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Não haverá paz para nós dentro de uma economia de mercado neoliberal, em uma sociedade tão desigual e com um aparato repressivo tão mortal. É preciso mudar esse cenário e não é possível fazer isso das redes sociais

Texto e imagem: Pedro Borges

O mundo vive sob a total concentração de renda, o genocídio negro nas américas, agressão sistemática ao meio ambiente e a consolidação de regimes cada vez mais autoritários com roupagens democráticas. No Brasil, essa situação tem recaído de maneira dramática sobre a população negra. Durante a pandemia da Covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, percebe-se a maior letalidade sob essa população, grupo com pior acesso ao sistema de saúde, com um histórico de doenças como pressão alta e diabetes , menor acesso à testagem e por aí vai.

Mesmo durante uma pandemia, o número de operações policiais nas periferias segue em ascensão. No Rio de Janeiro, por exemplo, desde o início da quarentena a polícia matou 60% a mais. Essas operações deixam como marcas as dores de mães negras que perdem seus filhos. Foi assim com o assassinato de João Pedro Matos, de 14 anos, baleado dentro de casa, e com tantos outros jovens que têm suas vidas interrompidas pelas balas da polícia.

Alguns podem dizer: “mas a nossa vida sempre foi muito dura”. É verdade, sempre foi. Mas a gente caminha para a autodestruição social e ambiental do planeta, onde as vidas das populações mais vulneráveis têm um valor cada vez menor e os recursos naturais estão cada vez mais escassos. Não há como esperar para depois. O planeta e a vida humana correm riscos cada vez mais sérios com a pobreza, a fome e a repressão.

Nesse cenário, quem sentirá mais os impactos? Nem é preciso dizer que a régua primeiro nos cortará, como sempre cortou.

Não podemos acreditar mais em uma narrativa simplista de que tanto faz quem estiver a frente do governo, que sempre seremos as principais vítimas. Isso é verdade até a segunda página. Jair Bolsonaro é o recrudescimento a níveis elevadíssimos da repressão sobre o povo negro em todos os aspectos.

Esse chamado não é um panfleto para derrubarmos Bolsonaro e colocarmos outra pessoa no lugar. A gente precisa construir uma maioria, que entenda a centralidade do racismo, e que esteja disposta a alterar as regras do jogo, não apenas mudar os participantes dele.

Não haverá paz para nós dentro de uma economia de mercado neoliberal, em uma sociedade tão desigual e com um aparato repressivo tão mortal. É preciso por tudo isso abaixo e reconstruir uma sociedade cujo valor principal é a vida humana. Isso, me desculpem, não é possível fazer das redes sociais. É preciso fazer nas ruas, no olho no olho.

Há uma brecha histórica para o debate sobre raça no Brasil, país permeado pelo mito da democracia racial. É difícil demais mobilizar pessoas no nosso país em torno das questões de raça e agora, quando o povo decidiu ir, não consigo exitar.

Não há como construir uma sociedade democrática para todos sem superar o problema do genocídio negro e acabar com as desigualdades raciais. A população negra, mais da metade do povo brasileiro, não pode ficar de fora do acesso à saúde, da economia e do direito à vida.

Os atos de domingo têm sido momentos potentes, de agrupamento de uma série de setores, compostos na sua maioria por pessoas negras, caso das torcidas organizadas, movimentos de moradia, Hip Hop, Funk, e o próprio movimento negro.

Vamos criar uma cultura de resposta massiva do povo negro quando formos atacados no Brasil. Vamos construir maiorias, grupos cada vez mais consistentes para enfrentarmos o racismo e o genocídio de todos os lados.

Com as ruas e a partir delas, podemos mudar e muito a realidade do nosso povo. É nas ruas que devemos mostrar nossa insatisfação com esse sistema destrutivo e construir um novo projeto de sociedade antirracista. O medo da pandemia é legítimo. A luta contra o genocídio também.

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