O Alma Preta conversou com a psicóloga Leila Grave sobre autocuidado para pessoas negras e tendências de comportamento no cenário político atual de todos os lados

Texto / Thalyta Martins
Imagem / Reprodução Terapretas Terapias Naturais

No cenário político atual as redes sociais, em resposta a ataques diretos a LGBTQI’s, mulheres, indígenas, negros, nordestinos, entre outros grupos, dão espaço a cada vez mais manuais e listas com dicas de segurança, autodefesa, resistência, luta coletiva, trabalho de base e órgãos de apoio em caso de ato consumado. Diante disso, o Alma Preta sentiu também a necessidade de contribuir para o debate e, para isso, entrevistou a psicóloga Leila Grave, que contribuiu indo na contramão da maioria. Confira a entrevista na íntegra.

Alma Preta: Qual é a tendência de comportamento nesse cenário político atual?

Leila Grave: Enquanto psicóloga e mulher negra, o que tenho visto são pessoas com muito medo da instabilidade político-econômica do país, bem como das violências direcionadas às mulheres ativistas e à população negra, indígena, LGBT. Essas violências sempre existiram, mas agora foram verbalmente validadas pelo futuro presidente da república. Desta forma, nos espaços coletivos onde tenho estado e nos atendimentos individuais enquanto terapeuta, tenho visto que o desespero tem tomado corpo e as pessoas dos citados segmentos têm apresentado sérios comprometimentos físicos/emocionais: humor deprimido, crises de ansiedade (isso inclui pânico), insônia, dores, refluxo, palpitação, pico hipertensivo, fadiga. O desespero pela ameaça à própria existência em um cenário de voraz retrocesso tem me feito perceber também algumas tendências de comportamento: a saída de campo (pessoas planejando migrar para outros locais); a busca por outras alternativas de trabalho, uma vez que diversas áreas estão ameaçadas, inclusive a acadêmica; paralisia, que acredito que seja um nível de maior adoecimento, quando a pessoa não encontra recursos para se ver de outras formas neste cenário; e organização coletiva, ou seja, categorias que estavam mais dispersas e hoje estão se organizando em torno das necessidades coletivas, bem como a congregação de vários coletivos já existentes e a retomada da atuação política de base.

Falando da área da Psicologia enquanto ciência e profissão, ela possui uma dívida no que se refere às expressões dos sofrimentos sociais e suas repercussões na construção das subjetividades diversas. Falar de racismo na Psicologia, por exemplo, é algo mais recente para um núcleo de saber cujas bases foram brancas e classistas. Então a Psicologia tem se lançado neste tipo de produção de conhecimento só mais recentemente. Dito isto, o que esperar da Psicologia em um cenário de fascismo, por exemplo? Embora a minha trajetória enquanto psicóloga tenha sido no campo social e considerando os sofrimentos nas relações de poder e violência, sinto que nós enquanto categoria não desenvolvemos um repertório para atuar em um cenário fascista. Faço este preâmbulo pois acredito que este momento atual também traz uma “tendência de comportamento” para a Psicologia, pois parte dela está sendo forçada a se rever politicamente e a dar mais atenção aos sofrimentos oriundos do racismo, da misoginia, da LGBTfobia.

AP: Quais dicas de autocuidado você dá como profissional?

Leila Grave: Na segunda-feira seguinte ao resultado do 2º turno, vi muitas mensagens nas redes sociais sobre resistência e articulação política. Fiquei me perguntando: “Mas já? E que horas vamos viver o luto?”

Compreendo a urgência neste momento político atual, mas o que vi foram pessoas trabalhando muito nas eleições nos movimentos “vira voto” e, obviamente, pessoas exaustas. Então acho que, primeiramente, é preciso dar espaço para o luto diante desta grande perda que vivemos. A primeira fase do luto é aquela em que a gente chora mais e se reserva. Então, na medida do possível da rotina de cada pessoa, este é, para mim, um primeiro passo do autocuidado: repousar este corpo que trabalhou e resistiu muito e acolher a tristeza. Autorizar-se a ficar na cama um pouquinho mais, em um ócio que, ao meu ver, é necessário para o reestabelecimento das energias.

Um segundo ponto é o uso das redes sociais e APP’s de mensagens instantâneas. Sabemos do que este novo governo é capaz. Mas o compartilhamento de notícias e mais notícias de terror geram ainda mais terror. A ideia não é viver em um mundo paralelo, mas selecionar o que irá compartilhar, pensando no objetivo daquele compartilhamento. Penso que o envio de ações criativas, de diferentes formas de organização ou mesmo do que a oposição partidária tem construído podem ser mais frutíferas neste momento.

Além disso, é fundamental a organização da rotina para respeitar ações que parecem muito pequenas, mas extremamente importantes: ter tempo para atender as necessidades de cuidado com a casa; organizar o tempo e materiais das atividades diárias, a fim de não se atropelar e sair com muita pressa e agitação; o cuidado, a qualidade e o tempo destinado a cada refeição; a ingestão adequada de água, pois ajuda no funcionamento do intestino e rins, bem como evita enxaqueca; ter faixa de horário para ir dormir, prezando por atividades que não gerem agitação mental ao deitar (desconectar-se do celular, tomar um chá que não tenha substâncias estimulantes, ler um livro, fazer uma automassagem, meditação ou respiração, evitar ligar TV); realizar práticas corporais / atividade física; ter espaço para algum momento de ócio e também de lazer, que não precisem envolver conteúdos do cenário político, como livros e filmes com outros temas; ter alguns rituais que envolvam sua proteção psíquica para não estar totalmente vulnerável emocionalmente aos fatos do dia a dia (isso pode envolver espiritualidade para quem gosta ou acredita); e o que eu acho uma das premissas fundamentais: assumir somente o que você acha que consegue executar. Acho que existe uma crença na militância de que precisamos passar por cima de nós mesmxs para estarmos full time conectadxs à luta coletiva. Mas todxs nós temos limites e respeitá-los é uma atitude de autocuidado. E o autocuidado é um ato político, pois cuidar da coletividade não é possível sem estar cuidadx. Para as pessoas que estão tendo prejuízos em suas atividades básicas e rotineiras ou mesmo no campo relacional, vale à pena pensar em buscar terapia.

AP: Na sua opinião, pessoas negras precisam olhar mais para essa questão do autocuidado? Se sim, por que?

Leila Grave: Sim. O nosso processo histórico não favoreceu a cultura do autocuidado entre as pessoas negras. Diante da urgência de sobreviver e resistir do povo negro escravizado (seja pelo embate duro e direto, seja pela comida, música, capoeira, humor, criatividade, etc) e diante das políticas de marginalização após o período escravista, atender às necessidades mais subjetivas parece ter ficado em último plano.

As mulheres negras, são atravessadas pelas exigências que já conhecemos, por isso, sequer aprenderam a escutar essas necessidades mais íntimas. O que vejo hoje são mulheres com dificuldade de pedir ajuda, que estão sobrecarregadas... Não se sentem autorizadas a assumir que também precisam ser cuidadas e ter espaço para cuidar de si. E muitas de nós carregamos isto ainda hoje, pois é algo que atravessa inúmeras gerações, mesmo que ninguém tenha dito com essas palavras “Você não pode se cuidar”. Percebo muita culpa e sentimento de não merecimento quando essas mulheres fazem movimentos de deixar de investir um pouquinho de tempo e energia em terceirxs para se cuidar ou mesmo investir dinheiro em algo que gosta e que as faz bem.

Ainda nesta intersecção da racialidade e gênero, percebo que os homens negros também são atingidos pelo silenciamento de suas demandas subjetivas em nome da virilidade e de outras premissas direcionadas a este corpo homem-negro.

Acrescentando mais um fator, o de classe, já escutei diversas vezes a seguinte frase: “Depressão é doença de rico”, como se, diante da busca pelo atendimento à sobrevivência, deprimir fosse luxo. Então acredito que precisamos dissolver este tipo de discurso construindo outras lógicas, outras crenças, principalmente a de que NÃO QUEREMOS SOBREVIVER, mas a de que QUEREMOS VIVER, de uma forma que consigamos aliar nossas necessidades básicas às de segurança, de afeto, de relações interpessoais respeitosas, de conhecimento, de trabalho e renda.

Sobre a profissional

Leila Grave é uma mulher negra, baiana, nordestina, psicóloga há 9 anos, graduada na Universidade Federal da Bahia, especialista em Psicologia e Ação Social e especialista em Saúde da Família. Atua no Sistema Único de Saúde (SUS) e também faz psicoterapia para mulheres. É integrante da Rede MuitasPsi, coletiva de psicólogas feministas em Salvador.

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