode levar tempo para que gere lucro, e esse tempo, os pobres não têm a perder. Além disso, esse é mais um espaço negado à população negra, onde as vagas são limitadas e nem sempre a meritocracia se faz valer, nem sempre é possível que o negro pobre utilize do canal artístico para realizar uma ascensão social.

Ainda que hoje pelas periferias do nosso país existam projetos sociais que, junto com crianças, adolescentes e jovens, incentivam o desenvolvimento cultural e artístico dos mesmos, é necessário termos um olhar amplo e sincero sobre o tema, afinal, quantos negros você vê na TV ou teatro? Desses negros quantos estão em papeis que não remetam a estereótipos de nossa raça? Pensando rápido, não me veio nenhum a mente. A antropóloga Solange Martins Couceiro de Lima¹ certa vez disse que “a maneira como as telenovelas brasileiras tratam os personagens negros reflete a forma com que sociedade os trata com o ‘ preconceito à brasileira’, sutil, disfarçado e com vergonha de ser preconceito”.

Teatro Negro - A arte militante necessária

O negro acabou por ser excluído do teatro assim como de outros espaços na sociedade pós-abolicionista quando o teatro deixou de ser marginalizado e se tornou lugar de brancos, brancos esses muitas vezes com suas caras pintadas de preto em seus espetáculos. Apesar do surgimento de nomes como Grande Otelo, durante 1927 com a Companhia Negra de Revistas, essa representação do negro era escassa e quando acontecia, ocorria em padrões estereotipados. Miriam Garcia Mendes relata em seu livro A personagem negra no teatro brasileiro², como os personagens negros naquela época sempre se limitavam aos estereótipos do “neguinho”, do pai João, da “mulata exportação” ou da velha escrava.

Essa situação só começou a mudar a partir de 1944, com a criação do Teatro Experimental do Negro (TEN) no Rio de Janeiro, com Abdias do Nascimento. Sem espaço nos palcos tradicionais e na sociedade pós-abolicionista, o negro teve que se organizar para poder aparecer tanto como ator de teatro quanto como ator social e político. Além disso a companhia foi capaz de mudar a forma como o teatro era feito. Foram considerados os primeiros performers nacionais já que, na tentativa de valorizar a cultura africana, juntavam teatro, dança, poesia e música em suas encenações. O TEN permitiu que diversos atores negros fossem descobertos e tivessem acesso a uma formação teatral e, também, à alfabetização já que muitos dos que participavam tinham um baixo nível de escolaridade. A companhia teve sua estreia marcada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, lugar que na época Abdias do Nascimento classificou como “a fortaleza do racismo”.

Elenco da peça O filho pródigo, de Lúcio Cardoso. Teatro Ginástico(RJ), 1947 Fonte: NASCIMENTO, Abdias do. Teatro experimental do negro: trajetória e reflexões. Elenco da peça O filho pródigo, de Lúcio Cardoso. Teatro Ginástico(RJ), 1947. Fonte: NASCIMENTO, Abdias do. Teatro experimental do negro: trajetória e reflexões.

Companhias como o TEN, que teve seu fim em 1952, foram importantes pois permitiram ao ator negro atuar em papeis que antes só eram destinados a pessoas brancas. Papeis escritos para brancos mas que, não alterando em nada o andamento da história, questiono: por que um negro não poderia encená-lo? Essa era a pergunta que se faziam e que, continuamos a fazer até hoje.

Recentemente durante a premiação do Emmy 2015, Viola Davis, a primeira mulher negra a ganhar o Emmy de melhor atriz disse “Não se ganha um Emmy por papéis que simplesmente não existem” e “A única coisa que separa mulheres negras de quaisquer outras é a oportunidade”. Há anos atrás isso era verdade e até hoje continua sendo, já que quando lemos uma história em que os personagens não são descritos minuciosamente, nossa mente imagina um rosto branco, um personagem sempre branco e isso precisa ser mudado; e isso só poderá ser mudado quando começarmos a ver personagens negros, quando escritores começarem a criá-los, quando a cor escura e o cabelo crespo se tornar uma característica tão comum e aceitável quanto a pele branca e os cabelos lisos.

Ator social, ator cultural

É preciso que o ofício do ator negro tenha um cunho artístico-militante no Brasil. Quando estamos em uma sociedade onde é necessária a criação de uma política de “cotas”, que regulamente a participação de atores negros na mídia, o ser negro e estar na TV, por exemplo, não pode ser considerado uma profissão de cunho meramente artístico. É também uma questão política. Se vivemos em um país onde mais da metade da população é preta ou parda, devemos considerar no mínimo estranho o fato de não nos vermos nos veículos de mídia. A proporção de negros que vemos pelas ruas não equivale a que vemos na TV, cinema ou em propagandas e só o fato de ser necessária uma discussão política e legal sobre a aparição de negros na TV, nos mostra que a dificuldade de um ator negro é maior que a de qualquer outro.

Quando pensamos em representatividade o negro se torna ainda mais importante. É preciso que nossas crianças vejam pessoas similares a elas em papeis de destaque, que o negro seja representado como o médico, o advogado, o professor, o empresário bem sucedido.  É preciso que os atores negros usem o espaço que conquistaram para influenciar os seus irmãos, que continuam expostos às mais diversas situações e, quase sempre desacreditados. É preciso que o ator negro, seja além de ator, militante, que o ato não termine quando as cortinas se fecharem, que sua voz continue a ecoar mesmo quando os microfones se desligarem. Ainda que inúmeros personagens e cenas venham e vão, o ato que jamais poderá deixar de ser encenado, é seu ato político, é o ato que não precisa de texto e nem ensaio, é o seu ato de resistência.

¹Solange Martins Couceiro de Lima, professora da Escola de Comunicação e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo, na Folha de S. Paulo Ilustrada, 28.08.1998, p.15.

²Miriam Garcia Mendes, A personagem negra no teatro brasileiro, São Paulo, Ática, 1982, p. 188-189.

Texto: Marcela Johnson / Ilustração: Vinicius Martins

O desenvolvimento do capitalismo brasileiro se estruturou na seguinte contradição:

    • Para garantir uma produção mais lucrativa na colônia, a classe dominante encontrou na escravidão a forma mais vantajosa de produzir, o que exigia um grande número de escravos. 38% dos africanos sequestrados para serem escravizados vieram para o Brasil. Essa política fez com que, já pelo ano de 1660, o número de negros escravizados superasse o número de brancos em 36.000 habitantes.

 

    • Havia por parte dessa classe dominante um grande temor das massas negras escravizadas e sua resistência à escravidão. Havia uma dependência do Brasil com Portugal porque, para combater a massa negra, era preciso da proteção da metrópole. Essa dependência gerava muitos prejuízos, pois grande parte das riquezas do país eram destinadas à coroa portuguesa.



Ou seja, ou a classe dominante se ligava à metrópole contra os negros, ou armava os negros para garantir sua independência.

“Ora, o aparelho administrativo montado na Colônia tinha dupla finalidade: defender os interesses da Coroa e garantir a segurança dos senhores da insurgência negra escrava, que se mostrava constante nessa fase de modo de produção escravista (escravismo pleno). Se de um lado, esmeravam-se na  defesa dos direitos do Rei, da segurança da classe senhoril e na eficiência da máquina administrativa local, de outro, estruturavam-se militarmente para conter os escravos (africanos e também índios) que se recusavam ao trabalho, que através da fuga individual, quer através de quilombos que se organizavam em toda a Colônia.” (Clóvis Moura, pg. 42)


O Brasil, por conta de seu papel internacional, foi o ultimo país a abolir a escravidão. Mesmo com a proibição do tráfico internacional (que demorou tempo para ser realmente cumprido), o tráfico interno e um pequeno desenvolvimento de “produção de escravos”,  garantiu continuidade do regime e ao mesmo tempo um demorado processo de modernização e industrialização.

A industrialização tardia é iniciada pelo capital inglês, já apontando a continuidade da dependência internacional do país. Essa condição abre espaço para uma burguesia conservadora e débil que possui muito mais medo da classe trabalhadora e dos negros recém libertos do que tem coragem para se opor à antiga elite colonial ou à dominação internacional.

Essa classe nascente opta pela conciliação com a elite agrária e a dominação inglesa para desenvolver o capitalismo no país. Essa decisão torna incapaz o cumprimento do papel revolucionário que a classe burguesa internacional chegou a cumprir contra o feudalismo, deixando aqui um conjunto de tarefas democráticas em aberto.

“Essa burguesia que se inicia no segundo e último período do escravismo era uma burguesia auxiliar, condicionada, dependente, apêndice e colaboradora dos interesses dos compradores, vendedores ou investidores da nova Metrópole: a Inglaterra. Os seus espaços econômicos, sociais e culturais já estavam tomados, as iniciativas pioneiras e acumuladoras de capitais já haviam sido ocupadas e funcionavam independentemente de sua liderança. Passou, a partir daí, a ser uma burguesia subalterna, que desempenharia funções caudatárias, porém, jamais assumiria o seu papel social e político de transformadora de uma nova etapa histórica de nossa sociedade através de uma proposta de nova orientação social.” (Clóvis Moura, pg. 79)


O processo de abolição foi garantido por um Estado de classe, que defendia o direito do latifúndio, e que passa depois a servir como balcão de negócios da burguesia. No pós-abolição, ao passo que os grandes senhores são indenizados por perderem os seus “bens”, os negros são atacados pela legislação, a exemplo da lei de terras¹, para assim garantir que se perpetuasse a desigualdade entre negros e brancos.

Os negros não tiveram direito à terra para garantir à classe dominante mão de obra barata, ao mesmo tempo que as politicas de branqueamento da população brasileira colocaram os libertos numa situação ainda mais marginalizada. São os imigrantes europeus que ocupam os melhores postos de trabalho e podem, a partir de um certo acúmulo de dinheiro e mesmo por incentivo do próprio Estado, comprar terras e produzir. Já os ex-escravizados ocupam os postos mais precarizados e se tornam também a maioria do exército de reserva, composto por negros e pobres urbanos.

Fim da abolição, continuidade dos desafios

Mesmo com o fim da abolição, as teorias racistas continuaram a se desenvolver como uma ideologia necessária, agora como arma para continuar garantindo os privilégios dos ex senhores de escravos e para assegurar que a burguesia lucrasse com a divisão dos trabalhadores e a super exploração. A partir da disseminação de uma ideologia racista, é possível explicar porque negros podem ser superexplorados e ao mesmo tempo aumentar a precarização da classe trabalhadora como um todo, aléḿ da própria divisão que se conforma dentro classe dificultando a unidade contra um inimigo em comum.

Num país de burguesia branca, que teve como importante pilar de desenvolvimento a exploração e a opressão de negros escravizados, e que ainda mantém o racismo como forma de aumentar a exploração, a questão negra ganha um peso fundamental. A população negra é parte essencial do proletariado brasileiro tanto em proporção quanto pelo fato de ocuparem os postos mais precarizados. C.L.R. James, um importante revolucionário negro que se dedicou aos estudos da questão racial, diz que os negros devem ser vistos como duplamente explorados, pois são tradados socialmente como cidadãos de segunda categoria.

Os negros pela opressão histórica têm a necessidade de lutar por igualdade social, econômica e política. Dentro da própria classe operária precisam travar uma luta para que possam desempenhar as suas funções nas mesmas condições dos brancos. Essa luta só pode ser levada até o fim com a destruição do sistema capitalista que propaga a ideologia racista como mecanismo de dominação.

Luta de classes e o enfrentamento ao racismo
O fato dos negros hoje serem a maioria racial do país e das camadas populares, do racismo ser fator importante para a exploração da classe trabalhadora como um todo e ser estrutural em toda a conformação do Estado brasileiro, faz com que as demandas negras ganhem extrema importância como elemento que garanta a unidade da classe operária e que poda hegemonizar outros setores da sociedade na luta contra a burguesia.

Para isso é preciso entender as demandas da população negra como parte integrante das pautas levantadas pela classe trabalhadora, pois sem organização e mobilização dos negros no país não pode haver uma revolução socialista. Ao mesmo tempo é preciso que o movimento negro carregue um programa radical e operário contra o racismo e que também levante as demandas democráticas mais elementares que devem ser garantidas ao negros, que seja independente da classe dominante e que possa então se juntar aos trabalhadores brancos para levar a luta contra o racismo.

Sendo assim, se por um lado as demandas, desde as mais elementares, devem ser encaradas também como demandas do povo negro (sem esquecer, é claro, das particularidades enfrentadas), no mesmo sentido a luta por direitos ao povo negro, por ser o o maior o mais explorado setor da classe e a grande maioria dos pobres urbanos, deve ser encarada como uma pauta obrigatória do movimento operário e a luta contra o racismo dever ser também encarada como um enfrentamento central.

A reafirmação da luta contra o racismo no Brasil deve ser parte constitutiva da luta revolucionária da classe trabalhadora pelo socialismo. A relação entre socialismo e fim da opressão racial é tão profunda em nosso país que é impossível garantir um sem o outro. Essa relação indissolúvel não deve nos levar a cometer o equivoco de distorcer o papel revolucionário da classe trabalhadora de conjunto, que tem a ver com o papel que cumpre na produção.

A classe trabalhadora é a única que pode levar o mundo ao êxito da revolução socialista e a demanda de todos os oprimidos, pelo seu papel na produção. Mas, como já vimos na história, é possível revoluções protagonizadas por outros sujeitos e que levem processos e formem Estados profundamente problemáticos e algumas vezes racista, como foi o caso de Cuba. No Brasil, o peso da questão negra pode em momentos específicos romper a barreira da democracia racial e possibilitar a construção de movimentos negros de massa e organizações que se pautam pela questão racial e que afastem os grupos marginalizados. Isso se torna um entrave tão grande a ponto de impedir que a classe trabalhadora hegemonize os setores oprimidos, impedindo um processo revolucionário, ou até mesmo, a tomada de poder como parte do processo da luta contra o racismo sem  necessariamente uma perspectiva de superação da sociedade de classe, principalmente se não encontrarem na classe operária organizada revolucionária um aliado.

Trotsky, C.L.R. James já mostravam em 39 e 40 que são sectários os que acham que o movimento negro independente não possa cumprir um importante papel sozinho a partir da luta contra o racismo. Nesses anos na quarta internacional ambos fizeram um importante debate de como poderiam auxiliar na construção de um movimento negro de massas nos Estados Unidos, pois para eles os negros não só podiam como deviam ter suas organizações independentes de combate ao racismo. Nessa condição, o papel dos revolucionários é ajudar esses movimento na luta, ao mesmo tempo que os negros das organizações revolucionárias devem intervir nesses espaços discutindo e defendendo as posições revolucionárias para caminhar junto com o conjunto dos negros a saída inevitável da derrubada do sistema como parte do caminho da luta contra o racismo.

Em 1948 ao fazer uma análise sobre a história da SWP e a questão negra C.L.R. James coloca:

"O proletariado, como sabemos, deve conduzir as lutas de todos os oprimidos e todos aqueles que são perseguidos pelo capitalismo. Mas isso foi interpretado no passado - e por alguns muito bons socialistas também - no seguinte sentido: as lutas independentes do povo negro não tem muito mais do que um valor episódico e como uma apenas um fato, isso pode constituir um grande perigo não só para os negros si, mas para o movimento operário organizado. A verdadeira liderança da luta negra deve repousar nas mãos do trabalho organizado e do partido marxista. Sem isso a luta dos negros não só é fraca, mas é susceptível de causar dificuldades para os negros e perigos para o trabalho organizado. Isso, como eu digo, é a posição defendida por muitos socialistas no passado. Alguns grandes socialistas nos Estados Unidos têm sido associados com esta atitude".


Nós, por outro lado, dizemos algo completamente diferente
Dizemos, número um, que a luta dos negros, a luta dos negros independente, tem uma vitalidade e uma validade própria; que tem raízes históricas profundas no passado da América e em lutas atuais; ela tem uma perspectiva política orgânica, ao longo do qual ela está viajando, em um grau ou outro, e tudo mostra que no presente momento ele está viajando com grande velocidade e vigor.

Nós dizemos, número dois, que esse movimento negro independente é capaz de intervir com força terrível sobre a vida social e política geral da nação, apesar do fato de que ela é travada sob a bandeira dos direitos democráticos, e não é levada necessariamente pelo movimento operário organizado ou pelo partido marxista.

Nós dizemos, número três, e isso é o mais importante, que é capaz de exercer uma poderosa influência sobre o proletariado revolucionário, que ela tem uma grande contribuição a dar para o desenvolvimento do proletariado nos Estados Unidos, e que é em si uma parte constitutiva da luta pelo socialismo.

Desta forma, desafia diretamente a qualquer tentativa de subordinar ou para empurrar o significado social e político da luta dos negros pelos direitos democráticos. Essa é a nossa posição. Era a posição de Lenin há trinta anos atrás. Era a posição de Trotsky, que ele lutou durante muitos anos. Tem sido concretizado pela luta de classes em geral nos Estados Unidos e pelas tremendas lutas do povo negro. Tem sido afiada e refinada pela controvérsia política em nosso movimento, e o melhor de tudo, teve o benefício de três ou quatro anos de aplicação prática na luta dos negros e na luta de classes pelo Partido Socialista dos Trabalhadores durante os últimos anos .

Agora, se essa posição atingiu a fase em que podemos colocá-la de frente na forma que propomos, o que significa que, para entende-la deve ser mais simples agora do que antes. Se, em vez de meramente observar a questão negra, o povo negro observar as lutas já feitas e as suas ideias, somos capazes de ver as raízes desta posição de uma forma que era difícil ver 10 ou mesmo 15 anos atrás. O povo negro, podemos dizer, com base em suas próprias experiências, aborda as conclusões do marxismo. E eu vou brevemente ilustrar isso como foi mostrado na Revolução.

Em primeiro lugar, sobre a questão da guerra imperialista. O povo negro não acredita que as duas últimas guerras e aquelas que podem nos alcançar, são resultado da necessidade de lutar pela democracia, pela liberdade dos povos perseguidos pela burguesia americana. Eles não podem acreditar nisso. Sobre a questão do Estado, o negro particularmente abaixo da linha Mason-Dixon, acredita que o Estado burguês é um Estado acima de todas as classes, atendendo às necessidades de todas as pessoas? Eles não podem formular sua crença em termos marxistas, mas a sua experiência os leva a rejeitar esta besteira da democracia burguesa.

Sobre a questão do que é chamado de processo democrático, os negros não acreditam que queixas, dificuldades de setores da população são resolvidas por discussões, por votações, por telegramas ao Congresso, pelo que é conhecido como o "American Way".

Finalmente, sobre a questão da ação política, a burguesia americana pregou que a Providência, na sua sabedoria divina, decrete a existência de dois partidos políticos nos Estados Unidos, não um, não três, não quatro, apenas dois; e também em sua bondade a Providência demonstrou que estas duas partes devem ser um, o Partido Democrata e do outro, o Republicano, para durar a partir de agora até o fim dos tempos.

Isso está sendo desafiado por um número crescente de pessoas nos Estados Unidos. Mas os negros mais do que nunca, os negros demonstraram que, a partir das suas atividades, estão dispostos a fazer a ruptura completa com essa concepção.

Como bolcheviques nós temos certeza, não apenas teoricamente, mas na prática, da importância do papel do movimento operário organizado em todas as lutas fundamentais contra o capitalismo. É por isso que, durante muitos anos no passado esta posição sobre a questão negra tem tido alguma dificuldade em encontrar-se completamente aceita, particularmente no movimento revolucionário, porque não há essa dificuldade - o que é a relação entre este movimento e o papel primordial do proletariado - especialmente porque muitos negros, os mais disciplinados, endurecidos, treinados, desenvolveram seções negras e estão hoje no movimento operário organizado.

Os negros dos EUA, assim como os negros no Brasil têm uma extrema desconfiança da esquerda, foram traídos pelos PCs estalinizados e por outras diversas organizações ainda hoje, como é o caso do PT. Os negros olham para as organizações hegemonicamente brancas com muito receio, pois suas grandes referencias romperam com a esquerda e foram parte de processos de criação de organizações negras. Eles nos questionam: a tomada do poder e a planificação da economia acaba com o racismo? Nós devemos responder sinceramente que não, no longo caminho que trilhamos para a revolução é precismo manter o combate ao racismo para que depois de acabar com as bases materiais que ainda o impõe na vida de todos, consigamos dar um combate final extinguindo a ideia de supremacia branca. As mudanças materiais somente abrem espaços para as necessárias mudanças culturais dessa nova sociedade que queremos construir.

Movimento Negro nos EUA

A Revolução é permanente também nesse sentido. Ela não é só a tomada do poder, mas as lutas e combates que traçamos antes, durante e depois. Uma sociedade igualitária também depende dos caminhos que traçamos. Nesse sentido, se a questão racial e o combate ao racismo não for um elemento presente em todo o processo, acredito que seja difícil que o seja depois da tomada do poder. As lutas andam juntas, correndo o risco, de se separadas, não chegarem à vitória.

Essa problemática exige dos revolucionários e da vanguarda da classe operária uma dedicação ainda maior para com a questão racial. É preciso combater o racismo no seio da classe, e desde já levantar discussões nos sindicatos e protagonizar lutas contra toda a forma de racismo, dar pequenos exemplos de como os trabalhadores devem enfrentar o racismo, ao mesmo tempo que atuam de forma estratégica no movimento negro.

Para as organizações revolucionárias, o exemplo da SWP (organização da quarta internacional nos EUA) deve servir de guia inicial. É preciso aprofundamento teórico sobre a questão, formação de quadros negros revolucionários e uma dedicação profunda de toda a organização para a educação de todos os membros sobre esse assunto.  É possível encontrar as principais discussões nos documentos internos do Congresso de 1939 e em suas resoluções sobre a questão racial nos Estados Unidos².

“O SWP propõe, assim, a constituir um departamento Negro nacional que irá iniciar e coordenar um plano de trabalho entre os negros e exorta os seus membros a cooperar tenazmente na difícil tarefa de abordar esta obra, da forma mais adequada. Nossas tarefas óbvias para o próximo período são: (a) a educação do partido; (b) ganhar os negros politicamente mais avançadas para a Quarta Internacional; e (c) através do trabalho do partido entre os negros e em domínios mais vastos, influenciando as massas negras a reconhecer no SWP o único partido que é realmente trabalhar para a sua emancipação completa dos fardos pesados ​​que suportaram tanto tempo. A conquista de massas de negros para o nosso movimento em uma base revolucionária não é, no entanto, tarefa fácil. Os negros, que sofrem intensamente das dificuldades gerais de todos os trabalhadores sob o capitalismo, e, além disso, a partir de problemas específicos, são naturalmente hesitantes em tomar a iniciativa de aliar-se com um pequeno e fortemente perseguido partido. Mas o trabalho Negro é complicado por outra, mais profunda, razão. Por razões que podem ser facilmente compreendidas, o negro americano é profundamente desconfiados de todos os brancos, e os acontecimentos recentes têm aprofundado essa suspeita.”³


A chave revolucionária para hegemonia operária no Brasil é conseguir unificar as pautas específicas do povo negro a um programa transicional que seja capaz de mostrar as entranhas do capitalismo e colocar para a classe trabalhadora a necessidade de cumprir sua tarefa histórica. Ao mesmo tempo é preciso quadros negros, com formação e disposição para organizarem seu pares como parte do movimento negros, formando uma coluna revolucionária que paute de forma consequente a luta anti racista e a unidade dos oprimidos contra a classe dominantes.

Muitas coisas ainda precisam avançar, tanto na proposição da luta quanto na prática, mas é preciso se agarrar ao que temos de mais avançado para podermos construir a luta pela emancipação de negros e negras e da humanidade.

1.  lei nº 601 de 18 de setembro de 1850, foi a primeira iniciativa no sentido de organizar a propriedade privada no Brasil.
2. https://www.marxists.org/archive/trotsky/works/1940/negro1.htm
3. https://www.marxists.org/history/etol/document/swp-us/3rdconvention/swp01.htm

Texto: Miriam Alves / Ilustração: Moska Santana


O carnaval em Belo Horizonte tem ganhado destaque nos últimos anos. O que começou com pequenos blocos de rua, em tom de protesto e festejo, transformou-se em um mega evento cultural, com direito a muita apropriação cultural ao tom da tez alva de Baianas Ozadas, ridicularização da cultura negra e principalmente das mulheres negras, com fantasias de “nega maluca” e “Black face”. Desgourmetizar o carnaval tem sido um verdadeiro desafio para os blocos afros, que vem tentando protagonizar a cultura negra. Infelizmente, não há um amplo discernimento entre brincadeira e opressão, fantasia e discriminação, e o racismo e o machismo ganham destaque na folia!

No reino da “democracia racial” vale tudo, até mesmo sair em desfile de bloco com o filho fantasiado de macaco. Qual o problema nisso? Vocês negros vêem racismo em tudo? A criança esta feliz? Os pais amam a criança...

Bom, em nenhum momento foi colocado em cheque o amor dos pais pelo filho. É preciso qualificar o discurso e entender que ninguém esta imune ao racismo, ou reproduzir qualquer tipo de opressão. Parece que cada vez que surge um assunto polêmico relacionado a um caso de racismo, todo mundo ganha diploma de especialista para falar sobre o assunto. E não é bem assim, compreender o racismo é um passo fundamental para não sair disparando “achismos”.

O racismo é um sistema de opressão que se baseia na inferiorização de um grupo étnico pelos seus traços físicos ou culturais. O racismo é estrutural, pois perpassa por diversas relações sociais ou institucionais, gerando desigualdades e garantindo a manutenção de privilégios de um grupo hegemônico. É necessário reconhecer que traços de uma herança histórica de negação e inferiorização não é vitimismo. Vivemos em um país com extrema desigualdade sócio-racial, portanto, é necessário ter alteridade e altruísmo suficiente para se colocar no lugar do outro.

O mito da democracia racial serve justamente para isso, velar o racismo e negar a sua existência mesmo quando estamos submersos nele. Se alguém comete algum ato discrimatório, dificilmente se assumirá racista. Porque chegamos a um nível de naturalização, que o problema está em quem sofre e não em quem comete o ato. Logo, a vítima se torna o agressor e o agressor se torna a vítima.

O que queremos dizer é que não é natural comparar um negro a um macaco. Isso é fruto de um processo histórico e cultural de inferiorização da raça negra através de teorias eugenistas, difundidas no século XIX no Brasil e na Europa. Animalizar ou objetificar o negro é destituí-lo de sua humanidade. Quando não enxergamos o outro enquanto semelhante ou o inferiorizamos na escala evolutiva, tudo o que fazemos é reafirmar auschwitz e apartheids. Abrir mão dos privilégios e desconstruir-se é o primeiro passo para constituir relações mais humanitárias.

Não há neutralidade em nossas ações, precisamos nos politizar, ter mais responsabilidade naquilo que nos propomos a fazer. Será que é natural personificar uma criança negra em um papel de macaco? Expô-la a uma situação vexatória? (Não creio). Ao realizar uma ação que gera constrangimento e dor, o casal cometeu Injúria Racial. Não é fácil assumir a paternidade de uma criança negra em um país extremamente racista, ainda mais quando os pais são brancos, ou um casal inter-racial. Sabemos que a representatividade é fundamental nessa etapa da vida.

Mateus tem dois anos e os pais têm proporcionado momentos lúdicos à criança. Em sua festa de aniversário, por exemplo, o fantasiaram de “O pequeno príncipe”. Mas e quando Mateus descobrir que seus heróis não se parecem com ele? Que eles têm a tez alva igual ao seu pai?  Será que ele vai passar pó de arroz na cara, porque os padrões dele estão sendo baseados em figuras brancas, ou será incluída uma educação anti-racista a qual o Mateus se veja representado em seus personagens? Como o pequeno Matias que se enxergou no personagem Finn do novo Star Wars.

Como garantir a integridade psíquica e moral da criança? Trabalhar a construção de sua identidade? Fortalecer sua auto-estima? Todos esses questionamentos devem ser preocupações vitais, pois a criança pode crescer negando sua identidade para atender os padrões da branquitude, ser discriminado por suas características físicas, ser barrado em uma loja no shopping, sofrer violência policial. E aí? Você vai continuar dizendo que o racismo está nos olhos de quem vê, enquanto sofremos isso na pele?!

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