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Escrevi no meio da escassez e das dores de morte, sobre os becos de meu bairro, sobre o amor, sobre os amores perdidos, sobre a solidão e sobre meus filhos, sobre minha avó, sobre as lutas que travei para me manter de pé até aqui

Texto: Hamilton Borges | Imagem: Reprodução/Medium

Eu amo a escrita, sou daqueles que, se não escrever, entristece, definha e morre.

Escrevi no meio da escassez e das dores de morte, sobre os becos de meu bairro, sobre o amor, sobre os amores perdidos, sobre a solidão e sobre meus filhos, sobre minha avó, sobre as lutas que travei para me manter de pé até aqui.

Me armei de escrita, de ódio, de força, me municiei e declarei os nomes dos mortos do genocídio negro na Bahia. Com meus pares, maioria de mulheres no comando, gritei seus nomes, seus sonhos e seu apelo por justiça rebrilhando nos olhos de suas mães.

Escrevi sobre meus amigos mortos e sobre meus amigos encarcerados, todos vivendo ao lado da morte e dançando com ela olho a olho e eu , registrando tudo, sempre atento, apenas cansado de tanta dor.

A escrita sempre foi o respirador que me dava um pouco mais de ar para suportar outro dia enfrentando Tanatus, esse mito grego, tão poderoso e presente em nossas comunidades ocupada pelos senhores de uniforme e coturno, armas letais a serviço do povo que determina nossa morte e goza de privilégios raciais. Duro nos perceber assim, controlados pelas urnas, pelas festas banais, pelas luzes e brilhos das redes socais, imolados num sacrifício sem fim de nossas vidas.

Eu não sei, parece que exagero, mas diante de tanta desgraça, os negros e negras que ascendem numa crença no capitalismo, não querem refletir sobre a dor, querem mostrar uma afirmação de progresso, seus diplomas, seus carros finos, seus comprovantes de funcionários públicos e que também possuem poder. Por mais inútil que seja esse poder para a coletividade preta.

Me parece que alguns escritores e escritoras pretos e pretas também, querem se desviar dos rótulos que os colocam relacionados com seu próprio povo, querem ser neutros e até criam estratégias de distanciamento, aquele linguajar lento e educado, aquela performance literária que vai perdendo o sabor das ruas, aqueles temas que não podem futucar a dor e nem nos colocar naquele lugar tão temido aos que querem virar cânone ou no mínimo ocupar um palco um pouco maior na Flip, não querem ser panfletagem, dizem que o que fazem não é militância. Eu tenho me medo de me contaminar desse charme de gabinete.

Eu tenho narrado a dor e não, não me inibem os que dizem que podem ver o que escrevo num jornal, que em certo nível é um diário, anotação sem arte. Eu insisto que fabulo e que ficciono extraindo do mais duro da vida, dos lugares por onde ando.

Veio a pandemia e com ela esse novo mundo de que falam tanto, o distanciamento, a dor dos familiares de gente que partiu sem ar, sem carinho e sem companhia no leito de uma UTI.

Tudo continua como antes sob meu olhar forjado para a desgraça coletiva em que vivemos. Nenhum arroubo antirracista me comove ao ponto de eu desacreditar numa saída fora da coletividade preta, fora de uma marcha preta sobre o Brasil.

Luta de classes, antirracismo, promoção da igualdade, luta contra racismo institucional não vão dar conta do ódio que se pratica contra nosso povo, é uma distração perigosa. Fora das urnas, fora dos brilhos e das plumas, a luta preta exige coragem, organização politica autônoma, terra, poder de fogo e honestidade histórica.

Mas a pandemia também trouxe um incômodo fluindo em meu peito. Comecei a pensar em me preparar adequadamente para a morte, cuidar para ser recebido pela árvore primal que me gerou, preparar meus mais novos com suas folhas e cantos, seu ritual e a certeza que a vida não para quando nos plantam na terra, exigir ser plantado no barro, que se lute para que o governo não nos creme. Comecei a convocar todas as ancestrais (iba-me), preparando cada elemento de água, terra, vento me organizando para a doce a travessia.

A pulsão da morte, a morte circulando como nunca tinha visto, mesmo tendo registrado tanta vida interrompida por bala, tristeza, raiva, fome, faca e medo.
Eu olhei pra morte e pensei no prazer da vida, no amor, na delícia do afeto e na safadeza, na libertinagem, da descaração, na obscenidade e todas essas coisas que povoam meus poemas, meus contos, romance e meu corpo devasso, forjado para o pecado e a transgressão.

A escrita de caráter libertino, pornográfico, lúbrico no Brasil sempre ficou fora de cena, escondido, pelas sombras do sistema literário quando não considerado sujo, baixo, sem valor e portanto banido de qualquer debate que se julga sério, rebuscado, cientifico.

Grandes escritores brasileiros flertaram com o obsceno quando não mergulharam no lúbrico com todas as suas forças, escreveram grande obras da literatura pornográfica com pseudônimos que pretendiam esconder sua identidade para não manchar sua imagem cristã.

Me ocupo em desvendar rastros de pretitude nessa literatura marcada pelo signo do abjeto, do sujo, do incômodo, banido. Nossos corpos o corpos negros eram também assim, literalmente marcados, por eles os brancos, escravocratas violentos. Nossos corpos foram expostos como mercadoria, abusados, estuprados. O negros e negras na literatura erótica ou obscena seguem uma rota, carregam uma marca, uma busca pelo não dito, o escondido, nada muito exposto, o amor como base, Eros como patrono. E como realizamos essa literatura mais ousada e erótica? Pelo pouco que vi e tenho que mergulhar muito mais, nesse vasto campo da literatura, as poetas e os poetas negros optaram por buscar no erótico um sentido da afirmação do corpo pelo amor, pela responsabilidade afetiva, pelo que Audre Lorde nomeia como o poder feminino, o erótico como fonte de força e poder feminino tão amplamente combatido pelo patriarcado.

“O erótico tem sido frequentemente difamado por homens e usado contra as mulheres .Tem sido tornado na confusa, na trivial, na psicótica, na plastificada sensação. Por essa razão, temos frequentemente dado as costas à exploração e consideração do erótico como fonte de poder e informação, confundindo-o com o seu oposto, o pornográfico. Mas a pornografia é a negação direta do poder do erótico, pois ela representa a superação do verdadeiro sentir. Pornografia enfatiza a sensação sem sentimento.” (Audre Lorde , usos do erótico, 1984)

Sem ter uma resposta, me questiono sobre nossa narrativa sobre o tema do sexo e do amor ser quase que geralmente pela linguagem do erótico, outro deus grego que vem a designar a feitura literária que investigo, os gregos e latinos não podem nos definir e guiar, mas não encontrei similar em raiz africana. Eros é o deus do amor, o deus do toque dos corpos com a reciprocidade dos prazeres da alma, um deus que ama e é o próprio amor. Não é uma literatura das brechas, o sexo não se revela totalmente, se insinua apenas. Parece que ao escolher essa modalidade e esse gênero dentro do “cânone do obsceno” nós escolhermos ser o que espera uma sociedade, cristã, patriarcal e castradora. Porque não optamos pelo pornográfico (porné) prostituta (grafus) escrever? Porque escrever sobre os órgãos sexuais, o gozo, a putaria, o profano, o malicioso, o imoral, o transgressor nos causa tanto desconforto?

Por que transgredir as regras morais de uma sociedade que nega nossa humanidade é tão difícil? Será que ainda queremos provar aos brancos com suas instituições religiosas, politicas e juridicas que fazemos as coisas certinhas para ter sua aprovação? Alguns fazem manuais para ensinar aos brancos racistas em particular e os brancos de um modo geral sobre o racismo. Se faço manuais é de ruptura, de guerra, que acentue o ódio para sabermos usá-lo.

Eu me agrado da pornografia e desafio-me a romper com seus usos patriarcais e transfóbicos e homofóbicos, que tem na mulher um objeto de prazer masculino, assemelhando-se ao estupro, e nas chamadas sexualidades desviantes motivo para punição, banimento e castigo. Experimento a ideia de compor personagens que gozem, que enfrentem a sociedade do controle dos corpos e da sexualidade, esse controle ao serviço do poder. Proponho uma literatura preta libertina que se dirija contra o poder e liberte os corpos para prazeres dos copos, corpos transgressores com seus diversos gêneros e expressões sexuais destoantes, eu proponho para mim mesmo essa tarefa, pois sei que ela já existe por ai. Mesmo em meus textos você vai encontrar essa vontade de se exprimir pelo erótico, pelo obseceno, pelo pornográfico como forma de libertação desse biopoder que pretende gestar nossos desejos, para assim controlar o mundo.

Eu amo a escrita e tenho o prazer de escrever para o gozo, os gemidos e a vida.

Hamilton Borges é escritor, autor de obras como “O Livro Preto de Ariel”, “Teoria Geral do Fracasso” e “Salvador, cidade túmulo”, e idealizador da organização política Reaja ou Será Morto, que atua em Salvador, na Bahia.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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