fbpx

Em artigo, Erica Malunguinho explica que o Estado tem tanta responsabilidade pela morte da população negra quanto a sociedade civil. “Para saber quem é você na fila do genocídio se pergunte e questione: onde estão os negros? Observe seu círculo social”, provoca a deputada paulista

Texto: Erica Malunguinho* | Imagem: Mídia NINJA

O genocídio é um fato mais do que dado. Os números do Atlas da Violência e do Anuário Brasileiro de Segurança Pública registram o que a experiência vivida pela população preta e periférica já sabem. Eu, por exemplo, sei de incontáveis crianças que cresceram comigo e que agora não estão mais vivas. Todas, obviamente, morreram de mortes não naturais. Amigas e amigos pretos também têm esses dados. Gente que some, deixando de existir por uma regra que habituamos ver.

Todos sabemos: há um genocídio em curso. Isso não é um fenômeno, e sim um projeto que tem raízes profundas na História do Brasil. A escravidão e a ausência de políticas públicas de inclusão, acrescidas da ojeriza às pessoas negras, resultaram no cenário em que somos super representados nas mazelas e sub-representados no que chamo de sociabilidade saudável.

O assassinato de George Floyd tirou do segredo palavras nunca ditas na imprensa brasileira: “Policial branco mata cidadão negro”. Tratando-se de acontecimentos semelhantes no Brasil, seria possível uma afirmação desta ordem? A resposta é sim e não. O teor de profundidade que um sistema de opressão como o racismo opera e como ele se exprime à moda brasileira, não seria suficiente para noticiar com precisão: Estado branco assassina cidadão negro.

Por que digo Estado? Além de haver muitos pretos nas corporações militares, há um jogo muito bem desenhado que encontra forças no mito sobre a diversidade brasileira: o bem conhecido mito da democracia racial, cujo um dos efeitos escamoteou convenientemente para a população branca os entraves de uma relação de poder violenta, bem como para os próprios negros sua real condição nessas terras.

A esse respeito, chama atenção os resultados da Pesquisa Nacional Por Amostras e Domicílios (PNAD), de 1976, cujo foco era averiguar mobilidade social e a cor das pessoas. Naquela pesquisa, foram registrados 136 cores. Qualquer caminho parecia melhor do que ser “negro”. Aliás, quem se sentiria confortável de estar associado a uma narrativa iniciada nos navios negreiros, que determinou a cultura negra como inferior: seja pelos traços físicos, seja pelo lugar de precarização econômica e social que é consequência dos mesmos?

Essa informação também desvela nuances sofisticadas do racismo, que perpassa pela noção de colorismo que, a grosso modo, diz respeito de quanto mais escura for a pele, menos oportunidades e mais associações negativas. É em grande parte, do preto escuro que escondem a bolsa e relacionam ao macaco. É importante afirmar que o colorismo não diminui a negritude de ninguém, mas que produz intersecções diferenciadas num país com letramento racial ainda incipiente.

O fato é que, além de um Estado branco, temos um modo operante branco, uma cultura de sociabilidade embranquecida. Falo “cultura de sociabilidade” porque quando se trata de cultura como expressão artística e imaterial, nós pretos somos bem vindos no carnaval, no samba, no maracatu e tudo que entretenha a branquitude.

Nesses casos, negras e negros são bem vindos se participarem como fazedores, mas nunca como gestores e, principalmente, obtendo os ganhos econômicos que toda essa animação produz. Quando se pensa em políticas públicas, o modelo se repete: pessoas negras são concebidas como destinatárias dessas políticas e nunca como escreventes, políticos, gestores e pensadores.

Assim, o Estado se soma à conveniência dos privilégios garantidos desde tempos coloniais. A Lei de Terras, de 1850, é um excelente exemplo de como se deu a divisão da posse e do direito fundamental à moradia. Essa legislação, criada no contexto internacional da pressão para o fim da escravidão, definiu que o acesso às terras no Brasil se daria por via da compra. Imaginem vocês uma pessoa escravizada, forçada ao trabalho incessante em condições sub-humanas e sem renda, adquirindo um lote?

Naturalizaram a ausência de pessoas pretas em espaços de sociabilidade saudável. Funciona assim: por um lado, somos super representados nos presídios, na situação de rua, nos empregos menos remunerados, por outro, e diretamente proporcional, somos sub representados nas carreiras com salários avantajados como engenharia, judiciário, medicina, tanto quanto na TV, jornais, na política, nas grandes empresas e nas universidades como docentes e reitores. As cotas estudantis, conquistadas a duras penas pelos Movimentos Negros, de certa forma, modifica o cenário discente, apenas.

O Estado tem tanta responsabilidade quanto a sociedade civil. Para saber quem é você na fila do genocídio se pergunte e questione: onde estão os negros? Observe seu círculo social. Se nós negras e negras estivermos neles apenas servindo, a lógica permanece. A nossa pele não deve determinar nosso trabalho, nossas escolhas e, principalmente, de estar vivo ou não. Se pergunte e pratique o antirracismo!

Movimente essa cena, assumindo sua responsabilidade neste processo. Pretos, em condições saudáveis e dignas de sociabilidade, deslocam economicamente e culturalmente uma rede gigante de outras pessoas pretas, que encontram caminhos para uma vida longe dos estigmas criados e alimentados pelo racismo.

Para resumir: é bom para todo mundo. “Vidas negras importam”, não exclui o direito à vida de ninguém, e sim escancara a participação do conjunto da sociedade na abjeção destas vidas. E, por fim, não achem que somos um corpo-massa-sólida-única. Ao contrário, somos subjetividades diversas, de espiritualidades ou não, mulheres e homens cisgênero, transgêneros, de sexualidades múltiplas, de formas e tamanhos infinitos. Humanidade que fala, né? Não é teoria, é prática desconstrutiva. Vidas Negras importam vivas!

* Erica Malunguinho é deputada estadual (PSOL-SP), educadora, artista, mestra em Estética e História da Arte e pernambucana.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

Apoie o Alma Preta e nos ajude a continuar contando todas essas histórias.

Vamos fazer jornalismo na raça!

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com