Mas afinal, um pardo ou um mestiço pode se considerar negro? No país da miscigenação, do embranquecimento e da colonização, a resposta para essa pergunta é mais importante do que se imagina

Texto / Catharina Rocha | Imagem / Reprodução

Gicelle Alves Souza Macedo, de 36 anos, é dona de um salão de beleza na zona sul de São Paulo. Nascida na cidade de Mascote, Bahia, ela mora em São Paulo há aproximadamente 10 anos e é mãe de três filhos.

As questões raciais nunca lhe foram uma questão de vida. Gicelle sabe que tem filhos negros, Gicelle sabe que não é uma pessoa branca, mas, quando lhe perguntamos “O que você é?”, a resposta foi direta: “na verdade, eu não sei o que responder. Eu me olho no espelho e não me encaixo. Não me vejo branca, não me vejo preta... Morena? Bom, talvez isso não exista... E me sinto assim, uma coisa meio indefinida”.

Na infância, o apelido mais comum “sarará” se dava ao fato de sua pele ser marrom com toque mais avermelhado e combinar com os cabelos cacheados e castanho-claros, quase vermelhos. “Eu odiava. Os meninos na minha cidade faziam muita chacota. E eu não entendia, nem sabia o que era ser ‘sarará’, ‘cabelo de fogo’. Eu queria morrer!”, ela conta.

Foi com quinze anos que Gicelle começou a alisar o cabelo e a tingi-lo de preto. “Achava que se eu pintasse o cabelo assim, as pessoas pelo menos iam começar a me chamar de morena. O que para mim, é melhor do que sarará, mesmo ainda não sendo uma coisa definida. Queria mais era fugir dessa coisa estranha, de não me encaixar com ninguém”, diz.

O caso de Gicelle ainda levanta outro ponto: no Brasil, a classificação racial, de acordo com a perspectiva de outros, muda geograficamente.

Por questões históricas, o Sul do país possui, predominantemente, uma quantidade maior de população branca. A cidade de Cunhataí, no estado de Santa Catarina, por exemplo, segundo o IBGE, é o único município do país que não registrou pretos em sua população no último Censo.

Já no Nordeste, a predominância negra se acentua nitidamente no caso de Antônio Cardoso, na Bahia, pois se trata da cidade brasileira mais ciente de sua negritude. É o único município do país em que mais da metade de habitantes se autodeclarou preto no Censo de 2010 (se somar os pardos, a porcentagem pula de 50,6% para 87%).

Gicelle

Gicelle Alves Souza Macedo, de 36 anos. Foto: Arquivo Pessoal

Como Gicelle cresceu justamente no estado que possui a maior concentração de pessoas negras, a Bahia, mas veio, como muitos brasileiros, morar na região sudeste, ela constatou que a percepção de outros em relação a ela e às suas características se tornou maior.

“Em São Paulo, eu sou mais diferente. As pessoas falam mais sobre a cor da minha pele, sobre como eu sou exótica e como eu tenho a cor do ‘pecado’”, revela.

A miscigenação de Gicelle é questionada em um ponto muito comum, com os demais brasileiros: o do desconhecimento.

Sua bisavó materna era indígena e fazia parte de uma tribo no estado do Ceará e lá ela deu a luz à avó de Gicelle. O distanciamento da família em relação à tribo e à cultura indígena ocorreu de forma forçada. Gicelle conta que a avó foi levada embora da tribo ainda muito nova, por uma família baiana que a “adotou”. E essa informação da origem indígena, foi revelada há apenas pouco tempo.

Já em relação ao lado paterno, Gicelle não sabe ao certo, só tem certeza de uma coisa: que seu pai era um homem negro, de pele escura.

Como a microempresária perdeu a mãe ainda recém-nascida e o pai, na mesma época, abandonou a família, Gicelle foi criada pela avó, sem que conhecesse a origem da metade de sua árvore genealógica. “Eu só havia o visto por foto e não tinha contato nenhum com a família dele... Quando me perguntam sobre a minha árvore genealógica, o máximo que posso dizer é sobre a minha avó sendo índia, mas também não sei que tipo de povo indígena, nem se tenho mais alguma mistura em meu sangue (que provavelmente tenho)”, ela conta.

O caso de Gicelle é somente mais um dos resultados da diversidade brasileira, que não possui uma cultura perfeitamente homogênea, mas sim um mosaico de diferentes vertentes culturais e étnicas.

Seria, de fato, muito mais simples somente aceitar que nossa etnicidade é realmente indefinível, subjetiva e que respostas concretas são inexistentes, em uma discussão que é muito baseada pela perspectiva individual de cada um.

O problema é que faz parte da necessidade humana essa sensação de pertencimento e é em pessoas como Gicelle que a dificuldade mais se apresenta, pois a classificação não depende somente da forma como você se enxerga, mas sim como a sociedade te vê.

“Eu gostaria realmente, de saber definir o que é o certo. Saber o que eu sou. Mesmo que não haja uma resposta certa, mas eu ter pelo menos uma ideia, um padrão”.

Podemos perceber também que mesmo se Gicelle soubesse se identificar, ainda existiriam pessoas que discordariam de sua ótica sobre si mesma.

Amanda Leite

Amanda Ferreira Leite, de 24 anos. Foto: Arquivo pessoal.

É o que acontece com Amanda Ferreira Leite, de 24 anos, formada em produção editorial. Amanda, em comparação a Gicelle, possui um tom de pele mais claro e é filha de mãe negra e pai branco. Diferentemente de Gicelle, Amanda mantém a forma de seus cabelos naturais, cacheados, desde muito nova. Por esse motivo, a percepção de outras pessoas em relação a ela torna-se um pouco mais concreta, pois o fenótipo negroide, de cabelo afro, funciona como uma espécie de autoafirmação de sua classificação.

Apesar disso, Amanda continua sendo constantemente questionada sobre sua declaração. Ela conta sobre uma situação em que precisou renovar seu Registro Geral (RG), e que, como parte do procedimento, teve que declarar sua raça. Como sempre faz em situações do tipo, assinalou a opção “preta”, porém quando pegou em mãos a devolutiva de sua ficha, haviam alterado sua classificação para “parda”.

“Eu não falei nada, porque realmente não havia necessidade. Afinal, essa informação nem mesmo consta no meu RG, mas foi uma situação extremamente desconfortável”, revela. “A atendente me perguntou, eu me declarei e ela alterou porque quis. Porque me olhou, parou e pensou: ‘acho que não, eu te vejo como parda e assim será’, então, qual é o sentido da auto declaração?”.

Dentro de sua casa, a situação não é diferente: sua mãe acredita veemente que Amanda é sim uma mulher negra e sempre lhe incentivou a pensar assim; já seu pai, acredita que pelo fato de sua cor ser mais clara e sua miscigenação ser oriunda de uma geração próxima, ela é o que se chama de “morena”.

No caso de Amanda, a classificação parda se torna um problema, pois seus cabelos e seu biotipo são parte do que se julga por uma pessoa negra, pelo senso comum. Nas propagandas, na televisão, no cinema, quando retratam uma mulher negra, é exatamente tipos como o de Amanda que aparecem.

Porém utilizar da classificação parda em pessoas como Amanda, é incluí-la dentro do que se considera “negro” no Brasil.

Para Amanda, sua classificação como preta é um ato de resistência contra diversos momentos de preconceito velado pelos quais já passou.

“Se eu sofro discriminação na rua, porque as pessoas me acham preta, por que diabos eu não me classificaria assim? Eu vivo como uma pessoa negra, eu socializo como uma pessoa negra e eu sou vista como uma pessoa negra”.

Amanda mora na região da zona Sul de São Paulo e, por ser uma jovem de classe média, costuma frequentar lugares com predominância de pessoas de maior poder aquisitivo e brancas. Ela revela que constantemente recebe olhares tortos, tratamentos hostis e é até diversas vezes ignorada e acredita que se deve ao fato de ser “uma pessoa de cor”.

“Uma vez eu estava na praça de alimentação do Shopping Pátio Paulista, segurando uma bandeja com comida, que eu havia acabado de comprar, e uma mulher chegou e tentou colocar a bandeja dela sobre a minha, porque acreditava que eu trabalhava como faxineira ali”, relata.

Com a família por parte de pai, ela disse já ter vivenciado situações em que deixaram claro uma diferença de tratamento por não ser branca e o mesmo acontece em diversos momentos de sua vida, porque segundo ela, o preconceito “é o seu dia-a-dia”. O problema é que quando Amanda diz que é negra para as mesmas pessoas que, conscientes ou não, praticaram preconceito racial com ela, a devolutiva é de que ela não é negra, mas sim, “no máximo parda”.

“Quando alguém me diz que eu não sou negra, que eu sou parda, que eu não sou tão escura assim, isso não significa que essa pessoa genuinamente ache que eu não sou negra, isso significa que aquela pessoa se sente mais confortável acreditando que sou assim... Ninguém quer dizer que namora uma preta, que trabalha com uma preta, que convive com uma preta... E pior, uma preta que estudou, que sabe falar bem e que sabe se defender com argumentos concisos”, reclama.

O professor Carlos Machado classifica esse tipo de situação como uma decorrência do processo histórico que passou a ver a miscigenação como algo necessário, para se negar a negritude no país. “O conceito de ser negro realmente não encaixa em um único estereótipo, porque ele muda com as relações inter-raciais. Então, quando você é negro e não está no que é considerado o ‘padrão’ do negro as pessoas tendem a dizer que você não é negro... Mas se o seu nariz é mais afilado, se sua pele é um pouco mais clara ou o seu cabelo é liso, você não é negro? Você é, mas aí entra a questão do colorismo e do embranquecimento”, explica.

O colorismo e as nuances do negro

O colorismo é um termo criado em 1982 por Alice Walker e que, basicamente, diz que uma pessoa negra de pele mais clara possui mais vantagens em relação a uma pessoa negra de pele mais escura, pois esta primeira consegue “transitar” e mesclar em alguns contextos como uma pessoa branca.

Ou seja, quanto mais pigmentada for a pele de uma pessoa, mais exclusão e discriminação ela sofrerá – e quanto mais clara a cor de um negro for, mais vantagens ele possuirá (mas ele nunca será aceito como uma pessoa branca, de fato).

A doutora em História Social e consultora no Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) nas áreas de Gênero e Educação, Giselle Cristina dos Anjos Santos, classifica o colorismo como uma questão que vem sido trazida desde o nosso passado colonizador.

“Nossa constituição foi realizada a partir de um discurso e de práticas sociais que tendiam a considerar a prática da miscigenação como um equívoco, que colocava os mestiços num patamar inferior ao do homem branco, mas que ao mesmo tempo, os colocava em lugares e lhes dava oportunidades que aos negros retintos eram negados”, detalha.

Para Giselle, enxergar a prática da miscigenação como um referencial positivo da identidade brasileira, é na realidade mascarar um processo de violência e de subalternização de corpos negros, em especial de mulheres negras. “A miscigenação foi e ainda é um processo historicamente ligado às práticas de relação de poder e à violência”, pontua.

Justamente por partir desse histórico em que, de alguma forma, a população não-branca de pele mais clara pôde possuir algumas vantagens sociais e foi intencionalmente incentivada, o número de mestiços é significativo em nossos censos populacionais.

Giselle aponta que é importante ressaltar que essas pessoas, que embora não sejam negras retintas e não estão no cerne das consequências que a discriminação racial traz, ainda sim, não possuem a posição de privilégio de pessoas brancas. “Na maior parte das vezes, aqueles que não são brancos, mas que não são retintos, conseguem chegar a um patamar social superior, porém nunca são efetivamente incluídos, nunca estão totalmente numa condição em que podemos chamar de privilegiada”, afirma.

Giselle exemplifica o colorismo da seguinte forma: “imagine uma festa na qual pessoas negras de pele retinta são barradas na porta; porém, pessoas negras de pele mais clara, ou pardos, conseguem entrar. Ainda sim, essas pessoas jamais terão acesso a área vip dessa festa.”

Ainda a respeito do debate sobre colorismo, dentro do contexto brasileiro, que parte da lógica da miscigenação e está fundado a partir do discurso da identidade nacional, Giselle aponta como uma discussão ainda muito recente e que necessita sim de uma ótica mais profunda da sociedade como um todo.

Em sua perspectiva, aliás, que é partilhada por muitos movimentos em prol do ser negro que já vêm construindo uma argumentação sobre a temática, Giselle acredita que o termo mais adequado para o que se chama “colorismo”, é o da “pigmentocracia”.

“A pigmentocracia também fala sobre esse processo de estruturação da sociedade e como tendemos a privilegiar tonalidades de pele mais claras no lugar daqueles que são mais pigmentados”, explica.

A historiadora ressalta que o termo carrega um sentido político, histórico e sociológico mais forte e importante, do que o de colorismo. “Ainda que a nomenclatura ‘colorismo’ seja muito importante e válida, principalmente por ter ganho maior espaço recentemente em redes sociais, nesse cenário de militância um pouco mais jovem, o conceito de ‘pigmentocracia’ traz na sua própria definição e etimologia o que é central: o aspecto da relação de poder que é pautado e que define o que favorece ou desfavorece aquele que possui mais ou menos pigmentação”, enfatiza.

Conversamos sobre a temática do colorismo com Antônio Carlos Malachias, pesquisador do Núcleo de Apoio à Pesquisa e Estudos Interdisciplinares do Negro Brasileiro - NEINB/USP e consultor do MEC/SECAD para a coordenação e elaboração do Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana. De acordo com sua opinião, “é importante perceber que, embora seja um termo importado dos EUA, o colorismo se apresenta no país de uma forma diferente”.

Segundo ele, a maneira como tem sido feita a transposição do termo para o país pode gerar um entendimento equivocado do sentido em nosso cenário.

“As bases de construção de uma identidade étnico-racial no Brasil são construídas de forma diferente. Nos EUA, é o ser branco quem determina para o negro, que aquele não é o lugar dele, que ele está segregado dentro da sociedade. O modelo de dominação norte-americano se difere da nossa construção, a partir do próprio processo de colonização que, aqui, implica em relações entre os grupos étnicos ocorridas de forma forçada”, detalha.

O pesquisador volta a pontuar as questões de Eugenia e do histórico em respeito da miscigenação, que foi valorizada dentro de um processo de embranquecimento no Brasil e as relaciona diretamente ao colorismo ou pigmentocracia. “Se entendermos o colorismo como uma ciência ou um comportamento pigmentocrático, em que os mais escuros são mais preteridos, ferimos o que está na essência da alma brasileira, que é a crença de uma sociedade homogênica”, ou para Antônio Carlos, essa forma de miscigenação é o que mais dificulta o nosso entendimento das relações raciais e da identificação do nosso povo.

“Pensar o colorismo no Brasil, com esse modelo racial tão particular, faz com que as pessoas com ancestralidade ou ascendência negra, sejam obrigadas a reivindicar a sua condição de negro, enquanto que nos EUA, por exemplo, nem é necessário fazer essa reivindicação. Tendo em seu sangue, você é negro e pronto”.

Portanto, Antônio Carlos conclui que essa definição, por ser mais “fácil” nos EUA, e ser vista, não só pelo ponto de vista do próprio indivíduo, mas também pelo ponto de vista legal, “é possível organizar a sociedade a se estruturar contra o racismo e a segregação, de forma muito mais eficaz”.

Para ele, por olharmos a miscigenação de uma forma mais amenizada e ignorarmos, grande parte do tempo, o processo de crueldade contra o negro e o próprio mestiço, criamos a falsa ideia de que aqui em nosso território possuímos a chamada “democracia racial”.

“No Brasil, desde sua colonização, o preconceito racial contra o negro e o índio sempre existiu e se apresentou de forma extremamente violenta, mas a partir de construções históricas como as leis de embranquecimento, passamos a ter o mestiço ou pardo, como um símbolo de diminuição da população dessa raça considerada ‘inferior’”, diz o especialista.

Ou seja, desde então, foi construído um cenário em que o racismo se apresenta de forma velada. Pessoas mestiças e pardas, que em qualquer parte do mundo são consideradas como negras, não se veem a partir dessa ótica. De acordo com Antônio Carlos, possuem de forma mais amenizada “o revide de povos negros em relação ao grupo do dominador (do homem branco) e faz com que tenhamos essa compreensão menos objetiva de quem somos”.

Para o filósofo Clodoaldo Arruda, “não existe uma matiz de cor para definir quem é e quem não é e o que existe no Brasil é um esforço em não se reconhecer isso e essa questão está diretamente ligada ao racismo estrutural”.

Em sua opinião, “tratar a negritude como se fosse algo opcional, é algo errado”.

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