fbpx

Texto: Marcela Johnson / Foto: Guilherme Moraes

Nem começou o ano de 2016 e já nos deparamos com um novo ataque dos governos: mais um aumento no preço das passagens de ônibus/metrô. Mas o que nós negros e negras temos a ver com isso?

A história do Brasil colocou negros/negras nas piores condições sociais. Basta uma pequena olhada nos índices sociais para perceber que os negros são a maioria dos que ocupam esse espaço marginalizado. São inúmeras táticas para garantir a continuidade do racismo e das condições de vida precárias.

Em relação ao transporte público não é diferente. A maioria de nós passa horas no transporte público para podermos trabalhar. São os negros a maioria dos moradores das periferias de São Paulo, onde o transporte é ainda mais caótico, ônibus lotado todos os dias, metrô abarrotado. Somos tratados como gado. São os navios negreiros contemporâneos que garantem que a “escravização capitalista” se sustente levando a mercadoria humana para os postos de serviço.

Para uma parcela dos trabalhadores, os que ainda têm alguns direitos trabalhistas, existe o VT (vale transporte), que na verdade é retirado do nosso próprio trabalho e parte de nosso salário. Ora, como se já não bastasse deixar no trabalho horas de nossa vida, ainda somos obrigados a pagar para ir até o local onde somos explorados?

Bom, mas mesmo o VT é hoje um beneficio que a maioria de nós não possui, já que estamos nos trabalhos precarizados, sem carteira assinada, sem muitos dos direitos trabalhistas conquistados com muita luta. Ao mesmo tempo a enorme distância entre periferia e centro faz com que sejamos os que mais dependem desse transporte e os que mais gastam proporcionalmente em relação ao nosso salário.

E quando chega o final de semana e queremos aproveitar o pouco tempo para acessar cultura, espaços de lazer…. R$3,80 no mínimo, só pra chegar. Esse mesmo transporte que serve pra nos levar todo dia paro trabalho, nos impede de aproveitar e conhecer a cidade em que vivemos.

Não podemos esquecer também da maior vulnerabilidade das minas pretas, que além de estarem expostas aos assédios no próprio transporte também são muito mais vulneráveis a ataques machistas esperando o ônibus na quebrada, andando de casa até o ponto, já que as empresas organizam o transporte da melhor forma para que seus lucros sejam mais altos, não para melhor atender os usuários.

É preciso lutar por um transporte público de qualidade, que seja controlado pelos trabalhadores do transporte e os usuários, que funcione de forma mais inteligente para que possa melhor atender a população e não a sede de lucro dos patrões. Nós, negros e negras e o próprio movimento negro, devemos entrar nessa luta, afinal o transporte também é uma demanda nossa e somos nós os mais afetados pelo aumento das passagens e pela péssima qualidade do serviço

Foto: Norma Odara / A repressão policial tem sido intensa em todas as manifestações contra o aumento da passagem Foto: Norma Odara / A repressão policial tem sido intensa em todas as manifestações contra o aumento da passagem

Num país onde nós somos a parcela mais precarizada da população, toda a demanda popular e operária deve ser vista também com uma demanda negra e deve ser encarada como uma luta nossa. Mais do que isso é preciso pensar em uma saída que unifique as demandas mais especificas da luta contra o racismo em nossa sociedade a um programa que responda aos problemas do transporte.

Esses dias eu estava pensando se não deveríamos primeiramente defender a efetivação de todos os terceirizados do transporte público sem concurso. Igual trabalho, igual salário para brancos e negros, efetivos e terceirizados. Não só isso, que a contratação para as obras públicas para a ampliação do transporte público garanta contratação preferencial de negros, que são os que mais têm sofrido com o desemprego. Enfim são inúmeras pautas que devemos desenvolver de forma combinada.

A luta contra o racismo não deve, nem pode estar separada da luta contra a realidade material vivida por todos os negros e negras e isso só pode ser feito em conjunto com todos os trabalhadores e trabalhadoras superando essa sociedade de exploração e opressão. Essa aliança tão importante não pode significar de forma alguma a secundarização das nossas demandas, mas deve potencializa-las.

Para que isso seja possível, nós devemos participar desses processos de luta enquanto sujeitos ativos, levantando nossas demandas e mostrando que nós também não aguentamos mais um aumento!

Marcela de Palmares nasceu em São Paulo, é estudante de educação física pela Universidade de São Paulo, USP, ativista revolucionária com atuação no movimento negro. Marcela estuda sobre os negros e a revolução.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

Apoie o Alma Preta e nos ajude a continuar contando todas essas histórias.

Vamos fazer jornalismo na raça!

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com