A arquiteta e feminista negra, Stephanie Ribeiro, escreveu para o Alma Preta sobre como grupos políticos majoritariamente brancos se utilizam da morte de figuras negras para as transformar em bandeiras. Para ela, parece que o corpo negro importa mais depois de morto do que em vida, para determinados segmentos

Texto / Stephanie Ribeiro
Ilustração / Vinicius de Araújo

Hoje muitas coisas pairam na minha cabeça. Fico pensando aqui em como a morte e o encarceramento de pessoas negras vêm sendo usados por partidos políticos para performar que são oposição a um sistema conservador e fascista, desenhado pela direita conservadora deste país há séculos.

Ao mesmo tempo, penso que essa é a mesma ala progressista conivente com racismo. Basicamente, parte da esquerda desse país adora dizer que se importa quando casos absurdos já aconteceram e agora servem para que as bandeiras que dizem defender ganhem nomes próprios, mesmo que dentro de seus próprios partidos tenham representantes negros dessas lutas com capacidades múltiplas de representar, mobilizar e protagonizar. Mas a experiência e a vida negra parecem valer mais quando não podem ser defendidas por si.

Afinal, o que não se vê são políticas, mesmo que simples, de proteção e garantia das vidas vulneráveis, promovidas por essas pessoas brancas que movem todas as suas forças para se autoproteger e autopromover. Nós negros temos que tomar cuidado para não fazer de atos e manifestações sobre racismo estrutural e genocídio espaços de disputa política. Política precisa ser feita em defesa do povo negro, não sobre corpos do povo negro. A estrutura partidária precisa ser usada como apoio às lutas sociais, e não como busca por protagonismo político e votos.

Quando participei de um ato que denunciava um assassinato cruel, vi camisas políticas, vi bandeiras, ouvi gritos que estavam mais associados a carreiras políticas, do que àquele fato em si. Um ano depois, em outro ato, mais uma vez a denúncia sobre uma vida negra ceifada virou um espaço usado para candidatos construírem suas agendas e carreiras. Até mesmo negros estão dando abertura para isso. Estamos de alguma forma com uma ética social falida.

E me pergunto se essa ausência do bom senso coletivo não é uma segunda morte para essas pessoas e uma morte terrível e simbólica para as nossas lutas? A forma como transformamos o luto em luta sequer cogita que luto passa por tristeza, assimilação da dor e uma ação que pode ser construída fora de partidos. Partidos que, de uma forma estranha, acham que só existe luta quando estamos de alguma forma associados a eles. Não estamos aqui negando a estrutura política e o fazer institucional, mas garantindo que esse precisa ser feito seguindo uma agenda moral que não pareça esperar a próxima morte para o aumento de suas filiações.

Se partidos fazem seu trabalho corretamente, não precisam esperar desgraças para seus nomes se fazerem recordáveis. Quando o luto de alguma forma se transforma, no caso de pessoas vulneráveis, numa bandeira política que consegue abrir espaço para aqueles que já detêm de alguma forma poder, estamos de fato impactando a estrutura, ou apenas assistindo a manutenção dessa sobre nossos corpos?

Existem inúmeras políticas de defesa que precisam ser tomadas pelos nossos colegas brancos que se colocam como empáticos a nós. Políticas de defesa, que vão desde a garantia a um carro blindado e seguranças para candidatos, figuras públicas e ativistas vulneráveis, até mesmo a garantia de políticas públicas efetivas que trabalhem no quesito de prevenção.

Desde o encarceramento de Rafael Braga, que representou uma série de absurdos judiciais, me parece significante como em determinado momento ele estar preso parecia mais interessante para aqueles que almejavam um mártir para fazer gritos, hashtags e camisetas, do que ele estar solto com sua família e saúde física garantidas. Quanto custa uma vida negra para direita? E para parcela branca da esquerda, que parece precisar da desgraça negra para se sentir de alguma forma ativa? Quanto custa?

Nisso lembrei do filme “Joaquim”.

Filme nacional de 2017, o enredo tem como foco desmistificar a história de mártir e heroísmo em cima da figura de Tiradentes. O personagem da vida real é apresentando como uma pessoa com falhas, acertos, vontades, desejos e uma inocência social e política. Essa soma o tornou a figura ideal para que poderosos cansados das ordens da Coroa fizessem de sua inquietude seu bode expiatório para Inconfidência Mineira. Joaquim morreu e sua morte hoje fez dele um “herói” brasileiro.

Isso foi mais interessante para ele, ou para os que usaram de sua vida e depois de sua morte, para impulsionar seus projetos de poder?

Pensando na narrativa de Tiradentes e transpondo para os dias atuais, é sabido que da esquerda a direita, homens brancos comandam decisões e tornam pessoas dignas ou não de terem as violências sobre seus corpos motivos de manifestação coletiva. O que é mais interessante dessa história é que para muitos Joaquim ao se tornar símbolo após morto chegou no ponto ápice de sua vida. O homem lembrando nos livros de história, o que nomeia cidades e ruas teve após sua morte um retorno positivo para as ações que representou que no discurso do filme Joaquim, sequer te afetam diretamente, tanto quanto afetaram os que detinham poder estrutural. Fico pensando se para Joaquim era melhor ter continuado vivo ou ter sido morto de forma violenta?

Essa é a pergunta que faço todo dia, até quando as hashtags vão dar conta de tudo, enquanto medidas efetivas não se concretizam, pois a insegurança sobre a vida e liberdade de alguns corpos garantem vitórias e sucesso brancos.

Continuaremos vivos e espero que atentos! Cada vez mais atentos! Nossas vidas são mais importantes do que os legados que constroem quando elas já são ceifadas. Nossas vidas importam! Importam demais para sua importância só ser garantida quando ela já nos foi tirada.

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