O historiador e ativista Henrique Oliveira analisou a trajetória do cantor e co-fundador das bandas Midnite e Akae Beka

Texto / Henrique Oliveira * | Imagem / Reprodução / Irie Magazine

Vaughn Michael Benjamin, cantor e co-fundador das bandas de reggae Midnite e Akae Beka, morreu no dia 4 de novembro, aos 50 anos, por causa não revelada oficialmente.

O músico nasceu em Antígua, no Caribe, e se mudou ainda criança com sua família para St Croix, nas Ilhas Virgens, Estados Unidos. Em 1989, juntamente com o irmão Ron Benjamin, Vaughn fundou a aclamada banda Midnite.

Com sonoridade única e ritmo verdadeiramente hipnotizante, os irmãos Benjamin rodaram o mundo levando a mensagem da cultura rastafári, com discursos contundentes traduzidos em uma atmosfera mística impossível de descrever. Quem já foi em alguma apresentação é testemunha do que falo.

Em entrevista à emissora de televisão Fox, em 2002, Ron e Vaughn Benjamin descreveram Midnite como uma reunião de pessoas remetidas na verdade, na palavra e no som, com o objetivo de restituir os meios originais de se viver e de se alimentar, sem que isso significasse um retorno ao passado, mas sim um avanço rumo ao futuro.

Midnite era muito além de música. Era um modo de viver pleno onde se tinha o completo alinhamento entre pensar e falar, restabelecendo o pensamento íntegro e coletivo.

Na visão de Vaughn, a terra precisava de uma cura e uma limpeza, após escolhas erradas que foram feitas como a adoção de um modelo socioeconômico baseado na super industrialização, superprodução e diminuição dos gastos sociais.

Vaughn Benjamin era mais que um cantor de reggae ou compositor do gênero, era um exímio conhecedor da cultura africana. Através de palestras e livros publicados, ele sempre buscou reivindicar a Etiópia como berço da humanidade antropologicamente, filosoficamente e, até mesmo, religiosamente.

Baseadas nos ensinamentos de Tafari Makonnen, imperador da Etiópia entre 1930 e 1974, as músicas do Midnite eram fortemente ligadas à cultura rastafári, filosofia e ciência africana, reivindicando uma identidade africana na diáspora, o que pode ser constatado na canção “Bushman”, faixa que abre o primeiro álbum chamado “Unpolished” – sem polimento, em tradução livre.

Na letra de “Bushman”, Vaughn se descreve como um bosquímano, grupo étnico da África Ocidental vítima de genocídio com a colonização, sobretudo pelo seu modo de vida pautado na caça, coleta e por se abrigar nas regiões de bosques em vez dos centros urbanos.

Uma pesquisa feita a partir da análise do genoma, divulgada em 2012, atestou que os bosquímanos descendem em linha direta dos primeiros humanos que evoluíram no sul do continente africano.

“Você precisa entender, você do continente africano, assim como os negros americanos, levantem-se, a sinceridade é sua irmã, eles te desumanizaram e tomaram seu nome, eles te alimentaram com porcos e nutriram sua desonra, hoje você seria somente o mesmo, levante-se, assim como as pessoas que você desrespeita e desdenha você vem sofrendo lavagem cerebral para chamar um ao outro de bosquímano, mas eu sou um bosquímano”. - Trecho de “Bushman”, Midnite.

Ainda na mesma letra, Vaughn Benjamin questiona fortemente o colonialismo europeu: “Matemática é uma ferramenta deles, filosofia é uma ferramenta deles, roubar nosso conhecimento é uma ferramenta deles”.

Em canções como “Pagan Pay Gone”, “Scarface”, “Rastaman Still Stand” e “Abydan Abbys”, Vaughn ruge como um leão contra a falsificação do entendimento da bíblia, um livro eminentemente africano adulterado pelos brancos colonizadores católicos e protestantes e utilizado como ferramenta de dominação contra os nativos da América e da África.

Em uma de suas reasonings, legendada pelo canal Osh1 Autoimagem, Vaughn fala sobre o furacão Katrina que atingiu os EUA em 2005 e vitimou principalmente a comunidade negra.Ele questionou a omissão do governo norte-americano e demonstrou o racismo institucional vivenciado pelos afro-americanos.

Paralelamente, é o que atualmente ocorre no Brasil com a situação do vazamento de óleo no litoral nordestino, onde os mais afetados, além do meio ambiente, são as comunidades pesqueiras e tradicionais, formadas majoritariamente por pessoas negras, configurando o racismo ambiental e institucional que aproxima George W. Bush e Jair Bolsonaro na mesma linha de pensamento genocida.

Em 2014, o Midnite lançou o seu último disco denominado “Beauty For Ashes” – beleza para as cinzas, em tradução livre, encerrando seu ciclo no mesmo ano. Após reformulação do grupo, com a saída de Ron para acompanhar a cantora Dezarie, conterrânea dos irmãos Benjamin, Vaughn volta aos palcos com o seu novo projeto denominado Akae Beka, resultado de mudanças de convicções e revelações, palavras do próprio artista. O novo nome foi inspirado no livro de “Enoque” (capítulo 68, versículo 20-24).

Numa fase mais intimista e com a espiritualidade como um elemento marcante, em seus quatro anos de atividade Akae Beka lançou nove álbuns e realizou diversos shows.

Um dos frontmans mais respeitados da história do reggae, Vaughn Benjamin teve sua morte sentida em todo o mundo, com manifestações de solidariedade nas redes sociais de diversos fãs e artistas que foram pegos de surpresa com a notícia de sua passagem.

Em 30 anos de carreira musical, Vaughn deixa um legado impressionante com participação em mais de 72 álbuns, sendo tratado como um visionário e verdadeiro professor por pessoas que tiveram a oportunidade de conviver com ele, pessoalmente ou por meio de suas obras.  Vale a pena conhecer a mensagem deixada por esse proeminente rastafári, na sua visão africana de ser.

“Oh Afreeca, e eu ainda chamo você de Mãe
Tomara que você nunca seja governada
Controlada por nenhum dólar ianque
Oh Afreeca, e eu ainda chamo você de Mãe
Tomara que a prosperidade a governe
Africa I belong I belong I belong (…)” - Trecho de “Mama África”, Midnite.

* Natural de Salvador, Bahia, Henrique Oliveira é historiador e militante do coletivo negro Minervino de Oliveira. 

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