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No Youpix Summit, maior evento de influenciadores do Brasil, foi apresentada uma pesquisa inédita que mostra que os negros criadores de conteúdo têm menos oportunidades e são menos remunerados que os brancos

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Nataly Simões | Imagem: Reprodução/Papo de Preta

Engana-se quem pensa que os influenciadores digitais negros e negras só falam sobre questões raciais. Nós produzimos conteúdos sobre diversos assuntos, como alimentação, comunicação, lifestyle, moda e turismo, no entanto, temos menos oportunidades e ganhamos menos que os influenciadores brancos. Isso é revelado pelo estudo inédito “Black Influence: um retrato dos creators pretos do Brasil”.

Apresentada durante o YouPix Summit deste ano, que reuniu cerca de 100 palestrantes em quatro dias, a pesquisa entrevistou 760 influenciadores. Um exemplo comparativo apresentado no estudo mostra que em uma campanha que um influenciador branco recebe R$ 2.426,92, um negro recebe R$ 1.626,83 para fazer a mesma coisa.

O site Mundo Negro, que realizou a pesquisa ao lado da Squid, Black Influence, Sharp e YouPix, destaca que a apresentação dos dados da pesquisa foi feita pelo fundador da Black Influence, Ricardo Silvestre, e pela líder de projetos da Sharp, Lara Lages. “Um dado válido para se destacar a maioria dos criadores de conteúdo preto são chamados para falar sobre temas ligados ao racismo, mesmo que essa não seja a linha de conteúdo principal do canal ou do perfil”, destaca o Mundo Negro.

Ter pessoas negras em eventos como o YouPix é fundamental para mostrarmos os outros lados da moeda e como somos atingidos pelo racismo estrutural. A diversidade das discussões e a representatividade – termo bastante em alta – são importantes para garantirmos que o debate vai falar da maior parcela da população brasileira e também ter referências para ela. Além da participação em eventos como esse, queremos nossa parcela nos anúncios, na publicidade, nas consultorias (pagas). E como bem lembrou a pesquisa não queremos ser chamados para falar apenas de racismo, mas sobre qualquer tema que seja nossa especialidade.

Quando veio o convite do Youpix Summit aceitei na hora sem saber ao certo o que era. Mesmo atuando na área, sou meio desavisado para algumas coisas. Fui ler mais e entendi que é o maior evento de influenciadores do país. Percebi que entre os vários painéis, havia pelo menos uma pessoa negra. Entendo que isso é resultado dos movimentos antirracismo, que ganharam nova proporção em 2020 e é importante falarmos disso.

O painel que participei ocorreu em 4 de setembro, das 10h10 às 11h, e chamava “2020: O ano em que a Terra parou – Quais são os desafios atuais dos produtores de conteúdo de viagem?”. Houve a participação de Natie Soares (co-fundadora do Sunday Cooks), Natália Becattini (jornalista e co-fundadora do 360meridianos), Anna Laura (jornalista e criadora do Carpe Mundi), além de mim, que criei o blog que Guia Negro, que fala sobre viagens, mas também sobre cultura negra.

Confira as perguntas que foram feitas e o que respondi:

No mapa mundi dos produtores de conteúdo de viagens, qual é o seu país?

Eu sou o Guia Negro, um país ou blog afro diaspórico, que como todo país da diáspora africana tem muita cultura, muitas formas de ser conhecido em viagens, mas que sofre certo racismo de outros países exatamente por exaltar essa negritude.

No começo da pandemia escutamos que esse seria o momento ideal para o mercado de turismo “se reinventar”. Você acha que as empresas realmente vão passar a adotar políticas mais inclusivas ou ainda parece mais um post de Instagram?

Para além de o ano em que a terra parou, eu tenho chamado 2020 de “o ano do pensamento mágico”. Já que todos nós tivemos que parar e repensar o que estávamos fazendo. Não pudemos viajar para fora e quem se permitiu foi convidado para viajar para dentro. Fomos estimulados a ter esse pensamento mágico das crianças que nos faz imaginar situações diferentes e a lidar com lutos, seja de pessoas que a gente perdeu, ou oportunidades de trabalho, a uma vida que não pode ser vivida. Ao mesmo tempo, esse foi o ano em que o antirracismo veio à tona. Algo que nós pessoas negras temos batido na tecla há anos ganhou uma projeção antes não pensada.

Eu vejo as empresas abrindo vagas com recorte racial e querendo discutir esse tema. Mas ainda vejo isso ocorrendo de forma muito tímida. Ainda há um entendimento que o racista é alguém mal e distante e não que isso está introjetado na sociedade e que todos precisamos combater. Por isso, eu digo que temos pressa e precisamos fazer mais. Isso passa por termos mais pessoas negras nas empresas, por ter ações antirracistas de fato, por combater o racismo quando ocorrer e por incentivar quem promove experiências que valorizem a história e cultura negra. Ainda falta investir mais no antirracismo e no turismo afro!

Em tempos de pandemia, como continuar produzindo conteúdo sem parecer insensível e descolado da realidade?

Passamos a falar mais sobre cultura negra e sobre viajar de outras formas. Mas também é hora de falar sobre planejamento. Principalmente para as pessoas negras, que precisam se planejar mais, é hora de pensar e construir as próximas viagens, que ainda não sabemos quando vão acontecer, mas sonhar elas e economizar, considerando esse projeto futuro. Só de planejar e pesquisar sobre o destino já há um estímulo e uma mudança de humor.

Tendo em vista um cenário tão delicado, como plurificar nossos canais de monetização sem dependermos tanto dos pilares de publicidade e programas de afiliados?

Acho que para os produtores de conteúdo negros o buraco é mais embaixo: muitos ainda não tiveram acesso a esses canais de monetização tradicional e precisam serem auxiliados para conseguirem pagar seus trabalhos. Vejo iniciativas independentes como lançamentos de ebook e produtos digitais, além de livros, consultoria e venda de produtos direcionados para o público. Aqui no próprio Youpix foram apresentados dados dos Black Influencers que mostram que pessoas negras recebem menos nas mesmas ações que pessoas brancas. Eu diria: isso quando são chamadas. Não é, mesmo? Afinal, a publicidade ainda privilegia o produtor de conteúdo branco e dentro dos padrões desenhados por nossa sociedade racista e desigual. Eu vejo no Black Money, a troca de dinheiro dentro da comunidade negra, uma possibilidade de alavancarmos uns aos outros. Temos exemplos fantásticos disso como a Brafrika Viagens, a Diaspora.Black, Favelados pelo Mundo, Mochilek, entre tantos outros.

Texto publicado originalmente no site Guia Negro.

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Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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