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O poeta Akins Kintê apresenta a minissérie “Um Sol entre as Sombras de um Natal”, com textos sobre a festividade e relações afetivas; confira a quarta história

Texto: Akins Kintê | Ilustração: Marcos Z.X

Nem são dez da manhã, baderna no quintal, eu e a preta sob o cobertor de lã, semi nus e tal. Tios, tias, alguns que vararam a noite. Na moça dei beijos incomuns, a tristeza tomara que hoje não me açoite.

Acabamos de dormir. - “Dane-se é pra acordar”, eu só sorri, pedi mais uns minutos pra com ela sonhar.

Meu pessoal quer que eu decida: levanta ou balde de água fria. - “Família, em toda minha vida, nem na cadeia esse tratamento quando como detento tirei uns dia”.

P.H colô, desbaratinado: - “Hoje nem falem de cabelo pelamô, me arruma um drink meu aliado”.

Dia de natal, meus primos zum zum, no céu arde um sol, na real um sol pra cada um. Calça jeans de ontem, sem camisa descalço pego um teco do panetone pra ofertar pra ela, meus olhos que vos contem, quando a olho realço: - “Cê bagunça seu home, com seu riso aquarela”.

Só se ouve música alta, sabe como é favela, ela salta do barraco, como quem sai da ribalta, pra pisar na passarela. Os cara grita quando fala, as mina gesticula, pessoal pra frente meu povo é dessa. Minha pretinha se assusta, explico: - “É assim a minha gente, parece treta, mas não é não, é assim que nóis conversa”.

Uns se acomodam nas cadeiras, outros degustam cachos de uva, a criançada toma banho de torneira enquanto não cai chuva. Eu, um sorrisão, cheio de paixão, minha vovó nota. - “Cara sempe fechada, hoje irradiante, parecendo um idiota”.

Agora que nóis conta, coisas e causos com risada, causos que em qualquer um causa pânico, a gente conta como piada. São histórias de facadas, visitas em cadeia, mas nóis ri porque pra nóis não dá em nada, nóis nem alardeia. Não são histórias fictícias, da Netflix ou da vida, saímos na mão com polícia, nóis tem parente suicida, mas nóis conta meio normal, isso confunde minha preta, o riso dela se afasta e ela fica mal com toda essa treta.

Uma tia pra piorar, que ela é danada, lembrou o pior do passado, bem ali onde minha mina tava sentada, foi onde meu tio morreu enforcado. Fechou o tempo, a chuva torrencial, a pretinha um triste templo, assustada e tal. Pediu o Uber e se foi, pra mim é sem boi, a natureza que vira e move, eu imploro, aproveito que tudo chove, eu choro mano e como choro.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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