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As economias latino-americanas foram profundamente afetadas pela pandemia, entre outros motivos, porque ela afetou o trabalho informal e escancarou as desigualdades de raça e gênero da região

Texto: Gabriela Chaves | Imagem: Antonio Lacerda/AFP

Texto: A crise do coronavírus não criou muitas novidades, mas aprofundou problemas estruturais existentes não só no Brasil, mas em toda América Latina. As economias latino-americanas foram profundamente afetadas pela pandemia, entre outros motivos, porque ela afetou o trabalho informal e escancarou as desigualdades de raça e gênero da região.

O desemprego, não só no Brasil, mas em toda América Latina, está alcançando recordes históricos. Estamos presenciando uma corrosão muito grande dos postos de trabalho da região. A Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) projeta que o desemprego regional vai bater 13,5% no final de 2020, o que significa 44,1 milhões de pessoas desempregadas. Isso representa um aumento de quase 18 milhões de desempregados com relação ao nível de 2019, quando tínhamos cerca de 26,1 milhões de desempregados.

Nesse contexto de crise global, as mulheres têm sido especialmente afetadas, por alguns motivos. Em primeiro lugar, as mulheres ocupam os principais setores afetados pela pandemia, como hotelaria, alimentação e serviços domésticos. Também possuem uma taxa de informalidade relativamente superior aos homens; de acordo com a Cepal, 11,4% das mulheres latino-americanas se dedicam ao trabalho doméstico remunerado, sendo que 77,5% dessas trabalhadoras são informais.

O segundo fator diz respeito à paralisação de aulas presenciais, que, por sua vez, provocou um grande aumento na demanda de trabalho voltado ao cuidado (trabalho reprodutivo). Estamos falando de, pelo menos 113 milhões de crianças que estão dentro de casa desde março e que geram uma imensa sobrecarga de trabalho. As mulheres que conseguiram manter seus empregos, nesse contexto, estão enfrentando grandes dificuldades em conciliar duplas (ou triplas) jornadas de trabalho.

Desde o início dos anos 2000, as políticas redistributivas têm sido um dos principais pilares de enfrentamento à pobreza e à miséria na América Latina. Essa agenda se tornou prioridade para os governos de centro-esquerda (Brasil, Equador, Bolívia, Argentina) e de centro-direita (México, Chile, Peru, entre outros). De acordo com a Cepal, em toda a região já foram mapeados mais de 50 programas de transferência de renda condicionada, distribuídos em 21 países.

Os programas de transferência de renda emergencial são muito importantes dentro deste contexto. Trata-se de políticas necessárias para que possamos sair da crise, e que acertam ao beneficiar prioritariamente as mulheres. Entretanto, devemos analisar com atenção o movimento de expansão dessas políticas, sobretudo neste momento de hegemonia liberal e conservadora.

No Brasil, a extensão do auxílio emergência tem vindo acompanhada de cortes massivos em setores públicos estratégicos, como a própria saúde. Temo afirmar que os estados neoliberais têm se apropriado das políticas de transferência de renda política para transferir às famílias também a responsabilidade sobre a gestão dessa crise.

Distribuir renda é fundamental para que possamos sair dessa recessão. Esse movimento, entretanto, deve ser acompanhado de investimentos massivos em setores estratégicos da economia, como infraestrutura, saúde e educação. Nesse sentido, os desafios são muitos.

Além dos investimentos estatais, devemos nos ater ao contínuo ataque a direitos sociais até então consolidados, como a legislação trabalhista. No Brasil, estamos diante da menor participação de mulheres no mercado de trabalho dos últimos 30 anos, de acordo com o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Mesmo assim, quando indagado, o presidente insiste em individualizar problemas de ordem macroeconômica. Frases como "cada família que cuide do seu idoso", incansavelmente repetidas por Bolsonaro, nos permitem ilustrar essa individualização e transferência de responsabilidade que o projeto liberal tem para as famílias.

Individualizar problemas coletivos é uma estratégia muito antiga de desmobilização. Precisamos compreender as conexões entre as crises econômicas e sociais que vivemos e pensar saídas que, de fato, contemplem a maioria da população.

Gabriela Chaves é economista e fundadora da NoFront - Empoderamento Financeiro, plataforma que ensina educação financeira a partir de músicas de RAP. Também é mestranda em Economia Política Mundial pela UFABC e pesquisadora do NEPAFRO - Núcleo de Estudos Afro-Americanos, nas áreas de gênero, raça e trabalho. Em 2020, pela Editora Senac São Paulo, lançou o livro “Economia do Setor Público”.

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