Em artigo, Ariel Freitas* escreve sobre sentimento dos homens negros

Vocês já notaram a dificuldade que nós, homens negros, possuímos para deixar as lágrimas escorrerem pelos nossos rostos quando não somos mais crianças ou adolescentes? Não pense que somos fortes, mesmo que o título dê esta impressão. Homens negros sentem toda a dor, fogem dos seus fantasmas, são inseguros, podem ser frágeis como vidro, possuem graves problemas de autoestima desde a infância, mas, mesmo com todos esses sentimentos transbordando pelas beiradas dos seus corpos, evitam chorar.

Eu, Ariel Freitas, lembro-me de todas as vezes que permiti que uma quantidade muito pequena de água vazasse dos meus olhos. A primeira vez foi quando eu me dei conta que realmente perdi o meu pai. De fato, poucas pessoas em minha volta sabem como me sinto em relação a isso. Então vou resumir em algumas linhas:

Quando o meu pai morreu, eu tinha cerca de um ano e dois meses. Uma criança desta idade nem devia lembrar como era a relação com o seu pai, mas esse não é o meu caso — infelizmente, pois, se fosse, não passaria por maus bocados (psicologicamente falando). Eu não conseguia parar de chamar pelo nome dele ou pela palavra “pai”. Doía cada pedaço da minha mãe (uma mulher incrível) quando ouvia isso. Frequentei psicólogos muito cedo e isso fez que eu parasse de chamar por ele, mas a mente humana pode ser uma armadilha se não for bem administrada. Na minha cabeça, ele ainda continuava vivo por aí e um dia eu encontraria. No meu aniversário de oito anos, finalmente a ficha caiu. E eu chorava durante a festa pedindo de presente que ele retornasse. Essa foi a primeira vez que chorei.

Em outras ocasiões que chorei, foram lágrimas de raiva. Hoje em dia sou uma pessoa calma e gosto de possuir esta virtude, porém, quando mais novo, o meu nome era figurinha repetida na sala de direção da escola. Eu me envolvia em brigas apenas para liberar a raiva, angústia e rejeição amorosa de boa parte de colegas. Um dos meus problemas atuais surgiu nessa época: autoestima.

Não importa o colégio, cidade, estado ou país os jovens negros sempre serão considerados os “mais feios da turma”. Essa ferida se não for bem tratada acaba tornando-se um gatilho mental e nos vemos como incapaz de realizar atividades simples, como relacionamentos com o próximo. Somos forçados a traçar uma busca incansável pela perfeição — vou falar mais sobre — em qualquer quesito. Na maioria das vezes, buscamos a cura em quem nos feriu no passado. Basta ver a quantidade de relacionamentos inter-raciais, mas este tópico fica para outro texto.

Ah! Relacionamentos…

Este tema que me fez ceder algumas vezes ao choro. Depois de tudo que citei neste texto, acho que fica esclarecido as dificuldades de um relacionamento com um homem negro. Todas as mulheres que me relacionei foram ótimas companheiras e não posso realizar nenhuma reclamação sobre elas. Mas, infelizmente, não sei se elas podem dizer o mesmo de mim.

Desde cedo nós, homens negros, somos forçados a encarar uma realidade que não queremos! Qual? A expectativa depositada em nós.

“Você tem que fazer duas vezes melhor”

Desculpa, sociedade, eu não quero fazer duas vezes melhor, pois estou, no mínimo, dez vezes atrasado. Agora que liberei essa raiva nas linhas anteriores, posso dizer: Quem foi o filho da #@!$ que inventou isso? Uma criança que cresce ouvindo esse discurso só tem um objetivo, que é a perfeição.

Raios que o parta com isso. Como ter um relacionamento saudável se tu tá sempre buscando ser perfeito em todas as áreas, lendo toda a situação como uma disputa? Cá entre nós, isso não faz muito sentido. Ninguém é perfeito e nem deveria almejar isto.

Esta utopia pela perfeição que vem sendo perseguida há séculos é, resumidamente, em minha opinião, a busca do homem em se tornar Deus. Eu não quero ser Ele, cara. Só quero viver minha vida sem essas 300 barreiras na minha frente.

Ainda não sou nem um doutor em “desenvolvimento de jovens negros”, mas acredito que este conteúdo despejado em forma de caracteres possa abrir uma janela na mente do irmãozin que está se culpando por não conseguir demonstrar o seu sentimento. Então, para ele eu digo:

Mano, calma. Estas experiências de sobrevivência que te submeteram como se fosse um projeto do X do X-MEN se converteram em correntes psicológicas e hoje você está preso por elas. Você ainda não enxerga? Observe bem… elas brilham como o sol das 14h. Não consegue ouvir? O som dessas malditas se arrastando é pior do que o horário de pico em uma metrópole, sim, esse barulho é pior do que o trânsito de São Paulo. Se tem solução? É claro, mano. Mas você vai ter que chorar primeiro. É difícil, eu sei. Ainda não consegui remover completamente as correntes, mas ando tendo momentos de liberdade e estou adorando isso. Tente você também!

A estrutura racista da sociedade é tão sofisticada que quando amadurecemos perdemos a habilidade de demonstrar a nossa tristeza, dor, angústia, medo e etc. Basicamente, a nossa infância e amadurecimento quando jovem foi um treinamento para nos tornamos um robô que não demonstrasse sinal nenhum de fraqueza e, MUITO MENOS, lágrimas pelas frechas dos olhos (se eles pudessem substituíam nossos olhos por lentes de uma câmera simples).

No meu ponto de vista, a nossa militância começa em reconhecer isto, ponto que passa despercebido nos militantes de hoje. Ei, meu amor, não precisa ser forte 100% do tempo. Pretos, nós também precisamos tomar anestesia antes de encarar as cirurgias do dia a dia.

(espero que os futuros médicos também pensem assim sobre as mulheres pretas).

Ariel Freitas é jornalista, escritor, ativista e músico. Originalmente, o texto foi publicado aqui.

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