Em artigo de estreia no Alma Preta, a jornalista e mestranda da FAU/USP, Gisele Brito, fala sobre suas observações em relação à território e raça em uma das maiores metrópoles do mundo: São Paulo. “É sobre os nossos corpos pretos e periféricos que avançam os projetos de transformação urbana, as fronteiras da especulação imobiliária e a má-fé da demarcação de áreas de risco”, diz

Texto / Gisele Brito | Imagem / Reprodução | Edição / Simone Freire

Oi. Meu nome é Gisele. Sou jornalista e, desde o início de 2019, sou mestranda em Planejamento Urbano. Me interesso por cidade há muito tempo. Acredito que as exaustivas horas entre a minha casa no Grajaú e a faculdade em que estudei na primeira turma de ProUni do país, na rua da Consolação, têm muito a ver com isso.

Foi observando as desigualdades evidentes entre o bairro da zona sul e Higienópolis, na região central, que eu pude notar uma das expressões mais nítidas do racismo: a região mais bem infraestruturada da cidade praticamente só tem moradores brancos, enquanto as pessoas nas filas pros busões do extremo sul são predominantemente negras.

Com o tempo, tive acesso a livros e debates que me fizeram ver a segregação urbana como elemento estruturante do racismo estrutural. Avançar nesse entendimento é um caminho árduo, mas fundamental. Nessa coluna, espero compartilhar com os leitores do Alma Preta essa caminhada.

Tenho tido a sorte de, em meio a um justo pessimismo sobre nosso cenário político, poder observar animadoras frentes de luta. Como já haviam feito durante a ditadura anterior,
as periferias têm usado estratégias de luta inovadoras e, ao mesmo tempo, ancestrais.

São elas, reunidas em bares e praças transformadas em arena pública da política e da literatura, que têm pautado insistentemente o genocídio da população preta, pobre e periférica, o machismo, a heteronormatividade e o colonialismo.

Ainda assim, e especialmente por essa resistência, ainda que no centro geográfico da cidade, é sobre os nossos corpos pretos e periféricos que avançam os projetos de transformação urbana, as fronteiras da especulação imobiliária e a má-fé da demarcação de áreas de risco.

É isso. São com essas coisas que pretendo ocupar quinzenalmente esse espaço aqui no Alma. Que sorte a minha!

Para encerrar, um texto do Marcelino Freire que, pra mim, sempre será um trecho da peça Hospital da Gente, do Grupo Clariô, lá de Taboão da Serra. A peça de teatro mais linda que já existiu.
Dona Preta ou Favela Fênix

Aí o fogo apagou o barracão de dona preta mas não apagou dona preta essa ninguém apaga ela foi lá e levantou outro barracão do nada.

Aí a água levou o barracão de dona preta mas não levou dona preta essa ninguém arrasta onde houver chão é lá onde ela agarra as patas.

Aí a prefeitura mandou derrubar o barracão de dona preta mas não derrubou dona preta essa ninguém segura danou-se a espernear a criatura endemoniada.

Aí a polícia autuou o barracão de dona preta mas essa ora essa ninguém autua justiça cega quem disse que enxerga o olho da rua?

Aí o dono da boca mandou fuzilar o barracão de dona preta mas para ela nem bala perdida quando menos se espera dona preta ressuscita preta feito a luz do dia.

Aí a vizinha pôs um despacho na porta de dona preta mas essa ninguém despacha acende uma vela tem muita fé na tábua ela uma mulher de raça.

Foi aí que a vela derreteu o barracão de dona preta mas essa não há quem derreta vejam ela ali acesa dentro da fumaça divina diz dona preta eu é que não vou morrer cinza.

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