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O poeta Akins Kintê apresenta a minissérie “Um Sol entre as Sombras de um Natal”, com textos sobre a festividade e relações afetivas; confira a quinta e última história

Texto: Akins Kintê | Ilustração: Marcos Z.X

Tentei ir no mais profundo e sincero pra trazer um sol pra ela. O papo de ontem ainda está fazendo inverno na preta. Colei cedo porque ela faz parte da organização e não para de chegar gente, só gente preta.

- “Não é tirando. É que hoje é um lance nosso, só nosso”, me explica um maloqueiro.

As crianças brincando, correndo, pulando, todas com cabelos naturais e roupas coloridas. Mesa farta, frutas, comidas saudáveis, sucos, sem refrigerante e bebida alcoólica. Música boa, uns rapão pesado, uns sambas antigos, umas músicas do oeste da África loka.

Uma lua no céu de se fazer admirar, um universo lindo de sentir pulsar no corpo. Nós, meros grãos de areia, íamos celebrar um dia de vitória.

As moças pretas, uma mais linda que a outra, altivas, cabelos, vestidos, risos, vários naipes. Os caras também, elegantes, postura, homens pretos bonitos, sorridentes, muito sorridentes.

Eu olho minha garota com alegria, ela me olha com preocupação, prometo que não vou cair no abismo da frustração e desistir da luta da vida, mas ela ainda não tem fé. Me fecho.

A escola de samba que abriu as portas é da Barra Funda, o quilombo no asfalto. Um casal tinha acabado de ter uma filha, o papai apresentou a mais nova pra aldeia, falou umas coisas no ouvido dela e depois a ergueu bem alto e disse o nome pra todos “Ayana”, declamou um poema e nós aplaudimos. Eu chorei, mas consegui disfarçar. Eu estava me desarmando, puta perigo.

Uma mana da leste foi cantar um rap, mais macumba que tudo, que voz pelamô. Muita informação, minha cabeça tá confusa, tudo novo pra mim, uma estranheza bonita, quanta gente feliz, faz tempo que não vou em um rolê de preto que não sai um debate.

Um tiozão Rasta, estava expondo uns livros, fui ver: - “Já leu esse aqui, ‘Se a Rua Beale Falasse?’.”. Nunca li um livro, fiquei envergonhado, mas o Velho Rasta levou de boa e me presenteou.

A preta pega o microfone e começa um discurso sobre unidade, a importância da solidariedade entre os pretos e pretas, na falta de qualquer um dos nossos é uma perca pra nós todos e todas.

Depois de dar o papo, ela vem na banca dos livros e com as lágrimas escorrendo pelos olhos sorri, toca meus lábios com um beijo nunca dado, me presenteia com a biografia do Malcolm. - “Vou ler essa fita, quero trazer meus primos, minha mãe e o P.H pra um encontro desse, talvez a gente não mate nossas mágoas, mas compreendi as milhares de frustrações, quem sabe ano que vem?”.

Ela com um sol nos olhos acesos me informa: - “Não precisa ser ano que vem, chama seu povo amanhã? Hoje é só o primeiro dia da Kwanzaa.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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