Em artigo, a doutora em literaturas africanas e pós doutoranda em filosofia africana Aza Njeri faz uma análise do espetáculo voltado para o público infantil

Texto / Aza Njeri* | Imagem / Divulgação

Estamos fechando mais uma década e começam a brotar lembranças e listas de “top mais” por todos os lados. Eu não vou fazer algo assim nesta conversa, mas confesso que tenho uma certa nostalgia intensificada pela visita aos vazios das representatividades da minha infância. Esse amarelado da memória foi despertado pelo espetáculo político-poético “A Saga de Dandara e Bizum a Caminho de Wakanda” do importante grupo Confraria do Impossível, que acabou de passar por uma bela temporada no Sesc Tijuca, no Rio de Janeiro (RJ).

Fui à infância, porque, adulta, vi uma obra de arte imbuída de centralidade negro-africana que atende ao artivismo de Sueli Carneiro (2018) refletindo sobre o mundo e apontando caminhos estéticos e filosóficos construtivos da nossa identidade de negros aquilombados no brasil*.

A filósofa afro-brasileira, em uma potente fala no Fórum Nacional de Performance Negra proferida em julho de 2009, faz uma crítica sobre as limitações que levaram a um descompasso entre o ativismo político e o artivismo cultural; e alerta para a urgência desses laços de construção e resistência. Acredito que, dez anos após o inspirador texto, a performance e o teatro negros estão dando continuidade ao “lócus de resistência mais persistente da experiência negra desde a escravidão”, do qual nos fala Sueli Carneiro (2018, p.263).

Dessa forma, eu entrei em contato com uma peça afrofuturista infantojuvenil cujo fio suleador é afro-referenciado e atento às estratégias apontadas pela mais velha em seu discurso. Um trabalho de pesquisa e aprofundamento nos fundamentos africanos e afrodiaspóricos que nos entrega uma obra de arte contemporânea, lúdica e fruitiva em diálogo com a cultura pop e, principalmente, refletora-coletiva (Njeri, 2015) dos dramas da existência humana a partir do olhar sagaz de duas crianças negras e faveladas.

Somos abraçados, portanto, por referências que vão do atleta Usain Bolt ao filme “Pantera Negra”, de Spike Lee a Sun Ra em uma experiência prática de agência que coloca os negros e seu escopo cultural no centro dos fenômenos dessa arte. Estou pensando agência junto a Molefi Asante, que diz ser “um agente, em nossos termos, é um ser humano capaz de agir de forma independente em função de seus interesses. Já a agência é a capacidade de dispor dos recursos psicológicos e culturais necessários para o avanço da liberdade humana”. (Asante, 2009, p. 94).

O afrofuturismo, gênero que conheci nos idos anos 2000 com meu colega de graduação, o escritor Fábio Kabral, é um movimento difundido como vertente artístico-filosófica negro-africana que inter-relaciona a ancestralidade e signos africanos e afrodiaspóricos do passado e do presente para projetar um futuro honroso, digno e pleno. Ao utilizar uma estética tecnológica, metálica e cyber, o afrofuturismo é a reflexão, a partir das tecnologias ancestrais e contemporâneas sobre formas de conjurar o passado de escravidão, o presente de maafa - desgraça coletiva negra -, pondo em cheque a história hegemônica e propondo um futuro tangível para a população negra. Na peça, o afrofuturismo constrói toda a narrativa presente no cenário, figurino, adereços, iluminação, músicas e texto.

O inteligente texto e a direção são assinados pelo premiado André Lemos, que desponta no cenário nacional como um artista versátil e criativo e um diretor competente, respeitado pelos seus trabalhos, como o incrível “Esperança na Revolta” que lhe conferiu o prêmio Shell de melhor diretor na temporada passada. Há ainda a presença das poesias de Conceição Evaristo para narrar as aventuras de duas crianças negras: Dandara (Juliane Cruz) e Bizum (Wayne Marinho). Os dois vivem em um quilombo chamado Palmares, no Rio de Janeiro, e partem para uma perigosa viagem para Wakanda com o objetivo de encontrar a cura para os males do mundo e fazer o sol voltar a brilhar.

Filosófica e fundamentada no eixo civilizatório africano, temos na narrativa a reivindicação da favela como uma continuação transtemporal dos quilombos dos quais nos fala a historiadora Beatriz Nascimento (2018). Ideia fortalecida pelo fato das crianças serem oriundas de um quilombo simbólico no imaginário nacional que é Ngola Jaga ou Quilombo dos Palmares.

As crianças, representações dos heróis nacionais negros Dandara e Zumbi dos Palmares, passam por diversas aventuras que compõem os seus arcos de amadurecimento rumo ao lendário reino de Wakanda, onde se encontram com o rei T’Chala (Reinaldo Jr.), o Pantera Negra. Nessa viagem, eles encontram percalços e precisam colocar em prática os valores éticos de ubuntu e aquilombamento para sobreviverem, assim como as diásporas o fizeram. Há ainda o crescimento e a transformação do menino Bizum, que parte de Palmares para o Zumbi (anagrama de Bizum), que combate o dragão/caveirão e torna-se um herói civilizador negro brasileiro.

Valores como coragem, heroísmo, amor, respeito ao mais velhos, igualdade de gênero, representatividade, ancestralidade, preservação do meio ambiente e cuidado com o próximo costuram toda a obra, transmitindo para nossos erês mensagens éticas de bom relacionamento consigo, com o outro e com o mundo, ao mesmo tempo em que denuncia maus tratos a idosos, a condição dos hospitais e da previdência, a poluição, o individualismo, o racismo estrutural, a intolerância religiosa, a colonização cultural e os problemas do mundo urbano: os grandes males que serão mote para a aventura até Wakanda.

O cenário do artista Tarso Gentil é funcional para a narrativa e mistura o hi-tech com as adinkras. Os coloridos africanos ganham tons em neon e a sucata eletrônica ganha status de arte cenográfica. Bonito de ver!

O figurino, assinado por Reinaldo Junior e Rona Neves, é outro ponto alto da montagem. Sem fugir à estética afrofuturista, a dupla soube colocar nos acessórios mensagens sutis e dialogantes com a nossa realidade afro-brasileira, a exemplo do colete usado pelo Velho Ganga (Reinaldo Jr., Tati Vilella e Tarso Gentil) composto por vários elementos representativos simbólicos a mesma personagem, como as cartelas vazias de losartana potássica, trazendo à reflexão da hipertensão como um mal que assola a população idosa no brasil*. Também fiquei feliz com a escolha de macacões neutros com detalhes em estampas africanas, pois trouxeram mais flexibilidade aos atores em cena e casaram muito bem com os acessórios de cada personagem.

O casal de pretos velhos, griôs da nossa diáspora, Velho Ganga e Vovó Berê (Reinaldo Jr. e Rudson Martins), trazem os ensinamentos morais da história apresentados, portanto, não como um casal de velhinhos romantizado, mas como dois idosos negros, ativos, lúcidos,
generosos e, sobretudo, sábios, como são nossos anciãos. Velho Ganga é o resgate histórico do herói de Palmares Ganga Zumba, agora ressignificado para a nossa realidade de século XXI. Vovó Berê parece com as nêgas velhas que temos em casa, daquelas que enchem a gente de afeto e de comida. Ambas são personagens que compreendem o presente porque estão às portas do passado.

A montagem é conduzida no dinâmico formato de trupe, com os atores se revezando nos personagens. Interessante a cena da princesa Branca de Neve (Tati Vilella), arquétipo dos contos de fadas alienadores de crianças pretas, trabalhando a metapoética e a crítica à branquitude. O personagem Elegbara, senhor dos caminhos da aventura, traz profundidade filosófica palatável às crianças.

A personagem Dragão/Caveirão (Reinaldo Jr.) na cena da luta no ringue contra Bizum/Zumbi é de uma força plástica fruitiva e age na suspensão do grau zero da obra de arte da qual nos fala Roland Barthes. Divertida, mas séria. Vemos o garoto Bizum em transformação ao herói Zumbi, representante do povo negro, em uma luta direta contra o dragão, figura mitológica ocidental metaforizada também em Caveirão. Uma poética forma de incluir os mais novos nesse debate tão importante e que as impacta diretamente.

Não posso deixar de falar do apuro musical sob a orientação do grande conhecedor e pesquisador da música africana Fábio Mukanya e sob a direção musical de Maria Clara Coelho. O espetáculo conta ainda com Lázaro Ramos, como produtor associado; Simone Braz, na direção de produção; Reinaldo Jr também assina a direção de movimento sob a colaboração da multiartista e pesquisadora de danças do oeste africano Sabrina Chaves. O competente trabalho de luz é assinado por Rommel Equer e Maurício Fuzyama. Quem faz os bonecos são os talentosos integrantes da “Era Uma Vez o Mundo”.

A saga de Dandara e Bizum é uma obra composta por personagens históricos com arcos evolutivos interessantes na trama, principalmente por se tratar de um produto cultural para crianças, um público alvo cada vez mais antenado, inteligente e questionador. Assim pude ouvir as mais diversas reações vindas dos pequenos que lotavam a platéia, expressões de solidariedade e afeto com os heróis negros, criando pactos semióticos identitários necessários para acender o sol da humanidade.

Termino esse papo com um apelo por mais apresentações. Por uma temporada de férias, em que pudéssemos levar nossos filhos para se nutrir de Afrika e retornarem para o inóspito território escolar mais fortes e corajosos como Dandara e Bizum. Nossos heróis.

Ficha Técnica:

Texto e Direção: André Lemos
Poesias: Conceição Evaristo
Direção de Produção: Simone Braz
Produtor Associado: Lázaro Ramos
Elenco: Reinaldo Junior, Juliane Cruz, Tati Villela, Wayne Marinho e Tarso Gentil
Stand in: Rudson Martins
Orientação musical: Fábio Mukanya
Direção musical: Maria Clara Coelho
Músicas: Confraria do Impossível, Maria Clara Coelho e Domínio Público
Direção de movimento e preparação corporal: Reinaldo Junior
Danças do oeste africano: Sabrina Chaves
Figurino: Reinaldo Junior e Rona Neves
Adereços: Rona Neves e Tarso Gentil
Cenário: Tarso Gentil
Confecção de bonecos: Era uma vez o mundo
Cenotécnico: Álvaro
Costureira: Tatiane Jiquiriçá
Desenho de luz: Rommel Equer e Maurício Fuzyama
Projeto gráfico: João Eliel
Fotos projeto: Tarso Gentil
Fotografia: Natália Perdomo
Operador de luz: Luan Almeida
Operador de som: André Lemos
Assessoria de imprensa: Laís Monteiro (Monteiro Assessoria)
Parceria: Terreiro Contemporâneo e Escola Técnica de Teatro Martins Pena
Apoio: Era uma vez o mundo
Realização: Confraria do Impossível

* Não uso letra maiúscula na palavra brasil por entender o simbolismo de reconhecimento que poderia dar ou retirar com o uso desta letra.

* Aza Njeri é doutora em literaturas africanas e pós doutoranda em filosofia africana. É crítica de teatro e literatura, poeta, pesquisadora, professora e mãe. Para conhecer mais sobre o seu trabalho, acesse o canal no YouTube.

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