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O poeta Akins Kintê apresenta a minissérie “Um Sol entre as Sombras de um Natal”, com textos sobre a festividade e relações afetivas; confira a primeira história

Texto: Akins Kintê | Ilustração: Marcos Z.X

Eu tenho mágoa. Nada contra esses dias que se aproximam do Natal, mas eu tenho mágoa, tá ligado? Um lance de rancor que a gente não tem com quem debater, também vai dizer o quê?

Os dias festivos em minha vida me trazem complexidade. Eu não ligo de ganhar presente, se vier legal, se não, eu não tô nem aí Não é zanga, nem tô sendo mimado, é que tá tranquilo mesmo.

Eu tenho mágoa porque a Páscoa me lembra aflição. Dia das Crianças, pressão; Aniversário, angústia; Natal, uma bruta preocupação. Minha mãe e meu pai se desdobravam em mil pra ter o mínimo que a televisão ligada nos obrigava a ter. Até hoje meu coração se desespera quando chegam esses dias. A vontade mesmo é de entrar dentro de um bucaro e sumir.

Faz uns meses que eu só corto o cabelo com o P.H e ele tá ligado já: “Degradê e em cima só acerta o black façavô” .

Vê ele manuseando a tesoura é da hora, lembra uma amiga minha escrevendo poesia - o cuidado que ela tem com a caneta, ele desenrola no corte e os dois trazem na seriedade mesmo sorrindo, a cautela de quem quer desenvolver um bonito trabalho.

Minha mágoa não é pessoal com ninguém, nem com meu pai em cana nos vários Natais, nem com a humilhação da professora porque eu não tinha levado nada na confraternização da sala ou as mil tretas dentro de casa, onde era pra ser alegria, é que sinto um vazio e uma bruta vontade de não estar.

Meu cabelo ficou na régua, o P.H é talentoso, parece ideia boba, tô me achando bonito e isso é raro, talvez uma pequena chama acesa em meus olhos. A preta vai vir passar o Natal comigo, eu preciso pra enfrentar meus fantasmas.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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