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Em mais um dia de protestos contra o assassinato de um homem negro pela polícia em Minneapolis, Omar Jimenez, correspondente negro da CNN, foi preso enquanto exercia sua função de jornalista

Texto: Nataly Simões e Pedro Borges | Imagem: Reprodução/CNN

Os Estados Unidos e em especial a cidade de Minneapolis, no estado de Minnesota, estão tomados por manifestações há três dias por conta do assassinato de George Floyd, de 46 anos, detido e asfixiado por um policial branco na segunda-feira (25). A violência foi gravada e repercutiu nas redes sociais.

Desde então, as ruas foram tomadas por manifestantes, que têm colocado para fora toda a revolta de mais um homem negro vítima do racismo e da violência policial. A imprensa, como era de se esperar nos EUA, tem feito uma ampla cobertura sobre as manifestações.

Durante o trabalho, Omar Jimenez, repórter negro da CNN, foi autuado e preso por policiais, que alegaram que a equipe de reportagem não desocupou a área onde era feita uma transmissão ao vivo. Jimenez mostrou sua identificação e disse aos oficiais que ele e os colegas se mudariam para um local indicado pelas autoridades. Um policial agarrou seu braço e o algemou. Toda a ação foi transmitida ao vivo em um telejornal matutino da emissora norte-americana.

No local também estava Josh Campbell, repórter branco da mesma emissora, que recebeu um tratamento bem diferenciado por parte da polícia. Campbell até descreveu o diálogo com as forças militares como respeitoso.

Como de costume, a seletividade racial nos EUA choca a mídia e a sociedade brasileira. Os norte-americanos enfrentam uma realidade de segregação que deve ser noticiada como o exemplo a não ser seguido.

Acontece que a seletividade racial também faz parte, e muito, da sociedade brasileira. Somente a Polícia Militar do Estado de São Paulo mata mais do que a polícia de todos os EUA. Na capital, onde a população negra representa 32% dos moradores, negros compõem cerca de 64% dos mortos em ações policiais. Isso, infelizmente, pouca choca o brasileiro. Pior, pouco parece explicar o quão racista é a nossa sociedade.

A seletividade no trabalho da imprensa também é escancarada. Apesar de a comunidade negra corresponder a aproximadamente 55% da população do país, quantos repórteres negros estamos acostumados a ver na televisão? Infelizmente, muito poucos ou, dependendo da emissora, nenhum.

Ser jornalista e negro no Brasil é ter cuidado redobrado para cobrir qualquer manifestação ou pauta delicada. Se um tumulto tem início em um protesto, o medo de ser atingido pela violência policial é imenso, afinal, somos negros e jornalistas. Essas duas características, difíceis de serem descritas de maneira conjunta no país, quando são, o tornam um alvo, pois vivemos em um país que criminaliza o trabalho da imprensa e a vida da comunidade negra.

O assassinato de um policial nos EUA e a prisão de um jornalista negro, enquanto o branco realizou o trabalho com tranquilidade, diz muito sobre o mito da democracia racial no Brasil, ideologia reforçada de modo cotidiano pela imprensa nacional.

É preciso dar nome ao que realmente acontece por aqui, e não ter receio de se explicitar que existe sim uma seletividade racial no Brasil, que pessoas negras são vítimas cotidianas da violência do Estado, e que a imprensa colabora para esse panorama na medida em que não cobre as desigualdades do país denunciando a discrepância racial.

A CNN informou que o governador de Minnesota, Tim Walz, se desculpou com o canal, que havia emitido um comunicado condenando o comportamento do policial. Uma cena inimaginável no Brasil.

Nesse momento, em que muitos questionam: por que aqueles atos não ocorrem no Brasil? Precisamos lembrar que lá se fala abertamente de racismo, aqui não, e lá há um respeito ao estado democrático de direitos. Manifestações como essa no Brasil poderiam gerar semanas de grupos de extermínio matando jovens em periferias e favelas de grandes cidades, sem qualquer localização dos responsáveis.

Motivos para virar a cidade de ponta cabeça não faltam para a comunidade negra no Brasil. Basta lembrar o que ocorreu há menos de duas semanas com João Pedro, menino de 14 anos, executado com um tiro nas costas. Como João Pedro, muitos têm as vidas ceifadas no país.

Vale inclusive lembrar que em outros casos, fora do contexto de pandemia, muitas manifestações foram feitas, em todas as cidades do país, mas aí vale a pergunta: onde estava a imprensa? Quando Ágatha Félix foi assassinada no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro, o movimento negro construiu manifestações em todo o país. Por que isso não virou notícia?

Para reverter essa realidade, desnudar o racismo, demonstrar a ineficácia do estado para essa operação, o trabalho da imprensa é fundamental. Somente com uma imprensa livre é possível denunciar verdadeiramente a violação de direitos da população negra e sair de onde estamos.

O Alma Preta e outros canais de comunicação têm proposto o caminho contrário ao da mídia hegemônica ao denunciar o racismo, romper com o mito da democracia racial, cobrir as violações de direitos contra a comunidade negra, e sonhar com a possibilidade de se construir uma real democracia no país, que leve em consideração os direitos da comunidade negra.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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