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Texto: CONAQ / Edição de Imagem: Vinícius Martins


Dezembro de 2015: no mês para o qual está prevista a 3ª edição da Conferência Nacional de Juventude, pelo Governo Federal, em Brasília, o Alma Preta lançou aos jovens das comunidades quilombolas representadas pela Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais (Conaq) o desafio de transmitir a todo Estado suas demandas, críticas, inconformidades e compromissos sociais em relação às políticas direcionadas à juventude negra.

A proposta que inicialmente tratava de uma narrativa coletiva, a ser escrita por jovens de diferentes estados, se repercutiu e se transformou em um importante ensaio onde os próprios jovens se questionaram e desdobraram suas respostas em uma pauta didática e excepcional:

1 - Quais as nossas diretrizes políticas enquanto jovens de povos e comunidades tradicionais?

Em poucas horas começamos a perceber o que tínhamos em comum. A partir do diálogo inicial, e depois de plantar a semente no quintal de casa, começamos a sentir o que nos aproximava. As dificuldades, dentre elas financeiras, infelizmente foram as primeiras a serem percebidas. Os conflitos territoriais, a violência e a falta de oportunidades, também foram ponto em comum nas nossas rodas de conversa.

Percebemos que a lentidão e a “preguiça” da burocracia do estado, a corrupção, e o racismo institucional (através da sonegação de informações e desinteresse da maioria dos gestores públicos) entravam as políticas públicas por todo o Brasil, e evitam diariamente que nossas crianças, adolescentes e idosos, tenham uma melhor qualidade de vida.

2 - Qual é a nossa visão de progresso? E progresso pra onde?

Dentre as rodas de conversa, foi apontado por muitos, que o nosso maior desafio é o de “respeitando a tradição cultural, sermos sujeitos vivos e atuantes nas transformações sociais que queremos hoje, e a garantia de que tenhamos nossos direitos humanos assegurados e efetivados”.

Dialogamos ainda sobre a importância da problematização de questões que nos afetam cotidianamente na vivência em comunidade. Como relação com os “mais velhos”, o que queremos para o futuro, e sobretudo para o presente, a defesa daquilo que valorizamos, por um lado, e a afirmação da necessidade de transformações, em outro.

3 – Somos diferentes e queremos ser reconhecidos em nossas singularidades!

Concluímos que temos uma visão de mundo diferenciada. Queremos uma comunidade, um município, um território com oportunidades para todas e todos. Queremos respeito! Respeito pela nossa forma de ser e estar no mundo, pelos nossos direitos, respeito aos nossos ancestrais e memórias, respeito aos direitos conquistados e merecidos após anos de resistência à escravização da população negra. Queremos sobrepor com nossas conquistas as consequências vivenciadas até hoje por nossos familiares e comunidades.

Destacamos a necessidade de incentivo e valorização da população negra e quilombola trabalhadora do meio rural, para o ensino da nossa verdadeira história, para o referenciamento de nossos legados e personagens nas escolas, para o reconhecimento das lutas travadas antes de nós.

4 – Somos verdades, os quilombos vivem!

Os território tradicionais quilombolas preservam a biodiversidade e a cultura de um Brasil que não se vê mais nas grandes cidades. Gostos, cheiros e sabores que remetem à uma outra forma de viver, em comunidade, em familiaridade. Somos afrodescendência viva e pulsante, ao contrário do que dizem os livros de história e alguns pensamentos mais antigos e desinformados sobre as dinâmicas das nossas comunidades.

Somos parte de uma longa história de resistência, cultura, força, dor e alegrias. Mas, somos também o hoje e o amanhã de nossos quilombos, e de nossa história. Somos mais! Somos sujeitos de direito desse ‘estado democrático’ que silencia as dívidas históricas que tem para com a população negra, sobretudo no meio rural.  Somos parte dessa população. Somos O Povo e temos voz, por isso afirmamos em alto e bom tom: Os quilombos vivem!

Carta Aberta da Juventude Quilombola

Comunidades quilombolas são grupos com trajetória histórica própria, cuja origem se refere a diferentes situações, a exemplo de doações de terras realizadas a partir da desagregação de monoculturas; compra de terras pelos próprios sujeitos, com o fim do sistema escravista; terras obtidas em troca da prestação de serviços; ou áreas ocupadas no processo de resistência ao sistema escravista. Em todos os casos, o território é a base da reprodução física, social, econômica e cultural da coletividade.

Nós, jovens quilombolas de diferentes estados e regiões do Brasil, somos de Territórios diferentes, culturas diferentes, gostos, e até mesmo linguagens pouco parecidas. Quando nos vemos, em contato com outros jovens quilombolas pela primeira vez, percebemos o quão diferentes somos também, fisicamente.

Conversando, percebemos que independente da região, ou do estado de onde viemos, temos em comum a solidariedade, o respeito à ancestralidade, aos ensinamentos coletivos, a vontade de superação das desigualdades em nossas comunidades e municípios, a alegria e fé na Ação, e a força de quem sabe de onde veio.

Os quilombos são espaços de relações sociais próprias e em muitos casos familiares, tradicionais e dinâmicas, composta por população negra, afro descendente e agregados. Os quilombos são espaços de interação e familiaridade. Somos todos meio parentes. “Tios e Tias”, madrinhas e padrinhos, primos e parentes em comum. E essa herança cultural ‘afro-centrada’, nos identifica ente relações de convivência e solidariedade, expressa através das variadas formas do “conviver”.

As comunidades quilombolas preservam a biodiversidade e a cultura de um Brasil que não se vê mais nas grandes cidades, com gostos, cheiros e sabores que remetem à uma outra forma de viver, em comunidade, em familiaridade. Somos uma afro descendência, viva e pulsante, ao contrário do que dizem os livros de história e alguns pensamentos mais antigos e desinformados sobre as dinâmicas culturais das nossas comunidades. Sobre esse assunto somos firmes: os quilombos vivem!!!

Somos parte de uma longa história de resistência, cultura, força, dor e alegrias, mas somos também o hoje e o amanhã de nossas comunidades, e de nossa história. Somos mais! Somos sujeitos de direito desse ‘Estado democrático’, que silencia as dívidas históricas com a população negra, sobretudo no meio rural.  Somos parte dessa população. Somos O Povo e temos voz!

E nós, jovens quilombolas de ponta a ponta do Brasil, estamos aqui para denunciar, dentre outras coisas:

    • O pouco interesse dos gestores e municípios em realizar e possibilitar o acesso de jovens quilombolas à Conferência Nacional de Juventude;

 

    • O descaso com que são tratadas as pautas da juventude rural negra e afro-descendente;

 

    • A lentidão na regularização dos territórios quilombolas, o que favorece a evasão do campo;

 

    • A falta de informação e execução dos programas destinados às comunidades quilombolas, que possibilitariam o trabalho descente nas comunidades de origem, o que favorece o abandono escolar;

 

    • Os abusos e a exploração sexual de crianças e adolescentes dentre e nas comunidades em torno dos quilombos, especialmente às meninas e jovens mulheres;

 

    • A exploração de mão de obra de jovens sem o pagamento digno;

 

    • O uso excessivo de álcool e outras drogas, sem o devido conhecimento dos efeitos causados por estas, nas comunidades;

 

    • A ausência do Estado, na maioria das comunidades quilombolas;



E afirmar:

    • A necessidade de ampliação dos espaços de participação composta por jovens quilombolas, voltados à diversidade entre as próprias comunidades;

 

    • O aumento simplório da participação de jovens quilombolas nas Conferências de Juventude;

 

    • A necessidade de que a Secretaria Nacional de Juventude, cobre dos estados as ações que estão sendo executadas, e impulsione outras mais, por município;

 

    • A obrigatoriedade da vaga reservada à jovens quilombolas e indígenas nos Conselhos Municipais e Estaduais de Juventude que já existentes, e garanta a viabilidade da participação desses jovens;

 

    • O incentivo direto e indireto à estruturação e criação de coletivos e espaços de formação voltados à juventude quilombola, promovendo a participação em editais públicos e atividades culturais, artísticas, políticas, de controle social, educacionais, científicas, voltadas aos empoderamento e desenvolvimento pessoal e coletivo destes jovens;



E finalmente dizer: nós, jovens quilombolas que, conseguimos enfrentar todos os obstáculos impostos e o racismo institucional, visualizado nas etapas municipais, estaduais e regionais, e chegamos à Conferência Nacional de Políticas para Juventude, em Brasília, afirmamos a toda a juventude presente e futura, que:

A juventude do Brasil também é quilombola e nós nos orgulhamos muito disso!!!!

Dezembro, 2015.
Comissão de Juventude Quilombola – CONAQ

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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