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Texto: Fabiana Pinto / Ilustração: Zenon Zago

Com campanhas como “Senti na Pele” e debates a respeito do racismo nas indicações ao Oscar 2016, o ofício de ator para a população negra entra mais uma vez em pauta nesse inicio de ano. Para além de críticas aos papeis estereotipados como de empregadas, escravos, mulatas, bandidos e favelados que o ator negro precisa se submeter ao longo de sua formação e carreira, é preciso realizarmos um debate acerca das dificuldades pelas quais a maior parte dos atores negros passa durante a construção de sua carreira, além do contexto social que é ser e assistir um negro atuando.


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Correr atrás de seus sonhos é uma filosofia bonita a ser seguida, mas para a camada pobre e negra da população essa filosofia se limita à teoria. Afinal, antes de correr atrás de um sonho é preciso correr atrás do alimento, da vestimenta e da moradia…é preciso correr atrás do dinheiro. Vivemos em uma sociedade capitalista e a ideia de sonho e aspirações infelizmente não cabe a todos. Para algumas pessoas só existem necessidades a serem supridas. A vida se torna uma questão de sobrevivência e dentro desse jogo de sobrevivência que todos os dias negros e pobres encaram, infelizmente não há espaço para sonhos.

Por maior que seja seu talento, se você não possuir apoio financeiro, psicológico e afetivo para investir nele, aquilo jamais se tornará realidade e, tratando-se de um sonho teatral a coisa é ainda pior já que, o ofício de ator é algo desvalorizado, algo que pode levar tempo para que gere lucro, e esse tempo, os pobres não têm a perder. Além disso, esse é mais um espaço negado à população negra, onde as vagas são limitadas e nem sempre a meritocracia se faz valer, nem sempre é possível que o negro pobre utilize do canal artístico para realizar uma ascensão social.

Ainda que hoje pelas periferias do nosso país existam projetos sociais que, junto com crianças, adolescentes e jovens, incentivam o desenvolvimento cultural e artístico dos mesmos, é necessário termos um olhar amplo e sincero sobre o tema, afinal, quantos negros você vê na TV ou teatro? Desses negros quantos estão em papeis que não remetam a estereótipos de nossa raça? Pensando rápido, não me veio nenhum a mente. A antropóloga Solange Martins Couceiro de Lima¹ certa vez disse que “a maneira como as telenovelas brasileiras tratam os personagens negros reflete a forma com que sociedade os trata com o ‘ preconceito à brasileira’, sutil, disfarçado e com vergonha de ser preconceito”.

Teatro Negro - A arte militante necessária

O negro acabou por ser excluído do teatro assim como de outros espaços na sociedade pós-abolicionista quando o teatro deixou de ser marginalizado e se tornou lugar de brancos, brancos esses muitas vezes com suas caras pintadas de preto em seus espetáculos. Apesar do surgimento de nomes como Grande Otelo, durante 1927 com a Companhia Negra de Revistas, essa representação do negro era escassa e quando acontecia, ocorria em padrões estereotipados. Miriam Garcia Mendes relata em seu livro A personagem negra no teatro brasileiro², como os personagens negros naquela época sempre se limitavam aos estereótipos do “neguinho”, do pai João, da “mulata exportação” ou da velha escrava.

Essa situação só começou a mudar a partir de 1944, com a criação do Teatro Experimental do Negro (TEN) no Rio de Janeiro, com Abdias do Nascimento. Sem espaço nos palcos tradicionais e na sociedade pós-abolicionista, o negro teve que se organizar para poder aparecer tanto como ator de teatro quanto como ator social e político. Além disso a companhia foi capaz de mudar a forma como o teatro era feito. Foram considerados os primeiros performers nacionais já que, na tentativa de valorizar a cultura africana, juntavam teatro, dança, poesia e música em suas encenações. O TEN permitiu que diversos atores negros fossem descobertos e tivessem acesso a uma formação teatral e, também, à alfabetização já que muitos dos que participavam tinham um baixo nível de escolaridade. A companhia teve sua estreia marcada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, lugar que na época Abdias do Nascimento classificou como “a fortaleza do racismo”.

Elenco da peça O filho pródigo, de Lúcio Cardoso. Teatro Ginástico(RJ), 1947 Fonte: NASCIMENTO, Abdias do. Teatro experimental do negro: trajetória e reflexões. Elenco da peça O filho pródigo, de Lúcio Cardoso. Teatro Ginástico(RJ), 1947. Fonte: NASCIMENTO, Abdias do. Teatro experimental do negro: trajetória e reflexões.

Companhias como o TEN, que teve seu fim em 1952, foram importantes pois permitiram ao ator negro atuar em papeis que antes só eram destinados a pessoas brancas. Papeis escritos para brancos mas que, não alterando em nada o andamento da história, questiono: por que um negro não poderia encená-lo? Essa era a pergunta que se faziam e que, continuamos a fazer até hoje.

Recentemente durante a premiação do Emmy 2015, Viola Davis, a primeira mulher negra a ganhar o Emmy de melhor atriz disse “Não se ganha um Emmy por papéis que simplesmente não existem” e “A única coisa que separa mulheres negras de quaisquer outras é a oportunidade”. Há anos atrás isso era verdade e até hoje continua sendo, já que quando lemos uma história em que os personagens não são descritos minuciosamente, nossa mente imagina um rosto branco, um personagem sempre branco e isso precisa ser mudado; e isso só poderá ser mudado quando começarmos a ver personagens negros, quando escritores começarem a criá-los, quando a cor escura e o cabelo crespo se tornar uma característica tão comum e aceitável quanto a pele branca e os cabelos lisos.

Ator social, ator cultural

É preciso que o ofício do ator negro tenha um cunho artístico-militante no Brasil. Quando estamos em uma sociedade onde é necessária a criação de uma política de “cotas”, que regulamente a participação de atores negros na mídia, o ser negro e estar na TV, por exemplo, não pode ser considerado uma profissão de cunho meramente artístico. É também uma questão política. Se vivemos em um país onde mais da metade da população é preta ou parda, devemos considerar no mínimo estranho o fato de não nos vermos nos veículos de mídia. A proporção de negros que vemos pelas ruas não equivale a que vemos na TV, cinema ou em propagandas e só o fato de ser necessária uma discussão política e legal sobre a aparição de negros na TV, nos mostra que a dificuldade de um ator negro é maior que a de qualquer outro.

Quando pensamos em representatividade o negro se torna ainda mais importante. É preciso que nossas crianças vejam pessoas similares a elas em papeis de destaque, que o negro seja representado como o médico, o advogado, o professor, o empresário bem sucedido.  É preciso que os atores negros usem o espaço que conquistaram para influenciar os seus irmãos, que continuam expostos às mais diversas situações e, quase sempre desacreditados. É preciso que o ator negro, seja além de ator, militante, que o ato não termine quando as cortinas se fecharem, que sua voz continue a ecoar mesmo quando os microfones se desligarem. Ainda que inúmeros personagens e cenas venham e vão, o ato que jamais poderá deixar de ser encenado, é seu ato político, é o ato que não precisa de texto e nem ensaio, é o seu ato de resistência.

¹Solange Martins Couceiro de Lima, professora da Escola de Comunicação e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo, na Folha de S. Paulo Ilustrada, 28.08.1998, p.15.

²Miriam Garcia Mendes, A personagem negra no teatro brasileiro, São Paulo, Ática, 1982, p. 188-189.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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