Especialista em Educação Superior pelo Instituto Federal de São Paulo, Ricardo Corrêa escreveu para o Alma Preta sobre a trajetória do maior líder da luta contra a segregação racial na África do Sul, que completaria 101 anos em 18 de julho

 Texto / Ricardo Corrêa | Imagem / Reprodução

Arrisco-me a dizer que Nelson Mandela foi uma quimera que passou em nossas vidas deixando lições de resistência, perseverança e humanidade. Um homem que sacrificou a própria existência em busca de justiça onde a segregação racial vitimava milhões de sul-africanos negros.

Em reconhecimento da sua contribuição, a Assembleia Geral da ONU, em 2009, declarou o dia 18 de julho como Dia Internacional de Nelson Mandela. Portanto, somos convocados a rememorar a experiência desse herói, sem perdermos de vista que qualquer espaço é insuficiente para descrever sua extensa trajetória.

Nelson Rolihlahla Mandela, apelidado Madiba, nasceu em 18 de julho de 1918, na aldeia de Mvezo no Transkei, África do Sul. Ainda muito jovem presenciou uma doença pulmonar que levou o pai à morte. Em seguida, a mãe o entregou a um tutor para que cuidasse da sua educação, conforme desejo expressado em outros tempos pelo falecido marido.

No ano de 1939, Mandela conseguiu uma bolsa de estudos para cursar Direito na Universidade de Fort Hare, situada em Johanesburgo. Considerada excelência no ensino, esta instituição atendia a minúscula classe média negra da África do Sul, e devido às injustiças que presenciou, nesta fase de estudante, Madiba resolveu assumir a luta em favor do povo negro.

Entrou para o Conselho Nacional Africano (CNA), organização não combativa que centralizava as atividades em formulação de petições, mas algumas questões políticas externas e internas conformaram a mudança de atuação do CNA: a escolha de Mandela para a executiva e a vitória do Partido Nacional Purificado, em 1948. A África do Sul não seria mais a mesma nessa convergência temporal de situações. Em 1951, Mandela se transforma no primeiro advogado negro de Johanesburgo.

O Partido Nacional Purificado tinha como plano de governo a instauração do apartheid: sistema que definia a raça branca como superior e validava a segregação racial a partir de leis. A atuação do governo passou a ter um caráter repressor onde qualquer manifestação era respondida com brutal violência.

As atividades do CNA também começaram a ser mais aguerridas sob a liderança de Mandela. Em 1956, foram colocados no banco dos réus 156 manifestantes sob alegação de que faziam atividades contra o governo. Este episódio ficou conhecido como Julgamento por Traição e demorou cinco anos para a absolvição dos acusados, incluindo Mandela.

A política repressora alcançou o ápice no chamado Massacre de Shaperville, momento em que 69 manifestantes que lutavam contra a segregação foram assassinados e 186 ficaram feridos. Com essa atmosfera repressora, Mandela não viu outra saída que não fosse assumir a luta armada; partiu para a ilegalidade lançando mão de disfarces, reuniões clandestinas e nomes fictícios. O objetivo era a organização de protestos de massa tencionando a derrubada das leis segregacionistas.

Mandela foi preso, em 5 de agosto de 1962, acusado de incitar o povo à greve, e por sair do país sem passaporte válido. Ainda preso, sofreu acusações de sabotagem e conspiração junto com outros líderes da resistência armada. Conhecida como Julgamento de Rivonia, em 1964, Madiba fez um discurso memorável em sua própria defesa, e a conclusão demonstra qual o limite colocado para alcançar a libertação do povo.

A prisão perpétua, recebida como sentença nesse julgamento, não foi levada à cabo. O prisioneiro número 46664 na Robben Island, demonstrou muito mais força do que seus algozes poderiam imaginar. No cárcere, apesar de sujeito a tamanho sofrimento, promoveu uma visão mais humana e organizou movimentos em busca de melhores condições aos presos.

Tão logo nos primeiros dias questionou o porquê dos uniformes dos africanos serem diferentes dos outros presos, na sua concepção caracterizava imensa falta de respeito. Durante esse tempo, aconteciam diversos protestos reivindicando a liberdade de Mandela, deixando o governo constrangido e encurralado no que se refere às negociações para contenção da convulsão nas ruas da África do Sul.

Nelson Mandela recebeu proposta de liberdade, em 1985, pelo presidente Pieter Willen Botha, caso se comprometesse a renunciar à luta armada. Sem hesitação, recusou. Mesmo assim, em 11 de fevereiro de 1990, foi colocado em liberdade e, meses depois, as últimas leis do apartheid foram abolidas.

Winnie Madikizela, ativista pelo fim da segregação racial e casada com Madiba, no período de 1958 a 1996, também foi fundamental para manter viva a memória do marido. Em 1993, Mandela recebeu o prêmio Nobel da Paz e, em 1997, foi eleito presidente da África do Sul. No dia 5 de dezembro de 2013, aos 95 anos, faleceu.

Considero que uma das maiores vitórias de Madiba não se resume em prêmios e cargos, mas conseguir sair do cárcere despido de ódio e, além disso, ter derrotado a segregação racial. Precisamos reconhecer que um homem ao colocar a vida em nome de uma causa para salvar milhões de seres humanos tem a estatura moral perdida no infinito.

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