Há pouco mais de um ano Brasília era tomada pela 1ª Marcha de Mulheres Negras. Confira o depoimento de três mulheres quilombolas que participaram o ato histórico na capital do Brasil.

Texto: Marcela Johnson / Edição de Imagem: Vinicius Martins

“Todo africano, índio ou aqueles que levam seu sangue, nascidos nas colônias ou em países estrangeiros e que vierem viver na República, serão reconhecidos como haitianos” Constituição de 1816, artigo 44 – República do Haiti

O Haiti é hoje a nação mais pobre do Ocidente. O que nos é passado sobre esse país se resume a uma série de desastres naturais, uma grande pobreza, ditadores que se revezam no poder e a tentativa de “salvação”, ou “ajuda humanitária” ao país através da ONU e suas tropas. Mas essa realidade está longe de representar a sua verdadeira história.

O Haiti foi a primeira república negra do mundo. Sua independência é a marca de uma rebelião totalmente vitoriosa de negros escravizados no chamado “Novo Mundo”. O medo do Haiti ainda paira sobre as mentes dos donos do mundo e o povo haitiano ainda paga muito caro por se levantar contra sua opressão e exploração.

O número de africanos trazidos na condição de escravizados para o país é enorme. Segundo diferentes fontes, a quantidade varia de 770 mil a 1 milhão durante o período escravocrata. Esse enorme número de africanos, somado ao clima local, permitiu com que os investimentos da França tornassem sua colônia uma gigante produtora de açúcar, chegando a produzir quase metade do açúcar no planeta. Toda essa riqueza só foi construída em cima de um regime de trabalho aterrorizante.

A menina dos olhos da França se rebelou contra seus algozes e a partir de 1791 os negros escravizados do país decidiram se levantar por sua liberdade. Essa luta só termina com a expulsão dos franceses e a sua independência em 1804.

Milhares de negros que nada tinham a perder senão seus grilhões, que tinham em comum a língua: cróle e sua religião: vudu, além de sua ânsia pela liberdade, se tornaram sujeitos de sua história e da história de seu país. Escolheram iniciar sua guerra no dia 14 de agosto, dia da “Mãe da Terra”. Se reuniram na floresta e após um ritual vudu saíram à caça da liberdade de irmãos e irmãs.

O exército de negros escravizados que venceu Napoleão, no processo de sua luta, percebeu que o fim da escravidão só poderia ser definitivo se derrotassem o imperialismo e levantassem sua independência enquanto país. E assim o fizeram.

Os Haitianos pagam até hoje por sua ousadia. O mundo escravista não podia permitir que as chamas da Revolução Haitiana se alastrassem e incendiassem novos processos revolucionários. A saga desses grandes guerreiros se tornou uma assombração na mente dos senhores de escravos e das nações escravistas, ao passo que a conquista se tornara uma esperança para os negros escravizados do mundo inteiro. Para a represália, as grandes nações do Ocidente uniram forças contra a nova república negra, principalmente França, Inglaterra e Estados Unidos.

Os haitianos como parte do processo de sua real libertação se livraram de tudo que remetia àquele penoso período de escravidão. Sabendo que não seria boa a resposta a sua liberdade, se fortaleceram militarmente contra seus inimigos e inimigos da liberdade dos povos africanos. Infelizmente, não conseguiram se proteger para o verdadeiro ataque, que veio por outras vias.

Os países imperialistas impuseram ao Haiti relações de trocas comerciais altamente desiguais, as quais os haitianos tiveram que se submeter para conseguir sobreviver enquanto país do ponto de vista econômico. Não à toa, demorou anos para que sua independência fosse realmente reconhecida internacionalmente.

No caso da França o ataque foi ainda mais profundo. Esta exigiu a reparação aos antigos donos de terras e escravos ou bloqueariam os portos haitianos. A ameaça obrigou o Haiti a entregar grande parte de sua riqueza em troca de sua sobrevivência. Foram roubados, entre 1825 e 1947, mais de 1 bilhão de dólares do país para que sua independência fosse reconhecia pela França. São anos de pagamentos de uma suposta dívida que na verdade se trata de retaliação francesa a sua mais rica colônia.

Mesmo assim, o Haiti permaneceu por anos sendo o país onde os negros tinham as melhores condições de vida. A história desse país, no entanto, não poderia ter mais nenhuma glória. Era preciso transformá-lo num exemplo negativo, que mostrasse aos negros que sua revolta teria um alto preço.

Em julho de 1915, os Estados Unidos ocuparam o país, deixando claro que a soberania haitiana de nada valia para o Imperialismo. Durante 19 anos permaneceram, impuseram a sua política para o povo haitiano. A situação chegou ao absurdo de mudarem a constituição do país em prol dos brancos imperialistas. Nesse período de ocupação, passaram-se 20 presidentes. Os haitianos não assistiram calados essa calamidade. Resistiram, mas foram brutalmente reprimidos pelas tropas altamente racistas que o governo norte-americano fez questão de enviar ao território caribenho.

Desde então podemos resumir a história do Haiti em uma sucessão de golpes e de falta de democracia patrocinadas pelo Imperialismo. Mas, mais importante do que isso é que há também uma história de resistência popular a todos esses ataques. Falamos de um povo que tem em seu sangue a força dos guerreiros que construíram uma revolução escrava e que venceram o tão temido exército de Napoleão.

Desde 2003 as tropas da ONU chegaram ao Haíti, novamente por meio da bandeira do imperialismo, que impõe suas vontades via seus exércitos de paz. As tropas permanecem até hoje e pouco ou nada têm feito no sentido de ajudar a reconstruir o país, ajudar a população que também sofre com os desastres naturais. Pelo contrário, mata, estupra, rouba e reprimi.

Quem lidera essas tropas é o exército brasileiro, muito bem treinado em reprimir e matar negros. Junto dele, várias empresas reconhecidas por corrupção aparecem para ajudar a roubar e explorar o povo haitiano. Como se isso não fosse o bastante, aos haitianos que vem refugiados desse massacre dirigido pelo exército brasileiro, o nosso país oferece racismo e xenofobia, condições miseráveis de vida e de emprego.

O Haiti não precisa de tropas. O Haiti não precisa da ONU (entidade “salvacionista” imperialista). O Haiti precisa de solidariedade internacional, solidariedade ativa. É preciso que os trabalhadores e os negros do mundo inteiro se levantem pelo Haiti.

Eles nos deram a lição há muitos anos atrás, quando em sua constituição abriram a porta do país àqueles oprimidos e explorados que desejassem sua liberdade e a possibilidade de uma vida melhor. Agora é a nossa vez de fazer ecoar as vozes de nossos ancestrais guerreiros do Haiti. Façamos uma rebelião nossa. Nós, os escravos modernos, juntos podemos derrotar os senhores.

Não podemos deixar que o Haiti pague em sangue por sua liberdade e independência. A vitória dos escravos haitianos é a vitória de todos nós, descendentes de escravos nas colônias e de africanos que ainda são usurpados pelo Imperialismo racista. E a reconstrução do Haiti, a retomada de sua soberania nacional a partir da retirada das tropas da ONU, é uma tarefa também nossa.

É necessário que lutemos junto aos nossos irmãos haitianos para construir uma segunda revolução, fazer com que a chama da luta de nossos irmãos se espalhe pelo mundo inteiro fortalecendo nossa luta contra o racismo e o capitalismo.

Toda solidariedade ao povo haitiano! Fora tropas do Haiti!

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