Educador na Uneafro Brasil, Wellinton Lopes escreve sobre as novas narrativas das periferias, trazidas pelo rap

Wellinton Lopes é educador na Uneafro Brasil

A crônica é um gênero linguístico que lida com fatos cotidianos, seja com ou sem personagens. O que é fundamental na crônica é a construção narrativa que desenha para o leitor as dinâmicas dos fatos da própria narrativa em determinado período e contexto histórico. O que cerca e conduzem seus subgêneros, – no caso a crônica jornalística e a histórica, – é a maneira como se destaca do óbvio e da banalidade o que poderia passar despercebido. Nesse ritmo a crônica se preocupa em tocar em questões culturais, políticas e sociais para criar uma determinada narrativa e descrevê-las.


A música tem um papel de construção cultural no imaginário do público que consome as suas linguagens. Isso significa que ela tem uma capacidade mobilizadora, pedagógica, política, de entretenimento e, sobretudo, descritiva. A música também tem um poder de informar e relatar sobre os fatos cotidianos, logo, isso significa, que ela pode exercer esse papel de cronista. Mas qual seria o maior exemplo desse gênero na música?


O Rap assumiu um lugar de narrativa que colocou em destaque personagens e histórias que denunciavam o óbvio, o cotidiano, em um determinado contexto, que apesar de estar cercado por períodos específicos, sempre se prova atemporal enquanto denuncia: quando podemos dizer que vivemos ainda, na periferia, como denunciava já na década de 90 o grupo de Racionais Mc’s, um “Holocausto Urbano”.


Em direito a literatura Antônio Cândido jogava ao mundo a necessidade de pensá-lo de maneira mais extensa, por que a linguagem escrita como cultura, segundo ele, era uma ferramenta que articula significados ligados diretamente às condições sociais, políticas e econômicas que são fundamentalmente atividades humanas. Era impossível falar em literatura sem falar dos aspectos sociais envolvidos nela própria. Conceição Evaristo, ao prefaciar o livro Questão de pele, comenta que é possível entender o Brasil através da literatura, das suas fases, da posição dos personagens que ilustram os cânones literários (a maioria brancos e homens) e as ausências da mulher e do homem negro na literatura. Ela reforça ainda que a mulher negra escravizada, presente nos contos de Machado de Assis e Maria Firmina dos Reis, em Pai contra Mãe e A escrava, coincidentemente revelam uma continuidade da violência racial e da condição da mulher negra como mãe. Da luta pela sobrevivência dessa mulher como um grito pelo direito a vida sem que se viva desejando a morte. E como num conto de Conceição Evaristo ou numa música dos Racionais MC’s, a vida na periferia cria personagens com personalidades fortes, embora nos enxerguemos, muitas vezes, fragilizados.


Mano Brown, DJ Kljay, Ice Blue e Edi Rock. Esses quatro nomes marcariam e combinariam no seu trabalho uma reavaliação da história do Brasil ao se colocarem como interlocutores de uma interpretação do trajeto dessa história e seus resultados na periferia. Suas músicas construiriam uma narrativa cronista sobre a periferia para o povo negro. Giroflex de viaturas e ambulâncias, cadeias, mães chorando, tiros, a várzea e os bares na quebrada, o crime, o dinheiro, os carros, as drogas, os sonhos, o candomblé e o evangelho, a violência e, entre tantas outras coisas, um eixo de denúncia: o racismo e a vontade de viver bem e livre.


“Homem na estrada” e “Fórmula mágica da paz”, músicas dos álbuns “Raio-X do Brasil” (1993) e “Sobrevivendo no Inferno” (1997), ilustram bem essa relação entre a denúncia e a vontade de viver com liberdade. A primeira nos apresenta um personagem em busca de uma reconciliação com si mesmo e a sua própria história, entretanto, a miséria e a pobreza desenham um palco para um cenário trágico, aonde esse homem, ex-presidiário, não chegaria a realizar essa reconciliação sendo assassinado por causa de boatos de que ele havia feito assaltos na quebrada. Mas o que mais marca na música é a sensação do fim inevitável e o desespero de não saber se a próxima geração viverá outra história, quando ele diz “quero que meu filho nem se lembre daqui”.

A segunda se apresenta como uma súplica de homem atravessado pelos traumas na periferia, tentando fugir da depressão, do passado, da violência, de um final trágico e em busca da paz, mas vivendo em um lugar destrutivo – ele busca outro caminho. Os dois personagens, testemunhas oculares, narram e são a própria metanarrativa da crônica das músicas.


12 anos depois a música Bené, do álbum Ladrão (2019), do rapper Djonga, traria o próprio rapper como resultado de uma realização para as pessoas que vivem na quebrada, mas ainda cercado pelos traumas da violência e do racismo. Quebrada Queer, do grupo de mesmo nome, a rapper Luana Hansen, trariam à tona questões de gênero antes não destacadas do óbvio no Rap – quando se toca em discussões como aborto e lgbtfobia. Então, como um exercício de reflexão, surge um questionamento, sobre essas crônicas históricas e essas narrativas e todos esses personagens: quais narrativas podem e devem ser construídas no nosso atual contexto?


As ações afirmativas com cotas raciais, desde antes das primeiras experiências em 2003, foram alvo de críticas negativas. Primeiro, segundo essas críticas, elas produziriam um efeito nefasto de divisão social pautado num sistema bi-racial que não explica a complexidade das nossas diferenças culturais (étnicas e raciais), que não suportariam modelos importados de inclusão social e étnico-racial. A crítica se baseia na crença de que vivemos em uma democracia racial e que vivemos num contexto de diversidade étnica que não permite que possa existir racismo no Brasil e; que o meio pelo qual as desigualdades são construídas e se consolidam, é única e exclusivamente, por questões de classe ligadas a pobreza e que nesse transito criaram um abismo de desigualdades econômicas e educacionais, portanto, basta investir recursos nos setores de educação básica para sanar o problema e trazer equidade em outros setores.


Mas as ações afirmativas tem outra capacidade que não se esgota na porcentagem de pessoas negras, indígenas, trans e travestis nas universidades e empregos públicos. Sua capacidade está na proposição de que uma vez que pessoas excluídas do processo de organização, preservação, distribuição e produção do conhecimento científico, da participação da vida política do Estado nas suas relações com o mercado, passam a decidir como se dão e a reformular esses processos com as suas experiências isso não beneficia apenas o indivíduo, mas também o grupo ao qual pertence. São a possibilidade de se construir novas narrativas em outros cenários combatendo as desigualdades e abrindo caminhos. A ciência e a política se relacionam como um instrumento de organização do mundo: cultura, tecnologia, saúde, meio-ambiente, economia. Logo, esses grupos precisam passar a protagonizar estrategicamente as decisões na construção desses instrumentos sociais.


Todavia, a percentagem e a reformulação dos processos devem se acompanhar. A candidatura pelo PSOL (2018), do historiador e educador Douglas Belchior, da UNEafro Brasil (movimento de educação popular), levantou questionamentos do movimentos negro sobre os critérios de distribuição do fundo partidário dentro do partidos de esquerda e direita.

Apontando estudo feito pelo jornal Estado de São Paulo, em matéria publicada pelo Alma Preta, Juliana Gonçalves e Pedro Borges colocariam em destaque que Candidatos brancos a deputado federal recebem 216% a mais de verba do que negros nas eleições de 2018.


O rapper Emicida lançou, em parceria com a cantora Drag Queen Pablo Vittar e a cantora Majur, a música “AmarElo”. Com vídeo-clipe produzido no Complexo do Alemão (RJ), a música fala sobre depressão, mas diferente de “Fórmula mágica da paz”, há uma metanarrativa sobre suicídio e nela uma linguagem áudio visual: os “personagens” estão vivendo conquistas, superando traumas, enquanto duvidam de si mesmos. Há um frame no prelúdio do clipe quando o rapper fala ao telefone sobre como ele tem se sentido, que o sangue que escorria para o ralo de um banheiro passa a recuar e, como resposta, entre tantas, outro momento nos mostra um homem negro comemorando um diploma.


As novas crônicas sobre a periferia estão registrando problemas e mudanças, mas é necessário descobrirmos quais linguagens e ações resguardam a possibilidade de mais mudanças positivas e o recuo dos problemas? O Rap tem cumprido seu papel, logo, precisamos criar novas crônicas nos outros campos da vida social. Produzindo tecnologia, cultura, educação e fazendo política. “Botar uma fé” que é possível ir atrás e inventar estrategicamente milhares de fórmulas mágicas.

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