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Lançamento em Pernambuco reuniu o editor-chefe Pedro Borges, as jornalistas Débora Britto, Fabiana Moraes e Lenne Ferreira, que assina o editorial a seguir 

“Cês tão ligado que o que nós chama Nordeste, na verdade, foi inventado? 
Porque tu, paulista, não se considera sudestino?
Mineiro e carioca tem identidade própria.
Mas é tudo a mesma ‘merda esses tal de nordestino!’”.(Assista o vídeo da poesia completa aqui)

Os versos da poeta e escritora pernambucana, Bell Puã, nos provoca a pensar sobre o estigma imposto aos mais de 51 milhões de habitantes que vivem nos nove estados que compõem o Nordeste brasileiro. São estereótipos que parecem não ter data de validade e, historicamente, tem sido sustentados pela grande mídia hegemônica, racista e classista, que reforça o senso comum e não reflete a diversidade da região. É este mesmo censo que pauta o discurso de brasileiros e brasileiras a exemplo do presidente da república, que, frequentemente, dispara declarações xenofóbicas na tentativa de colocar o Nordeste dentro de uma caixinha que não lhe cabe. “Aqueles Paraíbas”, tenta apequenar o “líder” de uma nação que não foi ensinada sobre suas raízes índigena e nordestina.  

Nossa região, tão associada à miséria, ao coronelismo, messianismo e ignorância  é a mesma que iniciou o projeto de democracia do país, lutou pela sua autonomia política e igualdade racial. Exemplos não faltam: A Revolução Praieira (1840); Insurreição Pernambucana (1645) e Conjuração Baiana (1798). Negar a fundamental importância não só histórica, mas também econômica deste lado do mapa, é ser desleal com milhões de mulheres e homens, que constituem as bases da nossa sociedade seja botando o asfalto no chão ou produzindo conhecimento e construindo revoluções. Há de se reconhecer que a migração nordestina para outras regiões do país possibilitou o crescimento econômico de cidades como São Paulo, algo bem pontuado pelo rapper Emicida: “se os nordestinos acordarem e não quiserem trabalhar, São Paulo pára”. 

Quatrocentos jagunços prisioneiros em 1897 (Flavio de Barros/Acervo Museu da República)

Jangunços de Canudos em 1987. Nordeste da fome e do messionismo é uma imagem pausada no imagiário brasileiro 
(Flavio de Barros/Acervo Museu da República)

Pensar sobre o preconceito regional é observar como a mídia tradicional tem reproduzido a cristalização de um Nordeste de “cabras da peste”. O piso de chão rachado, o icônico chapéu de couro que adorna candidatos em período eleitoral, as pessoas famintas e maltrapilhas tal qual imagem do exército popular de Canudos representa elementos de um cenário pausado na memória do país. Em inúmeros casos, é possível constatar que, para a mídia corporativa brasileira, falar do Nordeste é falar sobre seca e miséria. Ao longo dos anos, a imagética que é vendida reforça um lugar de atraso que não corresponde aos feitos de uma região que costurou mudanças significativas e que deram um novo destino ao rumo do Brasil. 

O evidente equívoco nas falas que não exaltam a relevância do Nordeste para a formação do país ratifica a ignorância nacional sobre uma região que serviu de piloto para um projeto de nação que nasceu nordestino. E isso pode doer muito aos ouvidos “nordestefóbicas”, mas não custa repetir: Foi o Nordeste quem deu cria a este país visto que foi exatamente aqui que os colonizadores fincaram suas bases de dominação e esbarraram na resistência indígena. É o tipo de tópico que não está posto na nossa literatura, por exemplo, graças a um processo de apagamento dos povos originários enquanto civilização vigente no Brasil antes da invasão das américas. Refletir sobre o processo que levou à formulação de um senso comum que aborda o Nordeste quase que como “acessório” é também um exercício de olhar para a nossa História e entender os elementos que influenciaram na construção do imaginário social sobre a nossa região. Neste contexto, a comunicação independente tem atuado como grande difusora de uma narrativa outra, comprometida com a desnaturalização de fatores como o racismo, herança escravocrata, que estrutura desigualdades e configura a nossa sociedade.

Apesar da larga escala de alcance dos meios de comunicação hegemônicos e fundamentados pelo viés da branquitude, muitos pensadores nordestinos têm criado narrativas que se contrapõem a esse olhar reducionista e preconceituoso. Nos campos das Artes, da Literatura e Pesquisa são vastos os trabalhos que ampliam horizontes sobre a região. Em “A invenção do Nordeste e outras artes”, o historiador paraibano Durval Muniz de Albuquerque, fala sobre a necessidade de “dissolução do Nordeste”. “O Nordeste é uma construção imaginária, discursiva, em grande medida conservadora e reacionária”, afirmou. Na obra, ele reflete sobre os signos inventados para dar sentido aos interesses das elites senhoriais saudosas da “Casa Grande Senzala”, em decadência no período dos anos 30, quando Sul e Sudeste viraram eixo econômico do país. Esse saudosismo, influenciado pelo pensamento de Gilberto Freyre, encontra eco dentro do atual discurso da elite brasileira, tão colonialista e que, estrategicamente, usa e abusa do imaginário popular para engessar toda uma região e se manter no poder. 

A jornalista e professora da Universidade Federal de Pernambuco, Fabiana Moraes, tem se dedicado a problematizar e questionar o tratamento que é dado ao Nordeste pelo resto do país em trabalhos como o livro reportagem “Os Sertões”, uma releitura da obra clássica de Euclides da Cunha, de 1902, que retratou a Guerra de Canudos. Logo na introdução da obra, que foi premiada com o Esso de Jornalismo, ela questiona: “Com licença, moço, e desculpe a curiosidade: não há outra cor no Sertão? Amarelo ou Azul? Ou ele é todo assim, esse tom de chão rachado?”. Esse cenário, tão presente nas obras do período conhecido como “Romance dos 30”, reproduzido por nomes como Graciliano Ramos e José Lins do Rêgo, carregado por tons dramáticos, até hoje referências nos vestibulares de todo o país, parece muito marcado no imaginário dos brasileiros e brasileiras. São trabalhos fortes e de grande relevância não só para o campo da Literatura como para a Sociologia e História, mas que não podem servir de parâmetro único para se entender um Nordeste que é célula viva e pulsante, portanto, em constante transformação. senhora do destino

Exibida em 2004, novela global escalou atriz Suzana Vieira para interpretar uma nordestina permeada por clichês
(Crédito: Divugação/Globo)


Para além da mídia, vale refletir sobre quem são os responsáveis por manter essa pasteurização dos traços de uma região tão rica e diversa. Durval observa que, não só a Literatura, mas o Cinema e outros campos das artes pautados por olhares “estrangeiros” também contribuíram para consolidar o senso comum sobre o Nordeste do Brasil. As novelas televisivas, por exemplo, com expressiva inserção nas casas brasileiras, não parecem interessadas  em recontar essa história. Basta revisitar obras e inúmeros personagens vividos por atores sulistas que interpretaram o nosso sotaque e comportamento de forma exótica e rasteira. Em “Senhora do Destino”, a atriz paulista Suzana Vieira interpreta uma nordestina cheia de clichês. Há tempos atrás, amargou cancelamento público por insinuar que as pessoas do Nordeste não tinha formação política.

Nada de novo em um país que elegeu um presidente homofóbico, racista e misógino, que chama índio de “vagabundo” e declara: “O povo do Nordeste é preguiçoso, só vive na rede”. Quem dera! Para gente como ele, admitir de onde viemos é constatar o que sempre foi renegado pela sociedade brasileira, que é a nossa origem tem a pele escura indígena. E se não há vontade política nem responsabilidade da mídia concentrada no eixo Sul/Sudeste, resta aos próprios nordestinos apresentarem à população de todo o país os tons e as cores que têm o nosso lado litorâneo do mapa. O jornalismo independente, produzido especialmente no NE, já tem percorrido esse caminho de desconstrução com projetos como Afoitas, Caranguejo Uçá e Blogueira Negras, que ofertam uma outra perspectiva de Nordeste a partir da escrita e produção de comunicadores negras e negros.

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Obra da jornalista pernambucana Fabiana Moraes desconstrói o Nordeste midiatizado e apresenta outros tons da região
(Imagem: Divulgação)

Até aqui, são muitos os esforços para “dissolver” esse Nordeste inventado. Vozes como a da poeta e escritora Bell Puã, da MC Bione, que nos empoderam com Nordestes outros. Por isso, a importância de difundir autores, artistas, pensadores que constroem uma narrativa decolonial. É sobre reaprender nossa região a partir de olhares afrocentrados como de pensadoras como Fabiana  Moraes, que, em Os Sertões, discorre:  “a terra dos índios, quilombolas, cientistas, ciganos, agricultores, empresários, travestis; onde se bebe cachaça com Coca-cola e se mistura incelência com AfrikaBabaataa”. 

Somos diversos e não cabemos em nenhum rótulo. Somos Alagoas, Bahias, Cearás, Maranhões, Paraíbas, Piauís, Pernambucos, Rio Grandes dos Nortes e Sergipes. Somos Forró Pé-de-Serra e Bregafunk em alta potência, Coco de Roda, Axé e Trapp. Somos cuscuz com galinha guizada e fogueira acesa em noite de luar. Somos cabra e minas da peste. “Respeita a capitania de Zumbi dos Palmares, símbolo da negra luta”, exige Bell nos seus versos. Respeita a terra de Luiz Gonzaga, Mãe Beth de Oxum e Shevchenko e Elloco. 

É a diversidade desses nordestes que o Alma Preta Jornalismo quer pautar. Para construir um país com mais justiça e igualdade racial, nordestinizar as nossas narrativas e concepções de Brasil é preciso. Portanto, nordestinize-se! 

 

 

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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