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Monique Evelle, idealizadora do Desabafo Social, recorda as desigualdades existentes no Brasil e mundo antes da pandemia e a necessidade de se pensar em políticas de enfrentamento dessa realidade

Texto / Monique Evelle I Foto / Pedro Borges

Desigualdade social não é um tema novo para o Brasil, mas é um tema urgente sobretudo nessa nova década e nesse período de pandemia do coronavírus que tornou as fraturas sociais visíveis para a maioria da população brasileira.

Antes da pandemia, tínhamos cerca de 600 milhões de pessoas no mundo vivendo com menos de US $ 1,90 por dia. No Brasil, o rendimento do grupo de 1% mais ricos cresceu 8,4%, enquanto o dos 5% mais pobres caiu 3,2, de acordo com o IBGE (2018). Além disso, um em cada quatro brasileiros, viveu com menos de R$ 420 por mês, em 2018.

O Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) de 2019, da ONU, pontua o que parece ser óbvio. Quanto maior a desigualdade no desenvolvimento humano, menor a mobilidade social entre as gerações. Ou seja, o acesso à renda, saúde e educação são os três principais fatores que interferem no grau de desenvolvimento humano das sociedades.

Sobre renda, 51% das pessoas das classes D e E perderam metade da renda ou mais na pandemia, de acordo com a pesquisa realizada pelo Plano CDE. Sobre saúde, estamos vendo o colapso do sistema público para atender a quantidade de pessoas que precisam de auxílio neste momento. E sobre educação, estamos vendo a irresponsabilidade do Governo Federal em manter o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), considerando que as classes CDE são as mais impactadas pela ausência ou menor qualidade de internet para apostar em educação à distância.

O relatório também traz sugestões de políticas públicas para corrigir as desigualdades dentro de uma estrutura que vincula a expansão e distribuição de recursos e renda. A divisão dessas políticas se dá em três partes: pré-mercado, mercado e pós mercado. A primeira refere-se à ações que auxiliem as pessoas, desde à infância, a entrarem no mercado de trabalho de forma mais preparada. A segunda afeta diretamente a distribuição de renda e oportunidades dos indivíduos que estão no mercado de trabalho. E pós mercado, está relacionada a renda, riqueza, impostos, transferências públicas e proteção social.

Direito humano à internet

Com a pandemia, percebemos que a internet agora é vista como um direito humano. E o acesso à internet e as tecnologias digitais promovem inclusão financeira. O que quero dizer é que só foi possível ter acesso ao Auxílio Emergencial do Governo Federal, os R$ 600, quem tinha um celular ou computador com acesso à internet para dar entrada no pedido do auxílio.

Além disso, o acesso à internet e tecnologias permitem que estudantes possam colocar em dias seus estudos, visto que as escolas estão fechadas em decorrência do vírus. Logo, estamos falando de direito à educação.

Por mais incrível que seja a realização de transmissão ao vivo nas redes sociais por diversos artistas, o direito à cultura não chegará para a maioria dos brasileiros por ausência de banda larga. Isso escancara a importância de ampliarmos a discussão sobre o direito humano à internet para garantir a inclusão financeira, social e cultural. 

Situação dos empreendedores negros e periféricos

De acordo com o Sebrae (2019), 99% das empresas do país são micro e pequenas, responsáveis por 27% do Produto Interno Bruto (PIB) e respondem por 54% do emprego formal. Esse cenário era antes da pandemia. Agora sabemos que há uma luta dos empreendedores, sobretudo periféricos, para sobreviver em meio à crise do coronavírus, como bem pontua a matéria publicada no site Periferia em Movimento.

Uma pesquisa realizada pelo Desabafo Social e Afrotrampos ouviu 200 empreendedores de diferentes cidades do Brasil, sendo 81,6% pretos e 77,7% mulheres. Dos entrevistados, 60,3% dos empreendedores são MEI e 30,8% não possuem CNPJ. Além disso, o maior setor de atuação é moda (20,7%), seguido de gastronomia (12,4%). Os dados divulgado pelo Sebrae em março de 2020 mostra que o setor de moda teve uma queda de 80% no varejo e 74% em todo seguimento. Já o de gastronomia, a queda é de 67% e aqueles que conseguirem se adaptar às entregas podem minimizar os impactos dos seus negócios. 

O que os empreendedores estão vivendo mostra que os futuros foram antecipados e a transformação digital acelerada. A reinvenção não é só a palavra da vez, mas também o comportamento da vez.

Faltam ferramentas, conhecimentos estratégicos de mercado e de criação de cenários futuros para que os empreendedores negros e periféricos prosperem.
Iniciativas para geração de renda. Por isso, diversas iniciativas estão surgindo neste momento de pandemia para auxiliar os empreendedores e garantir geração de renda extra.

Edital Enfrente

O edital está selecionando iniciativas que queiram desenvolver campanhas de financiamento coletivo com meta de até 30 mil reais. Para cada R$1 colaborado, a Fundação Tide Setubal colocará mais R$2, triplicando o investimento.

Fundo Periferia Empreendedora

O Fundo Periferia Empreendedora foi criado para fomentar o microcrédito produtivo nas regiões mais afastadas dos grandes centros. Financiado por doações de institutos, empresas e pessoas, o fundo visa beneficiar micro e nano empreendedores mais prejudicados com a crise causada pela Covid-19.

O recurso doado será revertido aos empreendedores por meio de créditos de até R$3.000, com 120 dias para começar a pagar, parcelamento em até 20x e com juros super baixos. O pagamento dos empréstimos será revertido para que as organizações realizadoras invistam em mais projetos relacionados ao fortalecimento de empreendedores periféricos. É uma iniciativa realizada pelo Empreende Aí, Firgun, Desabafo Social e Impact Hub.

Desabafo Social

O Desabafo Social é um laboratório de tecnologias sociais aplicadas à geração de renda, educação e comunicação. Desde o dia 17 de março, já distribuíram mais de R$ 180 mil reais para mais de 2 mil pessoas. O Desabafo realiza desafios sociais e criativos utilizando a tecnologia ItsNoon e remunera as ideias mais criativas através de micropagamentos entre R$ 60 – R$ 350 reais.

Atualmente eles estão com o desafio no ar em parceria com o Fundo Baobá, remunerando ideias de todo o Brasil com foco em ajudar pessoas em situação de risco por conta do coronavírus. Em junho vão lançar uma plataforma de educação para empreendedores com foco em transformação digital.

A pandemia trouxe para o debate público o futuro das desigualdades, agora teremos que criar estratégias para que a tragédia não seja maior do que já está sendo.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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