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Enquanto as escolas não tratarem o racismo como um sistema de opressão que impacta, inclusive, no processo de aprendizagem de cada aluno, nunca serão escolas de fato

Texto: Geovani Nascimento | Imagem: Getty Images

Um silêncio desumano está presente nos corredores e salas de aulas das escolas privadas quando o assunto é uma política antirracista no ambiente escolar. O silenciamento do assunto é um tabu que precisa ser quebrado para avançarmos. Enquanto as escolas não tratarem o racismo como um sistema de opressão que impacta, inclusive, no processo de aprendizagem de cada aluno, nunca serão escolas de fato. O racismo estrutural precisa ser discutido e levado em consideração em todos os momentos da vida pessoal, escolar e profissional.

Desde que comecei a atuar na área da educação paulista e até mesmo na universidade em que conclui a minha graduação, sempre me perguntei: Onde estão os professores e professoras pretos nas escolas privadas? Isso sempre foi uma questão latente e dolorosa. Eu buscava de diversas formas resposta para essa pergunta e nunca encontrava. Não consegui uma resposta convincente, em nenhuma das hipóteses exposta tinha uma resposta, mesmo sabendo qual seria.

Até que um dia, eu e alguns colegas negros da mesma universidade nos reunimos com a coordenação do curso de Pedagogia para questionar essas lacunas e vivências racistas que já tínhamos sofrido na instituição. Ela nos respondeu o seguinte: “Nós não recebemos currículos de professores pretos, eles não estão dentro do que exigimos”.

Nós, enquantos estudantes de um curso de graduação, estávamos dispostos a indicar para a coordenação uma lista com nomes de vários profissionais que tinham a mesma formação que os nossos professores ou até mais do que eles. O objetivo era que nós, professores e professoras negros em formação, pudéssemos nos sentir seguros dentro daquele ambiente, onde mais da metade das pessoas eram brancas, enquanto mais da metade da população brasileira é negra, cerca de 55%.

O silêncio sempre fez parte das escolas privadas de São Paulo quando o assunto em questão é a ausência de professores e alunos negros, principalmente nas grandes escolas que se dizem “construtivistas”, aquelas com mensalidade de 2 a 3 mil reais para cada aluno matriculado. Essas instituições de ensino remuneram seus professores, inclusive, com um salário que não chega nem perto dessas mensalidades. Pouquíssimas escolas com essa característica têm uma política de bolsas para os filhos dos trabalhadores Quando sim, cobram uma taxa absurda de lanche e materiais, que somam o valor da metade do salário da mãe ou do pai que trabalha na instituição. Repito: É desumano.

Com o tempo, passei a ter consciência que abordar uma metodologia para construir um modelo de educação antirracista é lembrar de todas as vezes que eu chorei na escola por causa da minha cor da pele, de todos os professores que me humilharam e desejavam que eu me tornasse totalmente o oposto deles. É mostrar a cada criança, adolescente, educando, e pessoa negra, que por mais racista que seja o sistema, a gente ainda pode lutar, pode acreditar e eu faço questão de acreditar nos meus estudantes negros do jeito que nenhum dos professores brancos que passaram pela minha vida o fizeram.

Falar de educação antirracista é muito mais do que o dia 20 de novembro, é muito mais do que ter apenas um professor negro. É preciso igualar as equipes, ter a mesma quantidade de negros e brancos no quadro de professores. Não colocar professores negros só como substitutos e sim como titulares. Só assim avançaremos no debate de uma agenda antirracista nas escolas privadas.

Tenho pedido a exú para que as recentes discussões sobre o racismo que ganharam repercussão na sociedade nos últimos meses se efetivem no dia a dia e na comunidade escolar, entre os grandes chefes das empresas nacionais que mantém seus filhos em escolas com mensalidades que custam muito mais do que o salário de boa parte da população negra e periférica.

Os donos das escolas privadas precisam contratar pessoas negras para além de projetos voltados à temáticas raciais. Precisamos urgentemente construir um plano político pedagógico com a presença de educadores e educadoras negros. As ações denominadas como antirracistas precisam ultrapassar limitações em vez de ficar apenas no campo de exercício de ego das pessoas brancas.

Não adianta agir apenas nas redes sociais, se na prática, na vida real, você não deixa seu professor negro ter voz ativa e colocar em prática os conhecimentos da população afrobrasileira. Se não reconhece que nós temos o direito de narrar as nossas próprias histórias. Humanizar os corpos dos professores negros no espaço escolar é urgente. Quero ver meus colegas, educadores e educadoras negros, que são formados e especializados em Educação, em sala de aula como professores titulares, coordenadores e diretores. como alguém no lugar de poder dentro de uma escola privada. Basta ver pessoas parecidas comigo somente na limpeza, como babá de criança ou motorista. As escolas precisam ter a diversidade refletida no seu dia a dia e não apenas no papel.

Nós, pessoas negras, não temos paz no ambiente escolar desde muito cedo. Enquanto criança na educação infantil, depois no ensino médio prestes a cursar o vestibular e, em seguida, quando decidimos adentrar na educação para mudar as vidas dos nossos somos silenciados pelos diretores e coordenadores brancos. Além de todos os demais professores brancos acharem que nós temos o dever de saber de tudo que é relacionado a população negra. Tentam a todo custo nos impor que os saberes deles sobre o nosso povo é melhor do que o nosso. Acham também que toda pessoa negra deve participar de todas as festividades afro das escolas, isso quando tem. Acreditam que sempre estamos disponíveis para participar de suas aulas por nós temos obrigação de ajudá-los e não, não temos! Somos pesquisadores, levamos tempos e anos para construir nossos pensamentos e narrativas.

Será que ninguém se comove com essa desigualdade de oportunidade que é negada para nós a todo custo? Você, profissional branco, não se incomoda de o seu filho não ter nenhum professor negro? Acham normal a única referência preta do seu filho ser a babá e o ajudante de serviços gerais da escola?
Quando se trata de negritude, quem é negro só serve para ensinar capoeira e aparecer no dia Consciência Negra.

Meu profundo desejo e minha exigência é que esse silêncio das escolas privadas sobre uma metodologia antirracista se transforme em contratações, se torne em algo concreto e que de fato coloque professores pretos no lugar de poder. Quero que as escolas privadas tenham professores e professoras negros como eu.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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