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O privilégio branco é, acima de tudo, uma aceitação ou a não cobrança de algo além da mediocridade, do raso, da nota 6. Como já dizia o Racionais MC’s: “a meta do negro é o 10, pois o 9,5 nem rola”

Texto: Ariel Freitas | Imagem: Reprodução

É, preto. Algumas coisas são como Tupac Shakur já dizia: nunca mudam! E não tem como esperar outro resultado em um país que mergulha em duas realidades diferentes. De um lado, um povo que conhece a fundo o nível da desigualdade racial existente no Brasil e, quando aprende a sobreviver nestas áreas, ainda é necessário correr atrás de muito conhecimento para ser bem-vindo em terras que são consideradas firmes e estáveis. Na outra parcela da população, há pessoas que desconhecem ou não reconhecem esse tipo de experiência sentenciada para maioria da sociedade que não possui os traços finos e o tom de pele mais claro. E, logicamente, não passaram pelo árduo processo de aprovação perante às dificuldades impostas como barreiras diárias.

A simples presença desses dois cenários distintos revela um fator importante na estrutura atual de conhecimento e acesso do Brasil. Enquanto uns sobrevivem em meio a tantos quebra-cabeças que, muitas vezes, possuem peças que não se encaixam, outros sempre trilharam o caminho mais acessível. E diferente dos cálculos matemáticos onde a ordem dos produtos não altera o valor final, nessa jornada de conhecimento e acesso o resultado sofre mudanças drásticas. Uma pessoa negra que experimenta de perto o gosto das dificuldades geradas pela diferença racial, entende desde cedo que o ditado narrado por nossas mães e compartilhado pelo Racionais MC’s na música “A vida é um Desafio” é real.

“Filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor”. E cá entre nós, nego, nesse sistema atual o privilégio de não se adiantar e ainda ser visto como competente ou digno de espaço na área que atua tem cor e endereço. Aliás, é no contraste forte destes ambientes que é possível observar um elemento interessante: o abraço da mediocridade para uns e a exigência do extraordinário para outros.

É na existência deste berço que aceita o medíocre para uma determinada parcela da sociedade que nascem Caio’s Coppola’s no Brasil adentro. Porém, essa curta régua de meritocracia que mede a competência de Coppola’s, não é usada para avaliar os Silvas, os Santos e os demais sobrenomes que geralmente estão relacionados a população preta ou parda. Esse mesmo instrumento de cálculo que observa os esforços de Coppola’s é usada para bater ou renunciar a habilidade cognitiva de outros.

Logo, a ausência deste espaço de conforto revela múltiplas consequências nos resultados de acesso ao conhecimento e oportunidades. Ao mesmo tempo que uns aproveitam uma trajetória sem dificuldades nos fatores de ascensão dentro na sociedade (vida acadêmica, profissional e etc.), outros encaram o caminho preenchido por obstáculos. Entre eles, o fantasma da evasão escolar, o alto índice de desemprego, o vazio familiar, a mira dos 23 minutos e das balas perdidas que sempre são encontradas em corpos negros e periféricos.

Com pistas diferentes para cada “velocista”, a corrida nunca foi realizada para ser uma disputa que preza pela igualdade na competição. Entretanto, a preparação para enfrentar os diferentes obstáculos presentes nessas provas apresenta outro fator interessante: a chegada de Sueli’s Carneiro’s e Silvio’s Almeida’s. Os reflexos dessas barreiras diárias criam “competidores” com uma bagagem invejável de experiência em diversos assuntos. E, claro, o surgimento deles são compreendidos como exceção da regra e não algo natural. Porém, até eles, não recebem a projeção e o tratamento nacional que suas trajetórias trilharam. A historiadora e pesquisadora Geovanilda Santos explica no livro “Relações raciais e desigualdade no Brasil” que essa fórmula é uma prática de naturalizar a desigualdade no país: “O objetivo dessa organização política é naturalizar a desigualdade para fortalecer a convicção de que não há nada a fazer”.

Na mesma velocidade que as mídias brasileiras propagam a imagem de um aprendiz da mediocridade, que possui o significado de algo raso, e transformam em algo digno de atenção, de argumentos sólidos e inteligentes ou como o locutor de uma mensagem verdadeira que outros não conseguem reproduzir pois falta coragem, ela compartilha a representação de negros carregadas com distorções e estereótipos diariamente. Entre eles, o mito do negro agressivo ou sem paciência.

Perigosa e abastecida todos os dias, essa fonte dos veículos de comunicação cria uma disparidade muito maior entre os negros e brancos quando o assunto é competência na sua área de atuação. Para uns, um sinal verde para compartilhar em rede nacional conteúdos duvidosos ou argumentos distorcidos. Para outros, um olhar crítico sobre qualquer argumento pronunciado na sua aparição. É cobrado para uns a autenticidade na fala, as fontes de estudo e etc. O privilégio branco é, acima de tudo, uma aceitação ou a não cobrança de algo além da mediocridade, do raso, da nota 6. Como já dizia o Racionais MC’s: “a meta do negro é o 10, pois o 9,5 nem rola”.

Ariel Freitas é jornalista, escritor, ativista e músico.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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