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Soul é um manifesto da autenticidade (boa-fé) que nos põe em alerta para não sermos meros reféns de nossos sonhos (má-fé) e, de forma sutil para alguns e não tão sutil para outros, um manifesto para negros e negras se livrarem da má-fé da racialização sem cair em outra: a má-fé do essencialismo

Texto: Alexandre Reis | Imagem: Divulgação/Disney+

(Contém spoilers)

Em tempos de “bolhas virtuais”, Soul trata com enorme beleza, delicadeza e profundidade de nossas “bolhas existenciais”. Há dois momentos no filme que explicam essas bolhas que me refiro: primeiro, quando Joe, depois de realizar seu sonho, fica anestesiado pelo fato de ter percebido que o dia seguinte a seu maior sonho era só mais um dia. Nesse momento, ele ouve da líder de sua nova banda, a Dorothea Williams, que “há uma história de um peixe que chega num peixe-ancião e fala: ‘eu queria conhecer o Oceano!’ ” – com isso ela quer mostrar para Joe que o peixe, tão habituado à água que estava, não se dava conta de que ela era o Oceano. Ou seja, o sonho de Joe (oceano) é sua própria vida (água). Nesse momento, a bolha existencial se rompe. Ele que sempre se alienava de seu sonho, mergulhou profundamente nele. Na filosofia existencialista, falamos que Joe, nesse momento, saiu da má-fé e foi para a boa-fé.

Mas há outra “bolha existencial” que o filme propositadamente não rompe. De novo, vemos o limiar dela numa cena com Dorothea Williams, só que dessa vez ela cuidadosamente é preservada pelo enredo: é a cena do taxi. Quando a Número 22, que está no corpo do Joe, ergue a mão para pedir um taxi, ela ouve do Joe (no corpo do gato) isso aqui: “normalmente isso já é complicado, com roupa de hospital então…”. E para a surpresa de todos, o taxi estaciona. Mas logo vemos que ele parou por um acaso: descia dele, no mesmo ponto, a Dorothea Williams.

Poucos devem ter notado o papel dessa “coincidência” no filme, mas é um fato que ela foi necessária para não racializar o protagonista… Se o taxi não parasse, seria um exemplo típico de uma narrativa da racialização que cotidianamente atinge negros e negras. Acredito que esse cuidado tenha sido proposital dos produtores do filme pois em nenhum momento Joe é racializado. Somente no “normalmente isso é difícil…” que ele fala é que vemos uma referência a isso. Por que isso acontece? Porque Joe está numa “bolha negra”. De cultura negra. Do povo negro. Da diáspora negra. Ou seja, Joe está numa bolha existencial da negritude.

Um dos mais importantes intelectuais negros, Frantz Fanon, escreveu muito sobre isso. O fato dele ter tido diálogo profundo e pessoal com Sartre ajudou seus textos a sempre abordarem o dilema existencial do negro. Aqui vai minha única citação desse texto – porque o quero leve, como o filme foi. Como aponta Deivison Mendes Faustino num artigo sobre a influência do existencialismo no pensamento fanoniano, o fracasso diante da realização de um sonho pode ser justamente o que se necessita para conquistá-lo:

Outra categoria fenomenológica importante presente em Fanon é a ideia de “paradoxo existencial” de Søren Kierkegaard (1813-1855). Paget Henry chama a atenção para a importância do fracasso em Fanon. O paradoxo existencial em Kierkegaard, lembra Gordon, é o lugar onde uma conquista requer um fracasso ou, como se vê em L’Être et le Néant, a boa-fé é ironicamente uma forma de má-fé. Tanto a falha contida na tentativa frustrada de reconhecimento – o não ser – que é, ao mesmo tempo, o predicado para o movimento dialético, até o autoengano da autoinscrição indentitária, que não deixa de ser, paradoxalmente, a aceitação invertida da marca que o outro lhe impôs, compõem paradoxos discutidos por Fanon.

Deivison Mendes Faustino in “SARTRE, FANON E A DIALÉTICA DA NEGRITUDE: DIÁLOGOS ABERTOS E AINDA PERTINENTES”ABERTOS E AINDA PERTINENTES”

Grosso modo, o conceito de “má-fé” na filosofia existencial pode ser entendido como “mentir para si mesmo”. No filme, essa má-fé se materializa na oportunidade de Joe ser professor efetivo: se aceitasse, Joe estaria condenado a uma vida de má-fé e, no enredo do filme, viraria “uma alma penada”. Já boa-fé é, também de forma simples, a autenticidade. O estar pleno de si. Essa boa-fé surge em Joe quando ele toca e “viaja tocando”. Explicado tais conceitos, podemos dizer que esse trecho citado praticamente descreve a “pergunta-motivo” que sustenta todo o enredo de Soul, que é a pergunta da Número 22: “por que alguém que só fracassou a vida toda quer voltar com tanta vontade a viver?”. É por causa dessa dúvida que ela segue Joe em sua jornada.

Para finalizar, acredito que o que chamei de “bolha da negritude” foi cuidadosamente poupada do “alfinete” da racialização porque “negro como raça” é necessariamente uma incursão na má-fé, como aponta Fanon em muitos momentos. É um fato que ele criticava o movimento da negritude por muitos nesse movimento também incorrerem na má-fé com posturas como: negro necessariamente tem que gostar jazz, gostar de referências africanas, etc. Fanon criticava esse essencialismo de parte do movimento da negritude e contribuiu para muitos de nós negros entendermos nossa identidade diaspórica sem que com isso caiámos nessa outra armadilha (má-fé) essencializante. O filme, de forma extremamente sutil, aborda isso: o barbeiro fala “que legal que não conversamos somente de jazz hoje, Joe.” depois do papo promovido pela Número 22 no corpo de Joe.

Enfim, Soul é um manifesto da autenticidade (boa-fé) que nos põe em alerta para não sermos meros reféns de nossos sonhos (má-fé) e, de forma sutil para alguns e não tão sutil para outros, um manifesto para negros e negras se livrarem da má-fé da racialização sem cair em outra: a má-fé do essencialismo. Isso não significa deixar de ser negro ou negra, mas sim ser negro, amar a origem na luta de seus antepassados, só que sem tornar isso um obstáculo para novas experiências, combinações, estilos, etc. Quem duvida que o Joe continuará tocando jazz, mas começará também a buscar novas paixões, mesmo a paixão aparentemente mais simples de um folha de árvore caindo assim que põe os pés na calçada? Fim.

Alexandre Reis é professor de língua portuguesa em Santos, no litoral de São Paulo.

Texto publicado originalmente no blog Diário Materialista: escritas experimentais.

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