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Texto: Secretaria de Mulheres Quilombolas da CONAQ (Coordenação Nacional das Comunidades Quilombolas)  / Imagem: Divulgação


Nós, mulheres quilombolas somos parte das 49 milhões de mulheres negras que compõem um quarto da população do Brasil e, na semana em que se celebra o Dia Nacional da Consciência Negra, estamos mobilizadas junto a guerreiras dos mais diversos seguimentos sociais, em torno da edição 2015 da Marcha Nacional das Mulheres Negras – Contra o racismo, a violência e pelo bem viver – para dar visibilidade ao que enfrentamos cotidianamente em cada canto do país.

O Brasil tem a maior população negra fora da África (aproximadamente 100 milhões de pessoas) e nós, mulheres quilombolas, remanescentes diretas dos povos africanos, estamos distribuídas em uma população de cerca de 130 mil famílias. Somos mães, filhas, professoras, estudantes, mestras de saberes, somos lideranças de territórios em conflitos com as mais distintas situações.

Mantemos uma das culturas identitárias da nação em sua matriz, com os conhecimentos conforme recebemos de nossas ancestrais e, apesar disso, somos invisibilizadas por uma história conveniente às elites, por interesses de economia nacional, por um Estado que pouco se preocupa em reparar o que não nos foi garantido em séculos de história.

Por meio da Marcha ressaltamos questões que julgamos relevantes de serem aprofundadas pela sociedade. Por exemplo, as disparidades sociais entre homens e mulheres e entre mulheres negras e não negras. Em linhas gerais todas as mulheres negras correspondemos nos dados de violência doméstica, segurança pública e mortalidade, aos mais altos índices enquanto vítimas. Em nossas buscas por proteção, auxílio ou orientação somos mais uma vez expostas, dessa vez ao que é hoje conhecido como racismo institucional.

Nos territórios quilombolas sofremos também com os conflitos agrários, apesar de todas as formas de preconceito já estabelecidas estamos ainda mais vulneráveis devido às lutas enfrentadas em defesa de nosso espaço ancestral. Estamos cansadas, nós e nossas famílias, de sermos criminalizadas pela posse das terras que herdamos, quando sequer são lembrados o que nos foi tirado a partir da escravização.

Contudo, nos adequamos a esta terra chamada Brasil e pelo amor que aprendemos a dedicar somos hoje consideradas nativizadas deste país. Aqui, tivemos filhos, netos, bisnetos. Estamos nas quarta, quinta e até sexta gerações, contribuindo para o desenvolvimento de uma sociedade da qual somos co-fundadoras e nossa luta contemporânea é por reconhecimento, por cidadania e por respeito às nossas vidas.

O direito de existir e de acesso às políticas que as mulheres quilombolas temos está atrelado ao acesso à terra, base à sobrevivência, à manutenção de nossa identidade étnica. Queremos a garantia da propriedade de nosso território e sua proteção como patrimônio. Só assim teremos o direito de acessar todas as demais políticas desenvolvidas para as comunidades quilombolas conforme a legislação vigente.

Bem como nossas irmãs indígenas, ribeirinhas, geraizeiras e de tantas outras identidades vivemos em harmonia com a terra e somos preservadoras dos biomas de nosso país. Em nossa dedicação à preservação das florestas nos convertemos em direito da população nacional na medida em que protegemos as nascentes, a fauna, a flora.

Para alcançar o bem-viver, reivindicamos o direito de sermos diversas em nossos modos de ser, de crer, de pensar e de ir e vir. De sermos reconhecidas pelo Estado e de participar dos resultados econômicos do que ajudamos a produzir.

Contamos um breve resumo de nossa luta e, na Marcha, nos integramos a outros movimentos de mulheres negras que nos fortalecem em nossos objetivos comuns. Na Marcha a luta independe do modo de vida. Enquanto marchamos somos barreira ao racismo, a todas as formas de discriminação, estamos em busca de nossos direitos!

Estamos em Marcha:

♣ pelo fim do femicídio de mulheres negras e pela visibilidade e garantia de nossas vidas;

♣ pela investigação de todos os casos de violência doméstica e assassinatos de mulheres negras, com a penalização dos culpados;

♣ pelo fim do racismo e sexismo produzidos nos veículos de comunicação promovendo a violência simbólica e física contra as mulheres negras;

♣ pelo fim dos critérios e práticas racistas e sexistas no ambiente de trabalho;

♣ pelo fim das revistas vexatórias em presídios e as agressões sumárias às mulheres negras em casas de detenções;

♣ pela garantia de atendimento e acesso à saúde de qualidade às mulheres negras e pela penalização de discriminação racial e sexual nos atendimentos dos serviços públicos;

♣ pela titulação e garantia das terras quilombolas, especialmente em nome das mulheres negras, pois é de onde tiramos o nosso sustento e mantemo- nos ligadas à ancestralidade;

♣ pelo fim do desrespeito religioso e pela garantia da reprodução cultural de nossas práticas ancestrais de matriz africana;

♣ pela nossa participação efetiva na vida pública.

Buscamos num processo de protagonismo político das mulheres negras, em que nossas pautas de reivindicação tenham a centralidade neste país. Conclamamos, a todas as mulheres negras, para que se juntem a esse processo organizativo, nos locais onde estiverem, e a se integrarem nessa Marcha pela nossa cidadania.

Imbuídas da nossa força ancestral, da nossa liberdade de pensamento e ação política, levantamo-nos – nas cinco regiões deste país – para construir a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, para que o direito de vivermos livres de discriminações seja assegurado em todas as etapas de nossas vidas.

 

Comitê Impulsor Nacional da Marcha das Mulheres Negras

 

Contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver 2015

 

Secretaria de Mulheres Quilombolas

 

Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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