Ana Amália Ribeiro levanta a discussão sobre o racismo em uma das festividades mais esperadas do ano, o Carnaval

Texto / Ana Amália Ribeiro
Imagem / Marcos Sales / Prefeitura de Vitória

Sábado, dia 23 de fevereiro de 2019, é um final de semana atípico, isto porque, é pré-carnaval e o furdunço começa invadir as ruas! Em Goiânia, temos vários bloquinhos espalhados no Setor Bueno, o “tradicional Carnaval dos Amigos” tem ponto marcado no Parque Vaca Brava, local de referência no bairro de classe média alta da capital.

Um bloquinho em especial chama atenção e destaca-se pelo seu curioso nome: “Escravos de Job”... É um grupo de foliões que tenta reunir agências de publicidade para celebrar a data na Dox Store, com patrocínio da Unimed Goiânia e apoio do jornal O popular. Mas, como não chamar atenção com um nome tão criativo, não é mesmo?

Nesse ponto do texto o leitor já deve se questionar: “é sério mesmo? vou problematizar um bloco de carnaval?!”...

Bom, meu caro leitor, sim eu vou! E se você não consegue ficar incomodado com o nome desse bloco e acha que é só uma brincadeira, talvez, esse texto é para você. Racismo de cada dia a branquitude nos dá hoje!

Vamos imaginar a pessoa que teve a ideia de criar um bloquinho com esse nome: “veeei tive uma ideia topíssima pra gente aproveitar o Carnaval de 2019...que tal a gente montar um bloquinho com o nome de ‘Escravos de Job’...e se alguém achar ruim vamos dizer que é só uma brincadeira com a música Escravos de Jó.”

Pois é, sinto muito informar, mas ao contrário do que todos imaginam, a cantiga de roda “Escravos de Jó” não é sobre o Jó do Antigo Testamento. Sinto informar a vocês brancos//cristãos//publicitários que estão lendo este texto, que primeiro: JÓ NÃO TINHA ESCRAVOS!

Segundo: DE ONDE VOCÊS TIRARAM QUE OS ESCRAVOS CRIARIAM UMA MÚSICA SOBRE UMA PASSAGEM BÍBLICA, SENDO QUE ELES NÃO ERAM CRISTÃOS?

Vocês vão ficar chocados com o que eu vou dizer, mas o correto é “ESCRAVOS DE NJÓ”, uma expressão de origem kimbundo que significa: casa. Ou seja, a música é “Escravos de Casa”...Surpreendente descobrir que escravos tinham sua própria cultura não é mesmo? (sic)

Pois é, né? Estudar história é importante! Ainda mais no nosso país que foi o último do mundo a abolir a escravidão, que durou quase quatro séculos e até hoje a população negra sofre com o descaso do Estado por causa da herança escravocrata que é perpetuada através do racismo estrutural em que vivemos.

Vocês podem ver nesse nome uma brincadeira, mas para comunidade negra a escravidão nunca será brincadeira, é uma ferida que demorará a cicatrizar, até que todos entendam o peso que certos termos carregam.

Deve ser mesmo um regime de escravidão estar numa sala com acesso a ar condicionado, água, pausa para almoço, recebendo salário e de carteira assinada...Muito difícil ter que lidar com um cliente pedindo uma alteração, só porquê ele está pagando por um serviço e quer que seja do jeito dele...A escravidão do publicitário, de classe média branco goianiense, é de causar comoção.

Respeite-nos! Respeite a nossa história!

O Carnaval é a única época do ano em que a população negra tem uma visibilidade “positiva”, apesar da estereotipização lasciva, os outros 360 dias do ano nós somos suspeitos, os marginais, os que estão recebendo um mata leão de segurança de supermercado até a morte, ou que está sendo metralhado na porta de casa em ações policiais na favela, ou que são arrastado por quilômetros por carros de polícia, ou que recebem mais de 130 tiros no carro só por querer sair pra comemorar o nosso primeiro salário, ou que são presos só por estarem carregando produto de limpeza...OU QUE RECEBE TRÊS TIROS NACABEÇA APENAS POR QUERER DEFENDER QUE SOMOS PESSOAS, QUE MERECEMOS RESPEITO E QUE TEMOS DIREITOS A DIGNIDADE E ACESSO A GRANDES CENTROS.

No Carnaval não é tudo liberado não, bom senso é obrigatório todos os dias do ano, diga-se de passagem.

Racismo é crime, mesmo que 70% dos casos denunciados nunca sofram nenhum tipo de punição. Escravidão não é um termo que se usa a bel-prazer, apenas porque você não quer ficar fazendo uma alteração em um trabalho que você é remunerado...Seria a mesma controvérsia se criassem um bloquinho chamado Unidos de Auschwitz, vocês são incapazes de entender o tamanho da problemática que é usar o termo “escravos” porque não é uma herança que atrapalha você no seu cotidiano, que te priva de ocupar certos espaços, que te impõe barreiras a cada momento que você tenta progredir.
Escravos de Job não é engraçado, e se fosse piada seria de muito mau gosto.

Branquitude dá um tempo!

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