Doutora em literaturas africanas, Aza Njeri escreveu uma crítica sobre “Oboró, masculinidades negras”, peça em cartaz na cidade do Rio de Janeiro

Texto / Aza Njeri | Imagem / Divulgação

Diante do mal agouro que assombra as artes no Brasil, começo essa conversa com a impressão de que nos últimos anos a visibilidade e o consumo de arte produzida por negros aumentou e, no campo do teatro, visivelmente as peças e performances de protagonismo negro têm arrebanhado um grande público como em “O Pequeno Príncipe Preto”, “Contos Negreiros do Brasil”, “A Esperança na Revolta” e “Traga-me a cabeça de Lima Barreto”. Além de iniciativas organizadas por fazedores de artes negrxs como os “Segundas”: Segunda Preta (BH), Segunda Crespa (SP) e Segunda Black (RJ).  

Neste cenário, estreou “Oboró, masculinidades negras”, no teatro Firjan-Sesi, no centro do Rio de Janeiro. Casa cheia, pessoas negras consumindo dramaturgia feita por pessoas negras, público em geral interessado na mensagem político-poética daquelas narrativas. Principalmente porque, ao lançar o holofote sobre os homens negros, está se colocando no centro um Ser cuja política de extermínio, encarceramento em massa e abandono sócio-afetivo-ancestral-psicológico destitui dele toda a possibilidade de humanidade.

Importante a observação feita por Araújo & Dahoma (2019) que traz mais um questionamento para o olhar sobre o homem negro:

"Boa parte dos estudos acerca das masculinidades, principalmente o campo que abarca os indivíduos heteroafetivos, tem sido pensado de forma a se evitar e a combater os problemas que uma masculinidade deturpada e/ou machista coloca frente às mulheres nas suas relações com esses homens. Os temas abordados são bem amplos, com produções sobre violência doméstica, reprodução e sexualidade, entre outros. As temáticas, nesse caso, estão muito localizadas a partir do impacto dos homens sobre as mulheres." (2019, p.163)

Desta forma, acredito que a escolha do nome da peça aponta para uma reflexão sobre o próprio termo “masculinidades negras” utilizado como subtítulo ao título Oboró, que por sua vez, significa, em Yorubá, as deidades masculinas do candomblé que na peça são Esu, Ogum, Odé, Xango, Omolu, Ossain, Oxumare, Oxalá e Ibeji, propondo uma discussão sobre a masculinidade negra a partir dos arquétipos dos “orixás de cabeça” - Òmó Òrísà - de cada personagem. 

O uso do arquétipo dos orixás para expressar os nossos dramas existenciais é tradicional nas artes afro-diaspóricas em geral, e se pensarmos o teatro nos territórios de Brasil e Cuba, como nos fala o professor Marcos Antônio Alexandre, essas simbologias são ainda mais utilizadas. Assim, é necessário um novo fôlego para essas metáforas arquetípicas, para que não soe como algo já visto e, sobretudo, para que o fio condutor dessas narrativas masculinas não ocorra a partir da centralidade outra que não a dos próprios homens negros ou de suas energias ancestrais também masculinas.

A arte possui o poder de romper conceitos e refundar paradigmas, podendo sair dela novos sopros de reflexão sobre a oboronidade dos homens africanos desta diáspora. Utilizando de seu papel refletor-coletivo, a peça discute sobre as agruras e mazelas de ser homem negro no Brasil, expressando os dramas coletivos ao mesmo tempo que trabalha o lirismo dos afetos intrínseco à subjetividade de cada personagem.  

Os homens negros são focados nas suas pluriperspectivas de masculinidade, tencionando os lugares ocidentais do masculino impostos pelo seu sistema patriarcal, expondo feridas, opressões, fracassos, amores, felicidade, aquilombamentos de seres oprimidos e opressores em estado de Maafa. Mesmo que não tenha rompido paradigmas e lugares comuns, a peça se abre para um diálogo sensível entre público e obra, pois aqueles homens são reais, assim como as violências físicas, simbólicas, psicológicas e espirituais impingidas sobre esses corpos. 

A sensibilidade, característica da direção do Rodrigo França, suleia as narrativas e se materializa no amarelecido das folhas secas que ora caía sob as personagens e se espalhavam sobre o cenário, como um afago às duras realidades ali experienciadas. O trabalho de movimento feito pela experiente Valéria Monã é preciso e explora os corpos respeitando os limites de cada ator, assim como um orixá respeita o ori (cabeça) e o ara (corpo) dos seus filhos nos processos de transe e dança.

O texto do Adalberto Neto conduz a peça com qualidade, cruzando narrativas críveis que incomodam tamanha identificação. Ponto baixo foi a escolha do esperançoso Oxalufan - qualidade do orixá Oxalá que remete à paz, perdão, resiliência -, para encerrar a peça, destoando, portanto, das realidades daqueles homens narrados até então. Talvez, se o Deoclides fosse Òmó Òrísà de Oxaguiam - qualidade de Oxalá mais jovem que remete ao dinamismo e movimento construtivo, representando as lutas cotidianas de trabalho, sustento e paz -, o texto teria um final mais empolgante e menos previsível.

Um ponto positivo para a presença narrativa das mulheres em sua ausência cênica, com destaque para a interpretação de Marcelo Dias do personagem Aldemiro, um miliciano violento. O humor pesado atravessa as histórias e funciona como alívio às tensões fruitivas entre platéia-cena. E a metáforas da bandeira e dos números 80 e 111 trazem a discussão do assassinato em massa de homens negros, politizando e afrocentrando as perspectivas do narrado. 

Encena-se temas complexos sobre o comportamento dos homens negros sem pretender propor solução, caminho ou julgamento, tendo como ponto de intersecção dessas narrativas, para além da raça, a violência que esses corpos sofrem e infligem. Assim uma gama de homens negros atravessados pelo racismo, alvo e agentes de algum tentáculo do genocídio do povo preto são representados em suas frustrações, amores, perdas, abandonos, pautados nas suas sobrevivências. Choramos com o soterrado Kinho-Exu (Sidney Santiago) que abre o sirê cênico; observamos o outro lado da guerra com Aldemiro-Ogum (Marcelo Dias); a culpa de Isaque-Oxossi (Luciano Vidigal); a juventude dos Ibejis Marcelo e Maicon (Danrley Ferreira e Jonathan Fontella), a medicina das folhas com Oswaldo-Ossain (Ernesto Xavier); os medos do Valdo-Omolu (Drayson Menezzes); o embranquecimento do Frederico-Oxumarê (Orlando Caldeiras); a lucidez racial de Nilton-Xangô (Reinaldo Jr) e a sabedoria apaziguadora de Deoclides-oxalá.

Aproveito para indicar “Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos Homens”, outra peça que fala sobre as experiências dos homens negros, sendo que agora a partir das letras das músicas dos Racionais MCs. E também para indicar o meu canal no YouTube, em que falo um pouco mais sobre a cena teatral negra, e onde tem a crítica em vídeo da peça “Oboró: masculinidades negras”.

bannerhorizontal

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com

Mais Lidos