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A Covid-19 se apresenta como mais uma opção de morte no cardápio da necropolítica. Não importa se é o coronavírus ou um agente de polícia que pisa em seu pescoço, o ar vai lhe faltar, de uma maneira ou de outra

Texto: Robeyoncé Lima | Imagem: Matheus Alves

Uma pandemia racial. A crise social, política e sanitária intensificada pelo coronavírus não afeta a todas as pessoas igualmente. Muito se fala que está todo mundo no mesmo barco, mas, na verdade, nesse sistema em naufrágio, muitas pessoas já morreram ou estão à deriva no mar e sem colete salva vidas, enquanto outras fazem churrasco e andam de jet ski.

A pandemia cria uma exposição exagerada de pessoas vulneráveis e que já estavam em situação de precariedade antes da Covid-19. As falências sistêmicas do capitalismo se manifestam de maneira mais explícita neste momento de pandemia, e se expõe graves problemáticas sociais antigas.

O que ocorreu com George Floyd e todos os protestos que acontecem nos Estados Unidos e na Europa expõem uma péssima experiência social desse modelo capitalista estruturalmente racista. A história de muitos séculos de escravização e racismo expõem vários erros sociais, e em muitos níveis.

Isso porque ao mesmo tempo que o racismo é estrutural, é também difuso, pois a questão racial é um fator de peso na mortalidade infantil e materna, na violência obstétrica, na letalidade policial, na seletividade penal, na longevidade e qualidade de vida, inclusive no contexto de pandemia. O Brasil teve uma história de quase 400 anos de escravização do povo negro, e todas essas faces do racismo estrutural são consequências desse período todo.

Com a crise, também se radicaliza a política de morte que já existia antes: quem deve viver e quem deve morrer, quem serve ao capitalismo e quem não. A necropolítica converte a morte em simples números, sem tanta importância. A cada 23 minutos um George Floyd é assassinado no Brasil.

O que ocorre é que se matam as mesmas pessoas que já se matavam antes, mas de outras maneiras. A Covid-19 se apresenta como mais uma opção de morte no cardápio da necropolítica. Não importa se é o coronavírus ou um agente de polícia que pisa em seu pescoço, o ar vai lhe faltar, de uma maneira ou de outra.

O vírus saiu da Europa de avião com destino ao Brasil, e agora chega às periferias via transporte público e também vai às cidades distantes pela estrada. O coronavírus não está mais em aviões, mas sim em terminais rodoviários e estações de metrô, afetando com mais intensidade pessoas pobres e negras, e isso não é por acaso.

A omissão intencional do (des)governo faz com que essas pessoas mais vulneráveis sejam contaminadas. No processo de pandemia, a necrogovernabilidade, também intencionalmente, classifica o trabalho doméstico como serviço essencial, expondo ainda mais as 6 milhões de trabalhadoras domésticas, em sua maioria negras. É o racismo e o sexismo em um duplo fenômeno, que nos faz relembrar que uma das primeiras vítimas fatais da Covid-19 no Brasil foi Cleonice Gonçalves, uma trabalhadora doméstica na cidade do Rio de Janeiro, e que hoje muitas outras são igualmente vítimas, como a própria Mirtes, mãe do Miguel.

Enquanto isso, a economia é reaberta, porque, no plano da necropolítica, a Covid-19 chegou onde deveria chegar. O coronavírus é tratado como pandemia enquanto sobe elevadores sociais. Depois que desce elevadores de serviço para subir o morro, deixa de sê-lo, porque é no morro mesmo que é para ficar.

É justamente por esse mesmo motivo que, embora há mais de 40 anos a humanidade conviva com o HIV, este nunca foi tratado como pandemia ou como protagonista de uma crise global, porque não atinge a economia capitalista de maneira fatal e também nunca consistiu uma real ameaça ao sistema. O capitalismo racista não permite que se considere como pandemia o fato de mais de 20 milhões de pessoas negras estarem sendo afetadas pelo HIV na África Subsaariana.

É possível começar a pensar que a pandemia estará conosco ainda por um longo período. Mas da mesma maneira que foi dito que “Milano non si ferma” (Milão não para), se defende a ideia de que “o Brasil não pode parar”, “morra quem morrer”. A abertura da economia e a proposta de um “novo normal” no meio de uma crise sanitária significa a irresponsabilidade de governantes com a contaminação em massa e, mais uma vez, com a naturalização das mortes de pessoas negras, porque sabemos muito bem que estes são os corpos mais afetados.

As pessoas que hoje fazem protestos nos Estados Unidos e na Europa justamente o fazem porque sabem que o sistema capitalista racista, ainda que em crise, não é capaz (e nem quer) modificar a si próprio. No discurso democrático, racismo não é tema, mas sim questão central de estrutura da própria democracia, porque não é possível estabelecer uma discussão sobre democracia sem discutir racismo.

Apesar disso tudo, foi internalizado na sociedade brasileira o mito da “democracia racial”, como se o racismo estrutural não existisse. Enquanto o mundo fala “black lives matter” (vidas negras importam), no Brasil os movimentos pró-democracia assumem uma posição de que agora a prioridade das forças progressistas é conter Bolsonaro e o seu fascismo. Afinal de contas, se afirma que, contra o fascismo, “somos 70%”, e graves problemas sociais como racismo, machismo, luta de classe, LGBTfobia e outras “pautas identitárias” se resolvem depois.

Robeyoncé Lima é nascida no Alto Santa Terezinha, zona norte da cidade do Recife (Brasil). Ativista de direitos humanos, formou-se em dezembro de 2016 no curso de Direito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Em 2017 tornou-se a primeira advogada trans do Estado, e hoje também compõe o mandato coletivo das Juntas, enquanto co-deputada estadual. É membra da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero da OAB-PE, e também dançarina amadora.

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