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A música “Voz Ativa” ultrapassa as fronteiras do rap e representa um documento importante sobre a negritude no Brasil. A regravação do Dexter, em 2020, é tanto pertinente quanto necessária para fortalecer a luta antirracista

Texto: Juca Guimarães | Imagem: Pedro Borges

A música “Voz Ativa”, por tudo que diz e sugere, ultrapassa as fronteiras do rap e já, lá atrás, em 1992, representou um documento importante sobre a negritude no Brasil. Faz parte do registro de uma história que começou há muitos séculos e que hoje fundamenta a nossa cultura, modo de vida e relações sociais. Por esse motivo, a regravação do Dexter, em 2020, é tanto pertinente quanto necessária para fortalecer a luta antirracista.

Atualmente, 54% da população brasileira é negra, de acordo com a estimativa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O índice é fruto, sobretudo, do sequestro de homens e mulheres do continente africano que foram escravizados por quase quatro séculos.

No começo de tudo, em 1533, segundo os registros oficiais incompletos, eram 17 pessoas que foram vendidas na capitania de São Tomé, onde hoje fica a região do Norte do Rio de Janeiro e o Sul do Espírito Santo.

Neste grupo de 17 pessoas, que eram livres e foram cruelmente escravizadas, não há registro de quantos eram homens ou mulheres. Não se sabe as idades, os nomes, os amores, os sonhos ou os lugares onde nasceram. Os registros são incompletos e o passado foi apagado, assim como a história de 4,6 milhões de seres humanos escravizados no Brasil colônia.

Todo mundo que tem pelo menos um pouco de sangue negro correndo nas veias sente, na pulsação do coração, o gosto amargo deixado pela escravidão. Sente o vazio da história roubada dos nossos ancestrais.

Mas a voz não se cala. A voz é ativa, como diz a música dos Racionais MC’s no trecho “afrodinamicamente mantendo a nossa honra viva”.

Os músculos, a criatividade e o engenho dos negros e negras construíram as fronteiras e as riquezas do Brasil. Não existe um metro de chão sequer nessa terra que não faça parte do legado do povo negro.

Essa história de honra, reflexão e autoestima é contada e entrecortada na discografia dos Racionais MC’s. Desde Racistas Otários, do primeiro álbum Holocausto Urbano, passando por Voz Ativa, Homem na Estrada, Negro Drama e Quanto Vale o Show, do disco mais recente Cores e Valores. Eu vejo nas letras do grupo um fôlego de esperança na união do país inteiro contra o racismo.

Confira o videoclipe da releitura de “Voz Ativa”, lançado por Dexter, Coruja BC1 e Djonga em 21 de agosto:

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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