Espetáculo traz diálogos da princesa/rainha Dandaluana com a árvore ancestral e sua mãe, que lhe ensinam valores africanos e despertam sua autoestima; Aza Njeri é doutora em literaturas africanas e pós doutoranda em filosofia africana

Texto / Aza Njeri * | Imagem / Divulgação

Reestreia nesta sexta-feira (29) no Teatro Lauro Alvim, no Rio de Janeiro, o espetáculo “Meus Cabelos de Baobá”, escrito e estrelado pela artista Fernanda Dias a partir do argumento da professora e intelectual Simone Ricco. A montagem é dirigida por Vilma Melo, a primeira mulher negra a ganhar o Prêmio Shell na categoria de “Melhor Atriz”. O elenco também é composto por Ana Paula Black, Luiza Loroza e a atriz e musicista Bea Felicio dos Santos.

O espetáculo nos leva a um delicioso mergulho pela África do Oeste, com suas cores, musicalidade e corporeidade. A partir da história da princesa/rainha Dandaluanda, nos aproximamos da paisagem da senegâmbia com a construção de um cenário que privilegia as cores terrosas — em referência à savana senegalesa, tema de pesquisa de Fernanda Dias desde a sua especialização em danças africanas tradicionais e contemporâneas na École Des Sables, em Senegal.

A peça também localiza a narrativa no espaço-tempo, ao desenvolver a história em torno do diálogo da menina com a milenar árvore baobá. Importante salientar que a sacralidade das árvores é um ponto de unidade cultural africana e afro-diaspórica, se materializando não só ao respeito a esta árvore, mas também à mulemba, à jurema preta, à bananeira, ao jenipapo, entre muitas outras.

Além de possuir nas espiritualidades de matriz africana experienciadas no Brasil, o orixá Iroko cultuado no candomblé ketu; o vodum Loko, cultuado pelo candomblé jeje; e o nkisi Tempo, cultuado no candomblé banto; todos corporificados em árvores, sendo as mais associadas aqui a gameleira e em África, a árvore milicia excelsa.

A árvore, símbolo da vida em muitas culturas no mundo, corporiza a ponte para a ancestralidade nos seus três níveis de cosmo vivo: subterrâneo, em que raízes vasculham as profundezas e abrigam insetos e animais; a superfície da terra, com tronco, galhos, folhas e fruto, elementos vitais para todos no planeta; e a copa e galhos apontados para o céu, morada dos espíritos ancestrais. Com essa compreensão, Cachalote Mattos, artista que concebe o cenário, construiu uma baobá incrivelmente bela, lúdica, lírica e funcional para a construção das cenas.

Uma obra de escultura e design que agrega a estética árida característica da árvore baobá ao mesmo tempo em que é cadeira/trono para Dandaluanda e outros elementos a mais para a cena. Há ainda, na construção cênica, outras peças africanas como as máscaras de Guiné Bissau e da Angola e as cabaças gigantes de Moçambique.

O espetáculo é conduzido pelos diálogos da personagem Dandaluanda com a árvore ancestral e com sua mãe, que lhe ensinam valores africanos e despertam sua autoestima. Assim, somos suleados pelos fios dos cabelos crespos da garota em cada uma dasamarrações: a infância nos cuidados maternos com as madeixas da menina, arrumando-as em duas “marias-chiquinhas”; em seguida com um “afropuff”, penteado em que os cabelos são presos no alto da cabeça, fazendo um arredondado suave, como uma coroa remetendo a fase jovem; e os cabelos soltos, esvoaçantes e livres quando entronada soberana.

O figurino de Clivia Cohen mistura tecidos crus característicos do teatro negro, cuja referência é a vestimenta de terreiro e das senzalas, com capulanas, isto é, tecidos africanos de origem senegalesa e moçambicana. O resultado são roupas de cores vivas e úteis para a narrativa, sendo o figurino de Dandaluanda versátil e flexível, modificando-se para dialogar com cada fase da personagem. Vale pontuar a beleza do manto de rainha que se afasta do tradicional ocidental vermelho com borda em branco, para empregar cores e padrões africanos que trazem uma estética afrocêntrica reconstrutora de imaginários.

Desta forma, costuram-se sopros de autoestima por meio de metáforas dialogantes da nossa realidade enquanto afro-brasileiros. Acompanhamos, então, o crescimento da personagem rumo à conscientização de sua beleza, força ancestral e identidade negra, conforme caminha para a sua fase adulta e o seu lugar de rainha.

Enquanto espetáculo, “Meus Cabelos de Baobá” se fundamenta em três valores civilizatórios africano-brasileiros, de acordo com a apresentação da professora e intelectual Azoilda Loretto Trindade: corporeidade, musicalidade e ludicidade. A corporeidade é a compreensão de que o ará (corpo) é a ponte para o divino e ancestral. Nós, humanos, experienciamos o mundo pelo corpo, apesar de toda a metafísica ocidental e a visão do cristianismo. É no corpo que se materializam questões da alma, da mente e das energias que nos compõem.

Por isso, ver Fernanda Dias dançar e encenar é arabinrin na jo, o jo lẹwa — uma irmã que dança e é lindo, já que firme e ágil, tal como as bailarinas macondes, traz o movimento baseado nas danças africanas da senegâmbia, e, afro diaspóricas, como a dança das Yabás, oriundos de seu longo percurso como pesquisadora do movimento, discípula do mestre da dança Charles Nelson, preparadora corporal e professora.

A musicalidade, outro valor presente na obra, emana dos movimentos pulsantes de ritmos cadentes africanos, conduzidos ao vivo pela excelente multiartista Bea Felicio dos Santos ao tocar diversos instrumentos africanos do Oeste, sobretudo o Djembe. A música é fundamental não apenas por envolver dança em cena, mas por causa do valor emblemático que atravessa todos os povos africanos e afrodescendentes, sobretudo, os afro-brasileiros.

A trilha sonora original conta também com composições de John Conceição e Bárbara Santos. A ludicidade se constitui na peça em sua completude, como um valor constante atravessador do espetáculo desde o nome “Meus Cabelos de Baobá” à estética empregada para conduzir a plasticidade do espetáculo. Sentimos e entendemos, por meio do papel arteducador da obra de arte, que é uma narrativa de empoderamento feminino, alicerçada na estética negra, tendo a ancestralidade e a tradição oral como bases de reinvenção artística.

Ponto alto para a presença dos textos de Conceição Evaristo, a interação com a platéia, as doces cenas com beijo e a performance da briga. O que me deixou em dúvida foi a necessidade do rápido nu artístico em cena, não sei se agrega muita coisa para a narrativa.

“Meus Cabelos de Baobá” é uma peça cativante para toda a família, principalmente para meninas negras em processo de construção do seu lugar no mundo. De 29 de novembro a 22 de dezembro, serão 12 apresentações no Teatro Lauro Alvim, no Rio de Janeiro. Às sextas e sábados, às 20h, e aos domingos, às 19h. A classificação etária é de 12 anos e os ingressos estão disponíveis na internet. Corre lá!

Ficha técnica:

Encenação: Vilma Mello
Argumento: Simone Rico
Texto: Fernanda Dias
Elenco: Fernanda Dias
Figurino: Clivia Choen
Criação de luz: Binho Schaefer
Operador de luz: Vitor Tavares
Percussão: John Conceição e Bea Felicio dos Santos
Música: Bárbara Santos e Jhon Conceição
Concepção de Cenário: Cachalote Mattos
Produção: Damiana Guimarães

* Aza Njeri é doutora em literaturas africanas e pós doutoranda em filosofia africana. É crítica de teatro e literatura, poeta, pesquisadora, professora e mãe. Para conhecer mais sobre o seu trabalho, acesse o canal no YouTube.

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