Neste texto, originalmente escrito na plataforma Medium, Henrique Restier, sociólogo e pesquisador sobre masculinidades negras, fala sobre a construção social por meio da qual homens negros são condicionados a colocar a virilidade à frente de demais características pessoais

Texto / Henrique Restier
Imagem / Pexels

Os estudos sobre masculinidades têm ganhado maior destaque nos debates público e acadêmico. Além disso, o campo das relações raciais também tem percebido o tema como um lugar singular para o aprofundamento das discussões sobre raça e gênero. Este texto é um convite para entrarmos por alguns momentos no “mundo masculino negro” pelo viés da virilidade.

A Força Física

Vamos começar esse diálogo por meio de uma expressão que grande parte dos homens já escutou: “Se tu voltar para casa chorando, vai apanhar aqui também”. A despeito de não ser a opinião corrente sobre ela, penso nessa expressão como uma forma sincera e séria de forjar um homem para enfrentar um mundo implacável. Não desprezo o teor duro e ameaçador, mas há amor nela. Às vezes, um amor tão grande que é preciso dizê-la, volta e meia, com o coração despedaçado; em outros casos, com raiva - da expressão e dos meninos: de quem apanhou e de quem bateu).

Notem que o fazer-se homem é uma atividade de provação constante e uma prática diária, com seus próprios ritos de passagem e códigos viris. Os desafios para tais provações podem acontecer em qualquer momento, lugar e de várias formas diferentes. Isso é um fato: qualquer homem sabe disso. E a briga, principalmente, é um desses rituais entre os meninos. Um aprendizado, gostemos ou não.

Esta expressão é uma metáfora para o que enfrentaremos ao longo de nossas vidas em diversos âmbitos. Excluindo os atos covardes e hediondos, na luta física, os homens aprendem sobre respeito, autoridade, determinação, autocontrole e frustração, princípios fundamentais para o desenvolvimento masculino, além de provar uma das mais importantes características da virilidade: a força física. Esta inclui a capacidade de defender - a si e também os outros, principalmente família e pares -, atacar e vencer.

Muitos se perguntam por que os lutadores de MMA, depois de se esmurrarem, se abraçam e falam amistosamente entre si. Eles lutam com o outro, não contra o outro. Temos combates dos mais formais aos mais vis. De qualquer maneira, o homem deve estar preparado, pois a violência sempre está à espreita, principalmente para nós, homens negros.

Isto sem mencionar as fantasias eróticas que circulam no imaginário de mulheres e homens a respeito de profissões que têm na força física e no espírito combativo seu núcleo, como policiais, operários, bombeiros, entre outros - vide os músicos da banda Village People, que satirizavam os tipos masculinos. O desenvolvimento da capacidade física para lutas, esportes e proezas sexuais é inerente ao processo de socialização masculina.

Capa do álbum "Macho Man", do Village People, lançado em 1978 (Imagem: Divulgação)

Entretanto, o homem viril não se esgota aí. Para o historiador da filosofia Jean Jacques Courtine (2012), além da capacidade física, a firmeza moral e a potência sexual seriam outros dois elementos centrais da “construção viril”. Assim, podemos nuançar os entendimentos que temos sobre a virilidade, geralmente publicizadas em termos negativos o que, no meu entendimento, são leituras reducionistas e caricatas.

Podemos, a partir de tal compreensão lançar um novo olhar sobre a virilidade, propondo construções que possibilitem um melhor aproveitamento dos sentidos positivos que ela pode representar, principalmente, para os homens negros.

A potência sexual

Para nós, o pênis ereto simboliza afirmação viril. A ereção nos confere dignidade. O pênis expõe nossas fortalezas e fraquezas, promete prazeres, prova desejos, e está sempre a um passo do fracasso. Suas dimensões e sentidos produziram obras de arte e arquitetônicas magníficas ao redor do mundo.

A penetração é um ato de poder e domínio, mas também de comunhão e aconchego. A alegoria da fecundidade masculina, na qual os espermatozoides devem estar não só em grande quantidade, como também possuírem força e velocidade para competirem uns com os outros e adentrarem o óvulo, representa um aspecto fundamental da luta pela vida. Podemos considerá-la como o impulso arquetípico masculino de projeção e foco.

Destruição e criação são faces do mundo natural. A natureza não é boa, nem má: ela é. O corpo é o suporte e a manifestação da experiência humana no mundo. Hormônios, feromônios e toda a fisiologia sexual humana dialogam, mais do que talvez gostaríamos, com as dinâmicas sociais entre os sexos.

“O hormônio modifica o comportamento e o comportamento modifica o hormônio. É uma relação bidirecional”, explica a neuroendocrinologista Maria Bernardete Cordeiro de Sousa. O sexo seria, então, uma síntese extraordinária de forças orgânicas e culturais, e a virilidade faz parte delas.

O caráter viril

Já a firmeza moral da qual Courtine nos fala envolve uma série de atributos simbólicos. Assim, a virilidade, mais do que potência física, vem carregada de valores e responsabilidades. Para exercê-la, o homem precisa provar seu caráter. Justiça e inteligência são admiradas, assim como a capacidade viril de autodomínio, comando e segurança. Virilidade é virtude. Georges Vigarello traz uma interessante definição do termo:

“A virilidade é marcada por uma tradição imemorável: não simplesmente o masculino, mas sua natureza mesma, e sua parte mais ‘nobre’, senão a mais perfeita. A virilidade seria virtude, cumprimento. A virilitas romana, da qual o termo é oriundo, permanece um modelo, com suas qualidades claramente enunciadas: sexuais, aquelas do marido ‘ativo’, poderosamente constituído, procriador, mas também ponderado, vigoroso e contido, corajoso e comedido. O vir não é simplesmente homo; viril não é simplesmente o homem: ele é um ideal de força de virtude, segurança e maturidade, certeza e dominação. Daí esta situação tradicional de desafio: buscar o ‘perfeito’, a excelência, bem como o ‘autocontrole’. Qualidades numerosas, enfim, entrecruzadas: ascendência sexual misturada à ascendência psicológica, força física à força moral, coragem e ‘grandeza’ acompanhando força e vigor.” (VIGARELLO, 2013, p. 7, grifo nosso).

Ou seja, a virilidade prescreve uma série de exigências (entendidas como virtuosas) que devem ser continuamente praticadas na busca pela excelência. E, portanto, é um fardo. Podemos chorar, sermos mais sensíveis e afetuosos, não importa. Sempre haverá modelos viris a serem seguidos e desafiados.

A normatividade e a prática

Certas discussões partem da ideia de que somos um bloco homogêneo reproduzindo, inteiramente e a todo o momento, os estereótipos e ideologias hegemônicas, o que acaba por criminalizar as múltiplas masculinidades. Devemos ter cuidado com as interpretações dualistas sobre homens negros, seja como opressores, ou como vítimas. Ou somos machistas inveterados, mulherengos, violentos e irresponsáveis, ou os assassinados, miseráveis e incapazes. Um festival de imagens que lidam com extremos. Falta dinamismo nessa leitura.

As primeiras legitimam que sejamos o grupo mais lesado em um direito elementar do ser humano: o direito à vida. As segundas nos infantilizam. Perdemos agência e poder de decisão. Evidentemente, não ignoro o poder daquilo que o sociólogo jamaicano Stuart Hall (2016) chama de estrutura binária do estereótipo, em que um conjunto de lugares-comuns racializados nos são imputados e que ao negar um, corremos o risco de reafirmar outro, permanecendo em um círculo vicioso. Contudo, significados podem ser subvertidos e utilizados em nosso favor. A luta nunca está ganha, nem perdida.

Assim, eu celebro as masculinidades negras em todas as suas contradições. A norma não é capaz de conter a nossa vitalidade. Não somos espelhos de convenções normativas. Nossa prática é plural. Suspeitamos dos discursos rancorosos e culpabilizadores embalados em ideologias “bem intencionadas”.

Dispensamos também recomendações presunçosas do que deveríamos ler, ver ou ouvir para hipoteticamente nos tornarmos “homens melhores”. Aceitamos as contribuições autênticas daqueles(as) que querem realmente colaborar com diálogo franco, generoso e inteligente conosco.

Se por um lado alguns de nós, pela força dos discursos depreciativos, nos sentimos acuados e adotamos uma postura insegura e culpada no debate, explicados como garotos arteiros ou mesmo na defensiva, assumindo postura ressentida, por outro, a experiência masculina negra veiculada pelos próprios homens negros vem se legitimando no espaço público e na efervescência do cotidiano.

Homens destemidos têm se lançado na reflexão e produção de conhecimento sobre si mesmos e seu grupo sociorracial, debatendo paternidade, trabalho, relacionamentos, autocuidado, autodefesa, dentre outros temas absolutamente pertinentes. Alguns deles tenho tido a honra de conhecer e conversar: homens que encaram as questões polêmicas e complexas de nosso tempo, de frente e com assertividade, homens que questionam o tempo todo aquilo que se espera deles, explorando as ambivalências e os significados de serem homens e viris. Então, à nossa maneira, sejamos viris!

“Eu quero ver o que vai acontecer quando Zumbi chegar. Zumbi é senhor das guerras e senhor das demandas. Quando Zumbi chega, é Zumbi quem manda.” ZUMBI (Jorge Ben).

Referências Bibliográficas

BAUBÉROT, Arnaud. (2013). Não se nasce viril, torna-se viril. In: Jean-Jacques Courtine (ed.) História da Virilidade 3: A virilidade em crise? Séculos XX e XXI, pp.190–220.

COURTINE, Jean-Jacques. (2013). Introdução Impossível virilidade. In: Jean-Jacques Courtine (ed.) História da Virilidade 3: A virilidade em crise? Séculos XX e XXI, pp.7–12.

HALL, Stuart. (2016). Cultura e representação. Rio de Janeiro: Editora Apicuri.

HAROCHE, Claudine. (2013). Antropologias da virilidade: o medo da impotência. In: Jean-Jacques Courtine (ed.) História da Virilidade 3: A virilidade em crise? Séculos XX e XXI, pp.16–34.

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