Texto: Juarez Xavier / Ilustração: Vinicius Araújo


 “Não há revolução sem teoria revolucionária!” A tese é do revolucionário soviético Vladimir Ilitch Lênin (1870-1924), dirigente da revolução russa, em 1917. Lênin foi um ativo militante na universidade.

A mesma questão está na raiz dos movimentos revolucionários negros, ao longo do século 20: todos se debruçaram sobre essa questão, em todos os continentes, onde a temática negra esteve presente.

Nas lutas contra a escravidão, em Palmares, conduzida por Zumbi dos Palmares (1655-1695) e Ganga Zumba (1678) e no Haiti conduzida por François-Dominique Toussaint Louverture (1743-1803), há registros de saberes tradicionais nas linhas de ações [táticas e estratégicas] dos revolucionários: das fortificações às “invocações dos ancestrais” para acompanhá-los na frente de luta.

No século 20, as lutas contra o racismo e o extermínio da população negra ensinam que a advertência de Lênin é válida, e que a universidade é um espaço possível para essa construção política.

Os líderes do movimento de negritude, que nos anos de 1930 afiaram suas armas teóricas no combate ao racismo, utilizaram o espaço da universidade como plataforma política de suas ações e projetos. Lópold Sédar Senghor (1906-2001), Aimé Césaire (1913-2008) e Cheikh Anta Diop (1923-1986) são exemplos dessa estratégia. Os conceitos desenvolvidos pelo movimento da negritude estão na base dos principais movimentos políticos negros, desde então: recuperação da identidade negra, de forma autônoma e independente, do soterramento promovido pela escravidão e racismo.

Os revolucionários que dirigiram as lutas de libertação na África, até a década de 1970, utilizaram o espaço acadêmico para suas articulações políticas: o líder moçambicano Samora Machel (1933-1986), o líder angolano Agostinho Neto (1922-1979) e o cabo-verdiano/guinense Amilcar Cabral (1924-1973). Suas reflexões teóricas estão entre as mais “belas letras” revolucionárias do século.

A experiência da África do Sul na luta contra o apartheid não é diferente. Nelson Mandela (1919-2013), Steve Biko (1946-1977) e Chris Hani (1942-1993) [o mais radical líder negro na luta contra a segregação] foram militantes políticos nas universidades que frequentaram. As experiências cubana, com Fidel Castro (1926) e Ernesto “Che” Guevara (1928-1967), e norte-americana, com Angela Davis (1944) e Toni Morrison (1932), fortalecem a percepção da importância do espaço universitário para a formulação, amadurecimento e aperfeiçoamento dos projetos, na construção do pensamento revolucionário negro, para a subversão das condições de vida e morte dos afrodescendentes.

O desafio da militância negra na universidade é compreender esse horizonte. Compreender as dificuldades de construir um comportamento político consequente em um ambiente hostil e adverso, como a universidade, em geral, e a pública, em particular, com a adoção das políticas de ingresso de negras e negros.

O geógrafo Milton Santos, em seus estudos sobre as contradições inerentes à globalização, observa que as condições [teóricas e empíricas] desse cenário [exploração da mais valia global, convergência de momentos, familiaridade técnica e cognoscibilidade do planeta] criam narrativas potenciais que fortalecem ou desarticulam o “discurso único” das desigualdades sociais: a globalização como fábula, a globalização perversidade e a globalização como possibilidade.

Na universidade, a fábula corresponde à crença de que o ingresso do afrodescendente se dá por esforço individual e meritocrático. Na instituição, entre iguais, ela/ele será respeitada/o como agente intelectual, produtora/r de conhecimento. No primeiro conflito, a meritocracia se dissolve e a violência explode em pichações, xingamentos e segregações.

Os mecanismos da perversidade entram em ação. Segregada/o, a/o afrodescendente “escolhe” abandonar o espaço acadêmico, como se ele não fosse para “elas/eles”: pessoa errada, no lugar errado na hora errada. A crueldade está na justificativa teórica para explicar esse “fracasso escolar”. Com o abandono da universidade confirma a tese racista de que a academia não é lugar de negras-negros.

A presença negra na universidade pode ser alimentada, como nos exemplos do século passado, pelas possibilidades abertas à militância. O ingresso negro possibilita a crítica à pesquisa [que deixa de lado aspectos essências da realidade brasileira como o extermínio da população pobre, jovem e negra], ao ensino [que se distancia da realidade factual do cotidiano da população brasileira, financiadora da universidade pública], à extensão [que se mantém distante da comunidade e não tem ela como foco central das inovações e invenção produzidas nas instituições] e à permanência e mobilidade estudantil [ainda um espaço de “cotas” para jovens oriundos das classes média e média alta].

As políticas públicas podem impulsionar mudanças nesse ambiente.

Essas condições favorecem a emergência de conceitos fundamentais para a construção da visão radical negra, nos aspectos teóricos e empíricos.

A universidade pública pode ser esse espaço de invenção conceitual, capaz de impulsionar a luta contra o racismo, a segregação e o preconceito, desde que a juventude negra não ceda à tentação da fábula, à violência da perversidade e compreenda as possibilidades da universidade, para a construção de uma teoria revolucionária que contribua com a superação das condições que aprisionam as/os afrodescendentes à miséria e à violência estrutural.

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