A jornalista Marina Sá escreveu sobre uma situação de violência sofrida por um homem branco, que a via apenas como um corpo sexualizado

Texto / Marina Sá
Imagem / Divulgação

“Sirva-me! Vá, coloque um pouco de café, mas, veja bem, não coloque muito, já está tarde da noite e você sabe bem como cafeína me deixa. É só um pingado tradicional. Estou levemente enjoado do mocha, é preciso diversificar às vezes. Cá pra nós, café com leite é muito bom, mas ainda assim não se compara a um mocha. Para o meu paladar, café nenhum está à altura do leite. Ei, calma! Sinto saudades do pingado, mas não é para tanto. Mais leite, menos café. Isso, isso! Ótimo!”.

O diálogo ecoou em minha cabeça por semanas. Um senhor de engenho ordenando uma escrava a servir, por obrigação, aquilo que não era a sua primeira opção. Lembrei-me, então, da propaganda da Parmalat estrelada por casais inter-raciais nus. O ano era 1997 e a marca lançava seu café solúvel que carregava o slogan O café à altura do nosso leite. A peça publicitária ganhou o Prêmio Abril de Publicidade naquele mesmo ano. Conseguiu ligar os pontos? Espero que sim.

Durante toda a minha vida fui comparada ao café pelo tom da minha pele. O incômodo só chegou no dia em que ouvi de um colega de trabalho: “Eaí, quando vamos fazer aquele pingado?”.

As palavras cortaram meus ouvidos e minha cabeça girou. O rapaz era o estereótipo social de beleza: loiro, olhos claros, alto e forte. Ele era o leite e eu o café. A pergunta foi sussurrada em meu ouvido enquanto a indecência segurava minha cintura e o bicho faminto se aproximava. Esquivei-me, pedi que se afastasse e me deixasse em paz e em resposta, o disparo “você diz isso agora, mas depois de dois copos de cerveja, sai comigo”.

Foi depois desse episódio que os ecos do diálogo entre o senhorzinho e a preta começaram a consumir meus pensamentos. Senti como se tivesse entrado num túnel do tempo e fosse, de repente, obrigada a servir meu café não-tão-bom-assim. “Branca para casar, mulata para fornicar e preta para trabalhar”, materialização do inconsciente coletivo nas palavras de Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala. Senti-me a tal da mulata que só serve para sanar desejos carnais, até porque, mulata não reproduz – assim como a mula.

Pelas testemunhas que viram a cena fui incentivada a contar aos superiores sobre o ocorrido. O dito cujo teve o pago que merecia. Na época, me arrependi, não queria tê-lo prejudicado, me culpei, chorei, berrei, descabelei. Pensei em quantas mulheres são abusadas diariamente e sentem a mesma culpa. Anos se passaram e isso ainda queima em minha memória, hoje, felizmente, sem culpa. O tempo me ensinou que o problema não é a roupa ou o jeito de falar de uma mulher, mas sim a cultura machista em que estamos inseridos, que nos diz exatamente o contrário e faz as nossas garotas sentirem culpa por exigirem respeito e justiça.

Antes, não percebia essa faceta que une racismo e machismo. Achava graça e até gostava de ser chamada de Globeleza. Meu reconhecimento e auto-afirmação foram tardios. Tive que me magoar uma porção de vezes e ouvir de pessoas não-negras que estava sendo vítima de racismo, para me dar conta do que acontecia.

Pergunto-me se aquele rapaz seria tão abusado e abusivo com outra garota, uma que se encaixasse em seu mesmo estereótipo. Certamente não. A hiperssexualização da mulher negra é algo que eu vivo na pele, literalmente. Um karma cor-de-café, amargo como os olhares, adoçado com as piadas. Acompanhamento da suposição de que a mulata quente está aqui para esquentar o leite frio e dar tudo que as outras não deram.

A reportagem foi originalmente publicada na Revista AFROCULT. Criada como trabalho de conclusão de curso das jornalistas Giovanna Monteiro, Marina Sá, Mayara Oliveira e Thais Morelli na Universidade Anhembi Morumbi, a revista visa ser um instrumento didático para o auxílio do combate ao racismo no país.

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