Os negros sofreram com o preconceito para serem aceitos nos times oficiais e com o racismo; Se isso aconteceu com os homens, com as mulheres o caminho foi ainda mais longo

Texto / Valerya Borges | Imagem / Laura Zago / CBF | Edição / Simone Freire

Considerada a melhor seleção feminina da América do Sul, sempre bem posicionada no Ranking da Federação Internacional de Futebol (FIFA), ocupando atualmente a 6ª posição, e tendo como capitã a jogadora considerada a melhor do mundo por cinco anos consecutivos, a Seleção Brasileira de Futebol Feminino estreou na Copa do Mundo, nesta domingo (9), com um placar de 3 X 0 contra a seleção da Jamaica.

Um ótimo resultado para um time que nas últimas décadas teve que travar batalhas imensas para vencer a invisibilidade e a indiferença de dirigentes, público e patrocinadores.

A história de luta da Seleção é o retrato da trajetória das mulheres no futebol brasileiro desde o início. Trazido ao Brasil pelo descendente de ingleses Charles Muller, logo de saída, o futebol, introduzido na elite branca, rapidamente conquistou os pretos e pobres.

Com sua natureza livre e a possibilidade de ser praticado nas ruas reunindo grupos de amigos e vizinhos, o futebol desde sempre embalou os sonhos dos meninos e meninas negros por aqui, país que se tornou um dos sinônimos do esporte no mundo.

Ao longo da história, os negros sofreram com o preconceito para serem aceitos nos times oficiais e com o racismo, ainda tão presente nos campos pelo mundo todo. Se isso aconteceu com os homens, com as mulheres o caminho foi ainda mais longo.

Os registros das primeiras partidas de futebol feminino datam dos anos 20, nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Norte. Sem caráter oficial, eram anunciadas como atrações de circo. Futebol feminino era performance, não esporte.

As mulheres seguiam jogando bola, mas a prática, sempre rodeada de preconceito, era feita nas periferias. Se para o universo feminino o futebol chegou com um carimbo da elite, para as mulheres, a modalidade sempre esteve associada à vida na periferia.

Eram nos bairros afastados que elas, burlando os nãos, seguiam entregues à paixão pelas quatro linhas. No início dos anos 1940, foram registradas algumas partidas femininas no Pacaembu. Aceno de mudança? Pelo contrário! Quando as partidas chegaram ao conhecimento da opinião pública, os arautos da moral e dos bons costumes iniciaram uma campanha para afastar as moças daquilo que era definido como “esporte violento”, “coisa de homem”, “anti-feminino”.

Em um mundo em que lugar de mulher era em casa, cuidando dos filhos ou, no máximo, se preocupando com o sustento da família – já que para as mulheres negras periféricas ficar em casa e prescindir do trabalho nunca foi uma opção –, era demais aceitar que times compostos exclusivamente por moças ousassem ocupar um espaço que já era sagrado para o esporte-símbolo do universo masculino.

A campanha deu certo e em 1941, logo após a criação do Conselho Nacional de Desportos (CND), entidade que prometia regulamentar o esporte no país, publicou-se um decreto lei que dizia que as mulheres não deviam praticar esportes que não fossem adequados à sua natureza. Claro que o futebol se enquadrava na descrição. Com isso, o futebol feminino caía na ilegalidade, onde permaneceu até 1979, quando a proibição foi revogada.

Não era mais ilegal, mas continuava sendo “imoral”. O fim da proibição por escrito não mudou a realidade das jogadoras, que seguiam sem incentivo, restritas a campos de várzea sem estrutura. O futebol feminino seguia no limbo. Só em 1983 o futebol feminino saiu do limbo. Neste ano, a modalidade foi regulamentada, o que queria dizer que era possível competir, usar estádios, criar calendários. Em meados dos anos 80, começam a surgir os primeiros times femininos, criados por clubes.

Vencedoras desde o princípio

Foi neste momento, mais especificamente em 1986, que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) voltou sua atenção para as mulheres. 71 anos após sua criação, a entidade, que nasceu para cuidar do futebol no país, montou o primeiro time de futebol composto por mulheres.

Mas a primeira convocação oficial aconteceu somente dois anos depois, em 1988, especificamente para disputar a “Women’s Cup of Spain”. Após derrotar Portugal, França e Espanha, as brasileiras venceram a competição e voltaram vitoriosas pra casa.

Ainda em 1988, a FIFA realizou, na China, o primeiro torneio oficial feminino, batizado de Women's Invitational Tournament. O Brasil esteve presente com uma seleção formada pelas bases dos poucos clubes que tinham times femininos como o carioca Radar e o paulistano Juventus. Sem uniformes oficiais – as jogadoras embarcaram com uniformes não usados pela seleção masculina –, o Brasil ficou com a medalha de bronze, conquistada nos pênaltis.

A partir daí, o futebol feminino começou a ganhar contornos oficiais. Mas tudo ainda de maneira bastante tímida. Foi assim que, em 1991, a seleção brasileira de futebol feminino disputou a primeira Copa do Mundo FIFA de Futebol Feminino. Mais uma vez, o país sede foi a China.

A primeira Copa disputada pelo time feminino do Brasil também foi a primeira Copa de uma das jogadoras mais importantes na história da modalidade em nosso país: Pretinha. Aos 16 anos, a atacante fazia sua estreia no time oficial, na época comandado por um homem, Fernando Pires.

Ao longo dessas quase três décadas, o time foi comandado por uma mulher apenas uma vez até o momento: a ex-zagueira Emily Lima esteve à frente da seleção entre os anos de 2016 e 2017. Apesar de um aproveitamento de 56% em 13 jogos, a treinadora foi substituída pelo técnico Vadão, que segue à frente da equipe até hoje e está no comando da seleção durante a participação nesta oitava Copa.

Dos 11 técnicos dos quais se encontra registro à frente do time, 10 são do sexo masculino. Aliás, os homens dominam o comando da seleção; na comissão técnica que embarcou para a França há apenas uma mulher, a auxiliar técnica Beatriz Vaz.

Presente, mas invisível

O Brasil esteve presente em todos os torneios realizados pela FIFA desde 1991. Além disso, o time feminino brasileiro esteve presente em todas as Olimpíadas desde 1996, quando o futebol feminino virou modalidade oficial e disputa torneios internacionais e nacionais desde os anos 90.

Mas isso nunca foi garantia de mobilização. Há alguns anos, empresas começaram a voltar suas atenções para o time feminino, mas com presença modesta e volumes de investimentos bastante tímidos se comparados ao time masculino.

Este ano, tanto mídia quanto patrocinadores parecem ter começado a descobrir o potencial das nossas atletas. Para este mundial, diversas empresas buscaram a CBF interessadas em patrocinar a seleção. Mas esse movimento só aconteceu após uma das marcas fazer uma espécie de convocação, chamando a atenção das empresas para a necessidade de apoiar o time.

A mídia também parece atenta, já que uma grande emissora de TV aberta vai transmitir o mundial pela primeira vez. Mais da metade das convocadas são negras, mantendo a lógica do futebol masculino, mas, ao contrário dos homens, os salários das atletas continuam baixos e a maior parte das jogadoras ainda depende de bolsa auxílio para sobreviver.

O Brasil, que para a cada embate da Seleção masculina, ainda percebe pouco a feminina. No momento anunciado como ponto de virada para as mulheres no futebol, o caminho ainda parece longo até que o futebol feminino seja alçado a paixão nacional.

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