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Reivindicar e ressignificar os nossos corpos gordos, pretos e periféricos no território e na consciência política é caminhar em direção a garantia da cidadania plena de todos nós

Texto: Keit LIma | Imagem: Acervo Pessoal

Precisei me reeducar para me amar. O auto ódio pelo nosso corpo e cor foi muito bem alimentado desde a nossa infância. Desumanizaram o meu corpo e precisei de muitos anos para me reencontrar, me enxergar e me amar. Foi uma jornada longa de autoconhecimento e autoafirmação. Foi um processo político e revolucionário.

Hoje me posicionar como pré candidata e lutar para ocupar espaços é dizer que corpos pretos, gordos e periféricos existem e que estamos criando novas narrativas de existência plena. É pela humanidade dos nossos corpos, pelo direito de ser e viver. A colonização se concretiza na medida em que vamos perdendo o nosso referencial estético e humano.

A maioria das pessoas confundem gordofobia com pressão estética, mas, há uma grande diferença entre os dois termos. A pressão estética atinge todas as pessoas, mas principalmente as mulheres, pois estamos submetidas a um padrão de beleza socialmente imposto.

Quando falamos de gordofobia, estamos falando sobre discriminação e sobre ser vista como doente sem nenhum exame que comprove isso. Estamos falando de exclusão social e de espaços e dos muitos olhares e atitudes que dizem e afirmam que determinados espaços não são nossos.

A gordofobia desumaniza e torna público o corpo gordo. O preconceito vem disfarçado de preocupação com a saúde, todo mundo finge preocupação com ele e se sente à vontade para aconselhar dietas ou recomendar um médico. As pessoas precisam entender e separar o corpo saudável do corpo magro, eles não são sinônimos. Todos os tipos de corpos podem ter pessoas doentes. Todos os tipos de corpos podem ter pessoas saudáveis.

Precisamos que as pessoas parem de destilar seu preconceito em forma de dicas, e ao invés disso, peguem essa energia e o tempo para lutar pra que as pessoas gordas tenham seus direitos assegurados, lute para que hospitais tenham macas, cadeiras, braçadeiras, aparelhos e roupas para todos, precisamos garantir acesso à todos os corpos. O corpo gordo não precisa ser tutelado, mas, precisa de direitos garantidos!!

Meu corpo é só meu, ele tem história, tem memória e é ancestral. O meu corpo preto e gordo em constante movimento merece ser vivido em sua plenitude e eu não preciso fugir dele, e você também não.

Hoje, abraço todos os meus atravessamentos como mulher preta, gorda (não sou cheinha, ossos largos, fofinha ou gordinha...EU SOU GORDA), cria da favela e nordestina. Me movimento e enfrento a realidade a partir e por causa desses atravessamentos.

É importante falarmos sobre autoestima, porém, é essencial e urgente falarmos sobre direitos e acessos, sobre política pública e defender o direito e o respeito que o meu e todos os corpos deveriam tem. Reivindicar e ressignificar os nossos corpos gordos, pretos e periféricos no território e na consciência política é caminhar em direção a garantia da cidadania plena de todos nós.

Keit Lima é mulher preta, gorda, periférica, ativista na luta pela equidade racial, de gênero e de classe. Moradora da Brasilândia, defende a política feita em primeira pessoa. Atua na Educafro, Marcha das Mulheres Negras, Grupo Mulheres do Brasil e Jurídico do Centro de Cultura e Acolhimento de LGBT - Casa 1.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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