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Essa mentalidade senhorial, que cultiva uma nostalgia da escravidão, não consegue enxergar uma pessoa negra dentro dos parâmetros da humanidade. Para eles, a cor da pele tem o poder de aludir à herança, a uma memória social, cujo passado escravista é reatualizado para contaminar o presente e desqualificar corpos negros

Texto: Henrique Oliveira | Imagem: Reprodução/Instagram

Santos e Ponte Preta se enfrentaram pelas quartas de final do campeonato paulista na noite da quinta-feira (30). No final do primeiro tempo da partida, o jogador Marinho, da equipe santista acabou sendo expulso. Até aquele momento, o Santos estava ganhando o jogo de 1 a 0, com o gol de cabeça do próprio Marinho. Após ficar com um jogador a menos, a Ponte Preta acabou virando a partida para 3 a 1 e eliminou o time do Santos.

Na rede social, Marinho pediu desculpas pela expulsão e reconheceu que ela foi fundamental para que o time fosse derrotado. “O que era para ser uma noite especial, e começou assim, se tornou um pesadelo. Peço desculpas ao torcedor pela expulsão, que foi infantil e reconheço.”.

No intervalo da partida, Fabio Benedetti, conhecido como Chef Benedetti, por ser chefe de cozinha, que também é comentarista da rádio Energia 97, foi questionado sobre o que diria a Marinho pelo fato de participarem juntamente de um grupo de whatsapp. Em suas palavras, Benedetti respondeu: “Eu vou falar assim: você é burro, você está na senzala, você vai sair do grupo uma semana para pensar sobre o que você fez.”

A declaração gerou indignação em parte da audiência da rádio, fazendo com que Fabio Benedetti pedisse desculpas pela sua fala ainda durante a transmissão. Benedetti também se manifestou no seu perfil no twitter, dizendo que: “Fui muito mal… Errei feio, usei uma palavra que nunca deveria, mesmo que sem intenção, na mesma hora percebi que falei uma grande M, pedi desculpas, mas sei que foi ridículo.”

Em uma nota oficial, Fabio Benedetti afirmou que pediu desculpas a Marinho e que como forma de reparação vai promover debates sobre racismo em suas redes sociais.

“Quero reforçar que sou e sempre fui totalmente contrário à qualquer tipo de discriminação, seja ela racial, de gênero, xenófoba entre outras e lamento muito pelo ocorrido, em momento algum tive a intenção de ofender ninguém. Por isso, quero aproveitar essa infeliz situação que provoquei como oportunidade de aprendizado”

A rádio “Energia 97”, que mantém no ar há 20 anos o programa Estádio 97, que reproduz uma lógica de mesa de bar com amigos torcedores dos seus times comentando sobre futebol e foi pioneiro em ter um comentarista assumidamente gay, num esporte tão machista e homofóbico como o futebol, declarou que Benedetti será punido com afastamento.

No seu perfil no Instagram, o jogador Marinho postou um vídeo e textos em forma de desabafo, chegando a chorar e a dizer que a justiça não pune os preconceituosos a quem ele se referiu como vermes, em que também deu a entender que já foi vítima de racismo em outras situações: “Quando acontece com a gente, a gente sente mais. E eu brigo toda hora. Por isso brigo pela causa, porque quando passamos na pele é horrível. E não podemos deixar isso passar. Eu sei quem eu sou, sei o valor que tenho. E aí, eu fico pensando, porque antigamente eu não tinha voz ativa, aí passavam despercebidas todas essas coisas.”

No começo de julho, após os protestos contra o assassinato de George Floyd (1973-2020) terem se espalhado pelo mundo e o lema “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam) virar slogan antirracista nas redes sociais, no meio corporativo e chegar aos atletas de várias modalidades esportivas, o jogador Marinho fez uma ácida crítica às pessoas brancas que se manifestavam contra o racismo só para ganhar likes na internet: “Quando chega na hora em que acontece alguma coisa, estão lá vestindo a camisa para aparecer na televisão. Mas por que não botam a cara quando a gente precisa, quando a população negra precisa de apoio? Por que não aparecem?”

Essa não foi a primeira vez que jogadores negros do Santos foram vítimas de racismo. Em 2019, veio a público um áudio de Adílson Durante Filho ex – conselheiro do clube, que também foi diretor de futebol do time profissional entre 2008 e 2009, em que ele dizia que todo pardo era mau caráter. Segundo Adílson Durante Filho, “O pardo o que é? Não é aquele negão, mas também não é o branquinho. É o moreninho da cor dele. Esses caras, você tem que desconfiar de todos que você conhecer. Essa cor é uma mistura de raça que não tem caráter.”

Adílson Durante afirmou que a sua opinião, inclusive, estava ancorada no saber acadêmico, provavelmente ele estava se referindo aos estudos sobre mestiçagem e degeneração feitos por defensores do racismo científico, como Nina Rodrigues, que não acreditava na possibilidade do embranquecimento da nação brasileira através do cruzamento entre brancos e negros. Em sua visão, o resultado da relação de sujeitos supostamente de raças superiores e inferiores, seria homens e mulheres propensos a violência, ao crime e aos vícios. Em fevereiro de 2020, o juiz da 5ª Vara Cível de Santos, condenou Adílson Durante a pagar R$ 10 mil reais em indenização que seria revertida às entidades de combate ao racismo.

O Brasil foi forjado a partir do mito da democracia racial, que por aqui, brancos e negros conviveriam de forma harmoniosa, sem que houvesse conflitos raciais, preconceito de cor e o racismo existissem de fato. Pois, como bem escreveu o diretor geral da Rede Globo, Ali Kamel, nós não somos racistas.

Se Marinho tivesse feito mais 2 ou 3 gols na partida, ele iria ser ovacionado, ninguém iria lembrar que ele é um homem negro, mas bastou ele cometer um erro e ser expulso da partida, que, rapidamente, fizeram questão de evidenciar que ele era um homem negro. E como homem negro que é deveria ser punido não com multa salarial ou afastamento do time titular, mas sim, ser enviado para senzala, para ser punido como um escravo, quem sabe ficar acorrentado no pelourinho ou levar umas chicotadas amarrado na trave do centro de treinamento do Santos, né?

Ninguém lembra que Marinho é um homem negro, e que ele pode ser abordado violentamente pela polícia quando sair de um jogo, porque está dirigindo um carro de luxo, ou ser baleado e morto, após o policial “confundí-lo” com as características de algum suspeito de crime. Ninguém se lembra que Marinho é homem negro, que faz parte de um grupo social que tem 2,7 mais chance de ser assassinado e que morre de forma violenta a cada 23 minutos.

Marinho é sobrevivente de um genocídio racial em curso no Brasil, mais um homem negro que ascendeu socialmente através do futebol, fugindo das estatísticas negativas que circundam a população negra brasileira e que mesmo assim não o deixa imune ao ódio racial. O jogador de futebol é um exemplo de como as pessoas brancas se relacionam com as pessoas negras. Elas nos toleram, nos tratam como pessoas com alguma utilidade, pois, se não, jogam na nossa cara que não servimos para nada porque somos negros.

É inegável a contribuição que os negros deram e dão ao futebol brasileiro, o próprio Santos têm na sua história uma gama de jogadores negros que foram geniais, além do próprio Pelé, que dispensa comentários. Porém, mesmo fazendo a diversão e dando dinheiro para empresários brancos, dirigentes de clube, emissoras de TV e patrocinadores, os jogadores negros sofrem com o estigma racial, que é acionado sempre que necessário. Como esquecer que o goleiro Barbosa, da seleção brasileira de 1950, ficou marcado e foi o principal responsabilizado pela derrota contra o Uruguai no Maracanã, produzindo um signo de desconfiança sobre o goleiro negro, ao ponto do humorista Chico Anysio (1931-2012) ter dito em 2006, que não confiava em goleiro negro, quando Dida era o goleiro titular da seleção brasileira para a Copa do Mundo.

Segundo o sociólogo Clóvis Moura (1925-2003), quando se fala do negro brasileiro, costuma-se dizer que ele foi um ótimo escravo e é um péssimo cidadão. Trata-se de um estereótipo marcado pelo saudosismo que visa impedir qualquer tipo de mobilidade social do negro na sociedade do pós-abolição, negando o status de cidadão. Transformar o negro em escravo foi o esforço realizado pelo racismo científico, a fim de comprovar a sua suposta inferioridade ao branco para justificar a reprodução de uma sociedade desigual.

Ainda segundo Clóvis Moura, bom seria o escravo que não protestava, aceitava o eito, o feitor, os castigos e as torturas, aceitando que seu status era eterno e imutável. Fazendo com que o preconceito fosse encarado como uma “visão natural”, de uma realidade social e não como expressão de uma racionalização que o branco das classes dominantes criou. Essa mentalidade senhorial, que cultiva uma nostalgia da escravidão, não consegue enxergar uma pessoa negra dentro dos parâmetros da humanidade. Para eles, a cor da pele tem o poder de aludir à herança, a uma memória social, cujo passado escravista é reatualizado para contaminar o presente e desqualificar corpos negros.

REFERÊNCIAS

MOURA, Clóvis, O negro, de bom escravo a mau cidadão? Editora Conquista, 1977.

Texto publicado originalmente no site Negrê.

Henrique Oliveira é historiador, membro do Coletivo Negro Minervino de Oliveira, e colaborador dos sites Alma Preta e Smoke Buddies.

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