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Texto: Miriam Alves / Ilustração: Moska Santana


O carnaval em Belo Horizonte tem ganhado destaque nos últimos anos. O que começou com pequenos blocos de rua, em tom de protesto e festejo, transformou-se em um mega evento cultural, com direito a muita apropriação cultural ao tom da tez alva de Baianas Ozadas, ridicularização da cultura negra e principalmente das mulheres negras, com fantasias de “nega maluca” e “Black face”. Desgourmetizar o carnaval tem sido um verdadeiro desafio para os blocos afros, que vem tentando protagonizar a cultura negra. Infelizmente, não há um amplo discernimento entre brincadeira e opressão, fantasia e discriminação, e o racismo e o machismo ganham destaque na folia!

No reino da “democracia racial” vale tudo, até mesmo sair em desfile de bloco com o filho fantasiado de macaco. Qual o problema nisso? Vocês negros vêem racismo em tudo? A criança esta feliz? Os pais amam a criança...

Bom, em nenhum momento foi colocado em cheque o amor dos pais pelo filho. É preciso qualificar o discurso e entender que ninguém esta imune ao racismo, ou reproduzir qualquer tipo de opressão. Parece que cada vez que surge um assunto polêmico relacionado a um caso de racismo, todo mundo ganha diploma de especialista para falar sobre o assunto. E não é bem assim, compreender o racismo é um passo fundamental para não sair disparando “achismos”.

O racismo é um sistema de opressão que se baseia na inferiorização de um grupo étnico pelos seus traços físicos ou culturais. O racismo é estrutural, pois perpassa por diversas relações sociais ou institucionais, gerando desigualdades e garantindo a manutenção de privilégios de um grupo hegemônico. É necessário reconhecer que traços de uma herança histórica de negação e inferiorização não é vitimismo. Vivemos em um país com extrema desigualdade sócio-racial, portanto, é necessário ter alteridade e altruísmo suficiente para se colocar no lugar do outro.

O mito da democracia racial serve justamente para isso, velar o racismo e negar a sua existência mesmo quando estamos submersos nele. Se alguém comete algum ato discrimatório, dificilmente se assumirá racista. Porque chegamos a um nível de naturalização, que o problema está em quem sofre e não em quem comete o ato. Logo, a vítima se torna o agressor e o agressor se torna a vítima.

O que queremos dizer é que não é natural comparar um negro a um macaco. Isso é fruto de um processo histórico e cultural de inferiorização da raça negra através de teorias eugenistas, difundidas no século XIX no Brasil e na Europa. Animalizar ou objetificar o negro é destituí-lo de sua humanidade. Quando não enxergamos o outro enquanto semelhante ou o inferiorizamos na escala evolutiva, tudo o que fazemos é reafirmar auschwitz e apartheids. Abrir mão dos privilégios e desconstruir-se é o primeiro passo para constituir relações mais humanitárias.

Não há neutralidade em nossas ações, precisamos nos politizar, ter mais responsabilidade naquilo que nos propomos a fazer. Será que é natural personificar uma criança negra em um papel de macaco? Expô-la a uma situação vexatória? (Não creio). Ao realizar uma ação que gera constrangimento e dor, o casal cometeu Injúria Racial. Não é fácil assumir a paternidade de uma criança negra em um país extremamente racista, ainda mais quando os pais são brancos, ou um casal inter-racial. Sabemos que a representatividade é fundamental nessa etapa da vida.

Mateus tem dois anos e os pais têm proporcionado momentos lúdicos à criança. Em sua festa de aniversário, por exemplo, o fantasiaram de “O pequeno príncipe”. Mas e quando Mateus descobrir que seus heróis não se parecem com ele? Que eles têm a tez alva igual ao seu pai?  Será que ele vai passar pó de arroz na cara, porque os padrões dele estão sendo baseados em figuras brancas, ou será incluída uma educação anti-racista a qual o Mateus se veja representado em seus personagens? Como o pequeno Matias que se enxergou no personagem Finn do novo Star Wars.

Como garantir a integridade psíquica e moral da criança? Trabalhar a construção de sua identidade? Fortalecer sua auto-estima? Todos esses questionamentos devem ser preocupações vitais, pois a criança pode crescer negando sua identidade para atender os padrões da branquitude, ser discriminado por suas características físicas, ser barrado em uma loja no shopping, sofrer violência policial. E aí? Você vai continuar dizendo que o racismo está nos olhos de quem vê, enquanto sofremos isso na pele?!

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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