Três professores da Universidade da Bahia escreveram artigo sobre o racismo instalado na instituição

Prof. Adalberto Santos (Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos/UFBA)
Profa. Denise Carrascosa (Instituto de Letras/UFBA)
Prof. Samuel Vida (Faculdade de Direito/ UFBA)

Ao analisarmos a representação identitária na produção cênica brasileira, constatamos a melancólica ausência de protagonistas negros e negras na cena teatral. Leda Maria Martins cunha o termo “ficções de exclusão” para se referir aos modos como as negras são descritas na cena artística. Para ela, as representações da mulher negra traduzem registro alheio e alienante, marcado pela estereotipia, ocupando papeis de mãe preta, empregada doméstica, mulata fogosa. Por outro lado, é flagrante a desproporção da representação demográfica de negros e negras em certos espaços sociais, mais especificamente no contexto das artes da cena, bem como a presença negra à frente de seus processos formativos.

A comunhão de negros e negras tem favorecido a emergência de atos insurgentes que tomam a si a tarefa de criação de repertório e formação de artistas negrxs. No entanto, apesar de Abdias Nascimento ter se insurgido contra a condição de negros e negras na cena brasileira há mais de setenta anos, continuamos lutando contra a força do racismo institucional para rasurar vícios de figuração e, em pleno século XXI, as reivindicações pela presença negra na cena artística não foram suficientes para debelar o racismo institucionalizado no seio dos processos formadores e, ao mesmo tempo, indicar outras possibilidades aos modos de representação/apresentação do corpo de negros e negras.

O caminhar pela cena artística de Salvador destaca a presença de performances que têm como objetivo refletir sobre o corpo negro e suas potencialidades expressivas. Nos primeiros momentos da luta antirracista na cena teatral, a denúncia de distintos modos de cerceamento revelou preconceito quanto a presença negra na cena. Atualmente, as performances negras propõem instaurar narrativas política no seio do tido como certo. E o necessário engajamento, acionado desde década de 1940, com a criação do Teatro Experimental do Negro, constitui-se na marca das narrativas sobre o corpo como veículo artístico/político da afirmação do negro e negra na cena. Se, em um primeiro momento, ausência de profissionais e de materiais configura um impedimento, hoje, a qualidade dos profissionais contrasta com a falta de visibilidade de suas ações e com narrativas que insistem, em nome da sacralidade da arte, em produzir e reproduzir imagens desqualificadoras de negros e negras.

Uma instituição de ensino superior brasileira, nessa cidade de ampla maioria negra, ou em qualquer outra cidade do mundo, não pode prescindir do compromisso ético nos seus processos formativos, bem como nas narrativas que traz a público. As artes compõem o mundo da vida, portanto são eivadas dos valores que os distintos agentes postos em ação acionam para suas criações. Retirar das artes seu caráter fundante da transformação das coisas do mundo é desconhecer a própria história da arte. Umberto Eco não nos deixa esquecer que foram as trombetas, portanto a arte, que derrubaram as Muralhas de Jericó, mas se a virulência artística potencializa ações no mundo da vida é preciso atentar para os sistemas de valores que acionam, sobretudo numa sociedade racista, classista e misógina.

A ascensão exponencial do genocídio do povo negro brasileiro, bem como do feminicídio de mulheres negras e seu encarceramento, forças constituintes do projeto necropolítico nacional, constatada pelos legítimos instrumentos estatísticos contemporâneos, encontra sua contracorrente em diversos instrumentos de resistência, especialmente, em nossas plataformas de criação artística. Nesse sentido, é que mais uma vez a ação de negros e negras organizados em coletivos como a Organização Dandara Gusmão vem à cena soteropolitana denunciar a estrutura racista das práticas formativas desenvolvidas em escolas/institutos da Universidade Federal da Bahia, em especial na Escola de Teatro. Desde 2016, este coletivo de estudantes tem reunido forças para fazer frente a uma estrutura racista que insiste em tomar como certo princípios que são, por sua natureza, contrários a uma instituição que deveria prezar pelo respeito à diversidade dos agentes que compõem a sociedade baiana.

Apesar do esforço da Organização Dandara Gusmão para, pedagogicamente, fazer compreender que a Escola de Teatro deve respeitar a população negra que, também por competência e brilhantismo intelectuais, adentra a UFBA, mais uma vez, o coletivo precisou, por conta própria, levar a cabo sua atuação antirracista. No último dia 01 de junho, a ação desenvolvida pelxs estudantes interrompeu a apresentação da peça “As tetas da loba”. O espetáculo repete aquilo que diversxs pesquisadorxs negrxs têm afirmado e coloca em cena personagens negrxs em situações estereotipadas, marca de imaginário social racista, sexista, elitista e, em certa dimensão, responsável pela violência mortífera do povo negro.

A arrojada performance do grupo de estudantes gerou as mais diversas reações imediatas: estranheza, apoio, repúdio, euforia – todas pertinentes diante do inusitado de uma ação com a qual não estamos habituadxs. No entanto, a reação que deu sequência, a partir do dia seguinte, ao conflito dramático instalado para além da quarta parede cênica, consistiu na tentativa de criminalização do grupo, mobilizada por um grupo de docentes e encenadores, em textos falados, escritos e publicados em diversas plataformas comunicacionais, bem como por práticas de acionamento da administração da universidade e força policial da cidade, em um sentido punitivo.

Em resposta e no bojo de diversas manifestações favoráveis ao grupo, docentes negrxs da ETUFBA escreveram uma carta à comunidade acadêmica, posicionando-se criticamente diante da situação, ponderando: "Não se trata de julgar as escolhas da equipe do espetáculo acima citado, nem da Organização Dandara Gusmão, mas de tentar iluminar o debate que carece de mais empenho no sentido de se tocar, realmente, em pontos que são necessários para o desenvolvimento e aprofundamento dos conteúdos voltados ao racismo, à misoginia, ao xenofobismo e ao machismo”.

O grupo de estudantes em questão procurou imprimir a mesma abordagem pedagógica em Nota Oficial, publicada em seu perfil de rede social, intitulada “Tetas do Racismo na ETUFBA”. Este texto explicita o percurso da constituição do grupo em 2016, sua motivação ético-estético-política e os precedentes históricos da luta antirracista na Escola de Teatro, que remontam a seu patrono – Mário Gusmão, primeiro estudante negro a se formar naquela faculdade em 1960.

Segundo a Nota Oficial “Em menos de 3 anos nos quais a Organização Dandara Gusmão está neste enfrentamento e compromisso contra o racismo institucionalizado na escola e as representações do racismo, a contragosto de racistas, com o apoio prático e moral de algumas pessoas, a organização já colhe os frutos desses anos de luta dentro da ETUFBA. Desde nossa chegada na universidade, em menos de um semestre, já estávamos nos articulando para suprir essa demanda, uma dívida que a ETUFBA tem com o país tendo em vista que está NA CIDADE MAIS PRETA FORA DO CONTINENTE AFRICANO”.

Muito embora a performance do dia 01 de junho possa ser tratada como um fato isolado, está conectada a um enredo dramático que se inicia com o surgimento da Escola de Teatro da UFBA há 63 anos e a hegemonia dos currículos e encenações eurocentradas. Na contracorrente desse processo, estão as ações antirracistas promovidas por diversos grupos e iniciativas negras, responsáveis por criar na Bahia um Teatro Negro, num flagrante combate às perspectivas racistas infiltradas na cena teatral baiana. Nesse sentido, a Organização Dandara Gusmão e suas diversas ações: Pretato (encenações de teatro negro que ocorrem às terças-feiras em frente à Escola de Teatro da UFBA, na rua, proibidos que estão xs membrxs do grupo de atuarem dentro da universidade); Afroclube – cineclube afrocentrado e Oficinas de Teatro de Resistência, todas realizadas com caráter voluntário e político-formativo, precisam constituir um parâmetro de trabalho para nossa luta em direção à real democratização do país.

Em lugar da criminalização e punição que se insinuam pelo uso da estrutura administrativa universitária e policial, a pedagogia crítica que o Teatro Negro realiza em suas mais diversas expressões, precisa ser, para além de acolhida, compreendida em sua potência de luta política para o atual momento do avanço neocapitalista no Brasil e no mundo, que tende a desmantelar todo e qualquer projeto público em direção ao estado de bem-estar social.

Em lugar de uma simplória reatividade, em especial em um ambiente formativo de ensino universitário, que defende sua autonomia como fator fundamentalmente democrático, aprendamos com a arte da juventude negra e sua força de construção de horizontes de luta real.

“Somente a Arte é Livre e, portanto, capaz de transformar qualquer coisa. Nós temos que transformar o Brasil a partir de nosso ofício, de nossa Arte. E mais: é preciso interromper todo espetáculo ou evento com conteúdo racista, sim!

O racismo tem que ser interrompido! Que seja a Insatisfação a nossa Lei! Sejamos Grandes! ” (Hilton Cobra, na abertura do 1o Fórum de Performance de Negra do Rio de Janeiro, em 08 de junho de 2019)

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